Ordo Fratrum Minorum Capuccinorum PT

Log in
updated 10:33 AM UTC, Mar 1, 2024

Dois novos veneráveis

Na audiência de 24 de janeiro de 2024, papa Francisco, autorizou o Prefeito do Dicastério para a causa dos santos, cardeal Marcello Semeraro, publicar os decretos que reconhecem as virtudes heroicas de dois confrades nossos: D. Cirillo Giovanni Zorhabian, e frei Gianfranco Maria Chiti.

A boa notícia, sobre a causa de D. Cirillo, chegou exatamente no dia em que se celebra os 120 anos (24 de janeiro de 1904) da sua ordenação diaconal (no mesmo dia em que receberam o sub diaconato os beatos Tomas e Leonardo Baabdath).  Isso depois de um longo percurso, não sem dificuldades e obstáculos, porém mantendo sempre viva a memória desse infatigável missionário e bispo que experimentou a perseguição e o massacre de toda a sua família.

            Quanto a causa do frei Gianfranco, essa foi mais rápida. Sustentada por seus “granadeiros” que reconheceram nele uma fé viva e forte que se transformava em precioso gesto de caridade. A sua vida, vivida entre o ser militar e ser capuchinho, tem contudo uma ligação e uma continuidade: a adesão profunda ao Senhor na escuta atenta da sua vontade e da sua palavra. Atenção e escuta que só poderiam ter como modelo a Virgem Maria, de quem frei Gianfranco sempre foi um autêntico devoto. Mesmo nos momentos mais dramáticos de sua vida, como quando sobreviveu na retirada da Rússia ou no internamento no final da Segunda Guerra Mundial, a Virgem Maria foi seu refúgio e seu guia.

D. Cirillo Giovanni Zohrabian 

D. Cirillo Zohrabian, nasceu, muito provavelmente, em 25 de junho de 1881, em Erzerum (Turquia). Na infância, sua única escola foram seu pais, dos quais aprendeu o espirito de sacrifício e os primeiros ensinamentos do Catecismo e de língua armênia. Frequentando logo depois o colégio dos Irmãos das escolas cristãs (Lassallistas).

No encontro com os capuchinhos, cresceu nele a semente da vocação, e no dia 02 de setembro de 1894 foi acolhido no convento de Santo Stefano, em Istambul. Foi admitido ao noviciado no dia 04 de julho de 1898, e lhe foi dado o nome de Cirillo. Ele foi companheiro de estudo de dois, agora beatos, Tommaso e Leonardo da Baabdath. No dia 12 de maio de 1904 recebeu a ordenação presbiteral, e logo em seguida, havendo superado o exame para os missionários, no dia 10 de abril de 1905, foi destinado a estação missionária de Erzerum (Trebisonda), na qual chegou no dia 16 de julho de 1905. Aqui dedicou-se, além do ministério, ao ensinamento em uma escola por ele fundada. 

Com o início da primeira guerra mundial, o servo de Deus se encontrava em Istambul. Nesse mesmo período acontecia o genocídio armênio, durante o qual, todos os seus familiares foram mortos. Somente em julho de 1920, pode chegar a Trebisonda para ajudar os gregos armênios, forçadamente expulsos do Ponto. É próprio por causa dessa obra de caridade que o servo de Deus, em 07 de março de 1923 foi expulso de Trebisonda. Chegando a Istambul foi preso, torturado e condenado a morte. Mas afortunadamente liberado nos últimos instantes, foi expulso da Turquia, encontrando refúgio na Grécia, onde continuou a cuidar dos refugiados armênios. Em 21 de dezembro de 1925, como Superior das Missões para os armênios da Grécia, convidou a Atenas, os confrades capuchinhos de Palermo. 

Nomeado Vigário Patriarcal de Gerizia (Síria), no dia 21 de novembro de 1938, o Servo de Deus deixou definitivamente a Grécia para fundar o novo ordinariado. Também nessa região da Síria, o Servo de Deus se fez próximo aquela gente. No dia 8 de junho de 1940 foi nomeado bispo titular de Acilisene, recebendo a consagração episcopal em Beirut, no dia 27 de outubro de 1940, onde encontrou com alegria e estima o beato Abouna Yaaqoub (Giacomo da Ghazir). Nesse ínterim, inicia a Segunda Guerra Mundial, e sua saúde estava sempre piorando. Por esse motivo S. B. o Patriarca do Armênios, cardeal Gregório Pietro Agagianian, lhe aconselhou de tornar-se emérito. Em espirito de obediência, no dia 12 de junho de 1953, apresentou sua demissão. 

Estabelecido em Roma, o Servo de Deus foi nomeado Visitador apostólico dos armênios da América Latina (1953-1954). Visto que a tentativa de criar um ordinariado naquela região havia falido, passou os últimos anos de sua vida numa infatigável ajuda às famílias armênias pobres. Faleceu em Roma, no dia 20 de setembro de 1972 no convento capuchinho de “San Fedele in Urbe”.      

O servo de Deus foi um homem autêntico, um frade humildo, um bispo pobre, um fiel discípulo de Cristo e que não esperou que as condições fossem favoráveis para anunciar o Evangelho ou viver o perdão, ou levar consolo, ou dar o pão a quem não tinha. Iniciou com aquilo que tinha, e estava sempre aberto à providência de Deus, na certeza que o senhor é sempre presente. Sabia na sua profunda fé, que retendo qualquer coisa somente para si mesmo, o milagre da partilha e da beleza de uma fraternidade, jamais haveria acontecido. 

Animas Deo: “dai-me almas para levá-las a Deus”, foi o lema episcopal do Servo de Deus. Aí se expressa o seu doar-se pelo Senhor que o havia chamado, como servo fiel e justo, a compartilhar e acompanhar o martírio do povo armênio. Uma fidelidade que aprendeu de seus pais de quando era ainda criança, Vartan e Sara Ohannessian, mortos durante o grande genocídio. Estes não só o iniciaram com palavras ao amor de Cristo crucificado, mas lhe deram o exemplo com o próprio martírio. Uma fidelidade que não o fez recuar nem mesmo diante do encarceramento, da tortura – foi exposto a pancadas na sola dos pés: 60 golpes cinco vezes – e mesmo a condenação à morte. 

Os seus pés tornaram-se assim um ícone da “sua paixão” por Cristo e pelo povo armênio. Do Cristo, servo de Deus aprenderá a perdoar não só aqueles que lhe haviam feito mal, mas também aqueles dos quais se sabia poder esperar uma ajuda concreta, e não veio. 

Admirado pela sua pobreza e humildade, hoje a Igreja reconhecendo nele uma vida vivida na heroicidade das virtudes, o apresenta a todos os fiéis como missionário incansável, pai amável e sinal de paz para um mundo inquieto.   

Venerável Fr. Gianfranco Maria Chiti

Frei Gianfranco Maria Chiti, nasce em 6 de maio de 1921, em Gignese (Novara). Passou a infância e adolescência em Pesaro, onde o pai era professor de violino no Conservatório daquela cidade. Desde pequeno teve os primeiros contatos com a Ordem Franciscana Secular e com a Conferência de São Vicente de Paulo. 

Depois da 5ª seria ginasial, em 30 de outubro de 1936 entrou no colégio militar de Roma, para depois der admitido e poder frequentar a Academia Militar de Modena, em 1° de novembro de 1939. Em 29 de abril de 1941 entrou no serviço junto ao 3° Regimento da 21ª Divisão de fronteira “Granateri da Sardenha”, participando da operação de guerra na Eslovênia na fronte Grega-Albanesa. Junto ao 8º Exército destacado na Frente Oriental, participou da campanha russa de junho de 1942 a maio de 1943. Durante a retirada do Exército Italiano na Rússia manteve-se sempre próximo dos poucos sobreviventes de sua companhia, causando um efeito de congelamento sobre ambas as pernas.

Retornando a Itália, o armistício de 8 de Setembro de 1943 atingiu-o enquanto se situava no norte da Península. Fiel ao juramento que prestou, colocou-se ao serviço da República Social Italiana, operando numa unidade Granadeiro. Ele sempre evitou que seus homens cometessem atrocidades e, assim, salvaram a vida de numerosos guerrilheiros e até de alguns judeus.

À chegada dos Aliados, o Servo de Deus foi detido e posteriormente internado nos campos de concentração de Tombolo (Pi) e Laterina (Ar) e submetido a um processo de expurgo perante o Tribunal Militar do qual saiu completamente absolvido. De 1945 a 1948, enquanto aguardava a reintegração no exército italiano, lecionou matemática no Liceo Ginnasio “Giuseppe Calasanzio” degli Scolopi em Campi Salentina (Le). Em março de 1948 foi reintegrado nas fileiras do Exército italiano e pouco depois enviado para a Somália, nação confiada à Itália pela ONU após o fim da presença colonial e para a transição para a independência. Retornando à Itália em junho de 1954, dirigiu o Curso de Oficiais Cadetes Somalis junto a Escola de Infantaria de Cesano. De 20 de outubro de 1973 a 10 de janeiro de 1978 foi nomeado Comandante da Escola de Suboficiais do Exército de Viterbo, momento em que foi afastado, por ter atingido o limite de idade, com a patente de general de brigada.

No dia 30 de maio de 1978 foi admitido na Ordem dos Frades Menores Capuchinhos, entrando especificamente no convento de Rieti, como postulante. No dia1° de novembro de 1979, ao final do noviciado, emitiu os votos religiosos. Recebeu a ordenação presbiteral no dia 12 de setembro de 1982. Em 1990, com a ajuda dos “seus granadeiros” começaram, a restauração do antigo convento de San Crispim de Viterbo em Oviedo, transformando-o num local de oração e de encontros espirituais. Após um acidente de carro em 9 de julho de 2004, foi internado no hospital militar do Celio, em Roma, onde faleceu em 20 de novembro de 2004. Foi sepultado na capela da família no cemitério de Pesaro.

A viva devoção eucarística e a entrega materna à Virgem Maria, sob cuja proteção encontrou refúgio com a recitação do Rosário, foram os instrumentos para entregar e amar o Senhor Jesus Cristo. Para o soldado Chiti, isso é o que significava viver plena e consistentemente as virtudes típicas deste estado: lealdade, sentido de honra, fidelidade e coragem; para o frade capuchinho Gianfranco Maria, isto significou viver intensamente a obediência, a pobreza, a humildade, a doação total.

O Servo de Deus tinha como seu lema: “a vida é um dom recebido e uma riqueza que deve ser dada”. Palavras das quais emergem a experiência da sua espiritualidade. Expressão de um homem, soldado e frade, que soube com certeza, que quanto mais a vida se guarda para si, mais ela perde o seu valor, tornando-se incapaz de fazer vir a luz aquele poder de fogo que é a caridade, o único e perfeito poder, dado aos homens por Jesus que, “por amar demais os homens, sofreu no Getsêmani e foi crucificado”.

Última modificação em Quinta, 01 Fevereiro 2024 16:27