Curia Generalis Ordinis Fratrum Minorum Capuccinorum

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updated 6:44 PM CEST, Jul 25, 2017

Dois rostos do mesmo carisma

Destaque Dois rostos do mesmo carisma

Carta circular do Ministro Geral às Clarissas Capuchinhas

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Dois rostos do mesmo carisma

Carta circular do Ministro Geral às Clarissas Capuchinhas
(Prot. N. 00268/17)

Roma, 25 de março de 2017.
Solenidade da Anunciação do Senhor

Caríssimas Irmãs,

O Senhor lhes dê a sua paz!

Esta carta é dirigida, em primeiro lugar, a vocês, irmãs, pois refere-se à sua vida. Desejo, primeiramente, dar graças a Deus pela sua presença e testemunho contemplativo, que nos fala da busca profunda e total do rosto do Senhor. Com sua vida, vocês são um dom para toda a Igreja e, especialmente, para nossa Família capuchinha. O que seria de nossa missão sem o auxílio da sua oração fiel, sem a sua presença discreta e preciosa ao nosso lado?

Quero assim oferecer à sua reflexão alguns pensamentos, consciente de que, para vocês, este é um tempo de particular graça após a Constituição Apostólica “Vultum Dei Quaerere” e o início de um trabalho particularmente exigente sobre a sua legislação fundamental, que agora estão prestes a começar.

1.    Dois rostos do mesmo carisma

“O Filho de Deus fez-se para nós o Caminho,
que nosso bem-aventurado pai Francisco,
que o amou e seguiu de verdade,
nos mostrou e ensinou por palavra e exemplo”
(Santa Clara, Testamento 2).

1.1    Santa Clara prestou uma atenção particular em considerar São Francisco como fundador e, consequentemente, fazer com que a Igreja reconhecesse oficialmente as Irmãs Pobres como parte da mesma família dos Frades Menores. Certamente, São Francisco é um fundador de todo particular. Não deixou normas precisas, apenas iniciou um espaço de fraternidade, e indicou um caminho espiritual (cf. São Francisco, Forma de Vida dada a Santa Clara; Santa Clara, Regra das Irmãs Pobres VI, 3-4). Não o fez como um patriarca que formula as regras para suas filhas, mas apenas como irmão que acompanha, deixando-as livres e autônomas, confiando em sua maturidade e capacidade de abertura ao Espírito Santo.

1.2    A relação entre Francisco e Clara é fundamentalmente de comunhão, na consciência de expressar dois rostos do mesmo carisma. Esta relação original configura a relação entre nossas Ordens. A promessa do fundador de ter zelo e solicitude fraterna, bem como para seus irmãos, hoje é motivação para nossa proximidade. Não é importante a associação jurídica, nem mesmo a assistência pastoral ou o serviço sacerdotal dos capelães e dos confessores. O que mais importa entre nós é a relação de fraternidade.

1.3    A nossa reforma Capuchinha tinha o forte desejo de voltar à intenção primordial de São Francisco e, nos primeiros momentos, não queria assumir o cuidado pelos mosteiros de monjas, uma vez que era considerado um trabalho estável, fixo e delicado, contrário à pobreza e à itinerância. Assim, as primeiras Constituições da nossa Reforma proibiram-no de modo absoluto (cf. Constituições Capuchinhas de 1536, cap. XI). A venerável Lourença Longo operou um verdadeiro “milagre”, conseguindo que, em 1538, o Papa reconhecesse que o mosteiro de Nápoles, já aprovado em 1535, estivesse sob a primeira Regra de Santa Clara e agregado aos Capuchinhos (cf. Papa Paulo III, Motu proprio “Cum Monasterium”, 10 de dezembro de 1538). A inspiração e a paixão de Madre Lourença permitiram à reforma capuchinha readquirir o modo original de expressar os dois rostos do mesmo carisma.

1.4    Hoje, após quase quinhentos anos, podemos nos perguntar se a nossa relação é centrada na fraternidade, ou é mais importante para nós buscar a dependência jurídica, o serviço sacerdotal ou de formação? Valorizamos a gratuidade das relações? Colocamo-nos como iguais? Somos capazes de compartilhar as nossas experiências? Servimo-nos na reciprocidade? Por que, entre nós, é tão difícil nos chamarmos de irmão e irmã, e não padre, madre? Estamos sobre a base da nossa identidade original?

2.    Reflexo do Deus Comunhão

 “Transforme-se inteira, pela contemplação, na imagem da divindade”
(Santa Clara, III Carta a Inês de Praga 13).

2.1    O Vaticano II tem referido a centralidade da teologia e da espiritualidade de comunhão na vida e na missão da Igreja. À imagem da recíproca comunhão de amor que vive a Santíssima Trindade, a Igreja é chamada a ser espelho de unidade na diversidade, por meio da comunhão no amor fraterno (cf. Papa João Paulo II, Novo millennio ineunte 43). Uma unidade que não significa uniformidade. “O modelo é o poliedro, que reflete a confluência de todas as partes que nele mantêm a sua originalidade” (Papa Francisco, Evangelii Gaudium 236).

2.2    A realidade da transformação cultural em ato, com um processo de crescente secularização em toda parte, traz consigo uma série de mudanças antropológicas que põem em questão dados fundamentais do próprio ser humano: a fonte da sua dignidade, a sexualidade, a família, os papéis sociais.  A ideologia de gênero, difundida nas mais diversas realidades sociais, põe em crise o nosso modo tradicional de conceber a vida. Ao lado desta cultura dominante, ao menos em muitos países, o processo de migração, por sua vez, faz de tal modo que a diversidade cultural tenha se tornado uma realidade vivida e percebida nas ruas das cidades. Por isso, o diálogo intercultural tornou-se uma urgência imprescindível para debelar o perigo da formação de guetos.

2.3    Nós mesmos, também podemos correr o perigo de nos tornarmos um “gueto”, uma cultura fechada em meio a um mundo que fala “uma outra língua”, se não tivermos a capacidade humana e espiritual do diálogo. Hoje, o diálogo é o meio indispensável para pôr em prática caminhos concretos de comunhão.

2.4    Somos chamados a aprofundar os desafios da cultura atual, remetendo-nos, em primeiro lugar, às experiências interculturais já em ato na Ordem. O nosso carisma de fraternidade pode oferecer um belo testemunho sobre como realizar a comunhão no mundo de hoje. Uma comunhão que seja fruto de um diálogo nascido no silêncio e na escuta, fruto de uma vida espiritual centrada no Deus amor.

2.5    Isso leva a nos perguntarmos: Sabemos valorizar a cultura dos outros, ou então julgamos tudo a partir da nossa presumível superioridade cultural? Estamos dispostos a aprender das outras culturas onde o carisma se desenvolveu e é vivido? A diversidade nos causa medo? Exercitamo-nos no diálogo, começando pela comunidade local? Somos capazes de tomar o tempo necessário para a escuta recíproca, buscando promover a unidade na diversidade?

2.6    O diálogo é um instrumento indispensável neste mundo que muda. Também em nível espiritual, o diálogo sereno e profundo é o sinal da qualidade da vida contemplativa, e da sua capacidade transformadora, que nos torna reflexo de Deus.

3.    Uma viagem para revitalizar o carisma

“Lembre-se da sua decisão...
não perca de vista seu ponto de partida,
conserve o que você tem, faça o que está fazendo e não o deixe,
mas, em rápida corrida, com passo ligeiro e pé seguro,
de modo que seus passos nem recolham a poeira,
confiante e alegre, avance com cuidado pelo caminho da bem-aventurança”
(Santa Clara, II Carta a Inês de Praga 11-13).

3.1    O encontro internacional das Capuchinhas de 2016, na Cidade do México, foi expressão viva e verdadeira das nossas Ordens em comunhão, comprometidos num diálogo intercultural que faz crescer a unidade na diversidade. As presidentes, os assistentes, os outros participantes, todos nós, trabalhamos muito, na escuta, no diálogo, na participação e no debate, para chegar a orientações claras, que marcarão o caminho dos próximos anos, com especial atenção ao tema da revisão das suas Constituições.

3.2    Propôs-se “dar novamente vitalidade aos modos de viver o carisma, mediante a revisão das Constituições, conservando a estrutura do texto, mas com particular atenção aos pontos que, em base à nossa experiência, requerem uma adequada reformulação” (Acordos do II Encontro Internacional das Capuchinhas, Acordo 1, Objetivo geral; México 2016).

3.3    O II Encontro Internacional mostrou a maturidade de todas vocês, irmãs. Agradecemos pelo modo com o qual as Federações percorreram muita estrada após o Concílio Vaticano II, caminhos de renovação e de colaboração entre os mosteiros, de formação e de comunhão. Os frutos da formação dos últimos anos, especialmente das irmãs que estudaram em Roma, são bem visíveis e se manifestam em sua colaboração qualificada. Entretanto, o mais importante é que se sente o desejo de revitalizar os modos de expressar o carisma.

3.4    A Igreja hoje lhes pede: “Sede faróis para os que estão perto e sobretudo para os afastados. Sede tochas que acompanham o caminho dos homens e mulheres na noite escura do tempo. Sede sentinelas da manhã que anunciam o nascer do sol. Com a vossa vida transfigurada e com palavras simples ruminadas no silêncio, indicai-nos Aquele que é caminho, verdade e vida, o único Senhor que oferece plenitude à nossa existência e dá vida em abundância. Gritai-nos como André a Simão: ‘Encontramos o Messias’; anunciai, como Maria de Magdala na manhã da ressurreição: ‘Vi o Senhor!’. Mantende viva a profecia da vossa existência doada. Não tenhais medo de viver a alegria da vida evangélica segundo o vosso carisma” (Papa Francisco, Vultum Dei Quaerere 6).

3.5    Após o dom tão grande da Constituição Apostólica para a Vida Contemplativa do Papa Francisco, é tempo de seguir adiante com o primeiro compromisso amadurecido durante o Encontro Internacional: o projeto de revisão das Constituições. Agora, temos mais clareza e segurança para traçar o caminho a ser feito.  Infelizmente, ainda estamos no aguardo da Instrução da Congregação para a Vida Consagrada para pôr em prática a “Vultum Dei”. Todavia, já estamos em condições de encarar a primeira etapa deste processo de revisão. Embora não seja ainda o caso de nos concentrarmos na redação do texto, vocês são chamadas a inflamar os pontos da sua experiência que merecem particular atenção, a identificar as “tensões” que devem ser aprofundadas e sobre as quais refletir de modo especial.

3.6    Uma Comissão preparatória, ou pré-comissão, composta por oito irmãs, em representação das diversas regiões do mundo, tem trabalhado a fim de oferecer-lhes um guia. Estão elaborando um “Instrumentum laboris”, em vista de apresentar-lhes uma série de questões, sobre as quais será muito importante deter-se de maneira pessoal e comunitária.

3.7    Somos chamados a envolver todas as irmãs e todos os mosteiros. Cada irmã e cada abadessa é responsável pela revisão. As Federações têm a grande tarefa da animação e do acompanhamento deste processo. O “Instrumentum laboris” é flexível, e cada Federação poderá, de acordo com sua realidade, buscar o modo adequado de trabalhar sobre as reflexões e as questões. Os mosteiros que, até agora, não são federados, também são convidados a dar a própria contribuição, e merecem uma especial solicitude por parte da comissão.

3.8    Quais expectativas suscita em vocês este caminho? Quais temores ou preocupações? Com qual postura vocês se põem em caminho? Dirigindo o olhar para o quanto fizeram Clara e as Capuchinhas, vocês são convidadas a seguir em frente com passo confiante, deixando-se guiar pelo Espírito do Senhor e pela sua santa operação.


4.    Caminho de paz e bem

“É um trabalho lento e árduo que exige querer integrar-se e aprender a fazê-lo
até se desenvolver uma cultura do encontro numa harmonia pluriforme”
(Papa Francisco, Evangelii Gaudium 220).

4.1    A revisão das suas Constituições é um caminho coletivo de formação permanente, uma verdadeira busca pelo bem comum da Ordem e a construção da comunhão. Não é só importante a meta que pretendemos atingir, mas não é menos importante o modo com o qual queremos percorrer o caminho. Seria belo fazê-lo de modo formativo, recorrendo à reflexão pessoal, à partilha comunitária e às contribuições escritas, buscando assim provocar e reacender a chama do carisma.

4.2    Papa Francisco identifica sabiamente quatro princípios para construir a comunhão em uma estrada de paz social e busca pelo bem comum (cf. Papa Francisco, Evangelii Gaudium 217-237), base para uma cultura do encontro. Podemos nos deixar guiar por estes princípios também no momento de refletir e de nos questionarmos sobre o “Instrumentum laboris”.
4.2.1     “O tempo é superior ao espaço”. Este princípio refere-se à necessidade de conceder tempo aos processos, de maneira que possam desenvolver-se adequadamente, sem se preocupar com resultados imediatos. Não é importante dar uma resposta correta, mas colocar-se antes a pergunta adequada, pensar juntos, interpelar-se pela experiência, chegar a um acordo (cf. Papa Francisco, Evangelii Gaudium 222-225).

4.2.2    “A unidade prevalece sobre o conflito”. As diferenças são inevitáveis, e tantas vezes são causa de conflitos que devem ser aceitados, suportados e administrados, de maneira a transformá-los em processo de paz e comunhão. Também a diversidade de pensamentos e sensibilidades deveria ser expressada com serenidade, e assim reconciliar-se numa unidade sempre superior (cf. Papa Francisco, Evangelii Gaudium 226-230).

4.2.3    “A realidade é mais importante do que a ideia”. As ideias são apenas instrumentos para captar, compreender e conduzir a realidade. Pode ser perigoso viver no mundo ideológico, somente da palavra, da retórica que não leva em conta aquilo que acontece de concreto. Nas respostas e nas propostas, não esqueçamos de ter “os pés no chão” (cf. Papa Francisco, Evangelii Gaudium 231-233).

4.2.4    “O todo é superior à parte”. Este último princípio indica que se deve pensar o particular em relação ao global, o local ao lado do universal, as nossas experiências em relação aos desafios de toda a Igreja. Uma tensão entre inculturação local e sã globalização. A vida da comunidade transcorre entre as preocupações concretas e o senso de ser uma Ordem internacional presente em diversos continentes. (cf. Papa Francisco, Evangelii Gaudium 234-237).

4.3    Estamos dispostos a aceitar e dar tempo à reflexão, ao diálogo, ao encontro? Queremos realmente favorecer a escuta recíproca, um âmbito de confiança para nos expressarmos? Somos capazes de administrar os conflitos? Buscamos uma unidade reconciliada? Somos conscientes de que esta é a forma de fazer penitência hoje, uma verdadeira exigência de conversão, uma ascese para sair de nós mesmos?

4.4    Se fizermos o caminho com estes quatro princípios, “paz e bem” se tornaria mais do que uma tradicional saudação franciscana, uma opção de vida, uma contribuição concreta a um mundo pacificado.

5.    Conclusão

Estou certo de que a sua sabedoria contemplativa lhes tornará capazes de ser fiéis ao carisma na mais sã tradição da Ordem, abrindo-se à novidade e às exigências de hoje. O nosso grande desafio é não perder a identidade, mas viver em constante reforma. Estou convicto, caras irmãs, de que a reflexão pessoal, o diálogo aberto e sincero, no respeito recíproco, em postura contemplativa, para tornar visíveis as riquezas comuns e as diversidades que tornam bela a própria especificidade e verossímil o testemunho da comunhão vivida em Deus, e as respostas que enviarão à Comissão preparatória, trarão um dinamismo de renovação.

Dito isto, não resta senão confiar os pensamentos e as intenções à Mãe de Deus, para que lhes ajude a discernir o melhor para sua vida, segundo o espírito do Evangelho na verdade e na caridade.

Invoco sobre cada uma de vocês, e sobre cada comunidade, o dom do discernimento, fruto maduro do Espírito divino em nós, pois “desposastes o Espírito Santo” (São Francisco, Forma de vida dada a Santa Clara 1), certo de que seu Esposo não lhes faltará!

Fraternalmente,

Fr. Mauro Jöhri
Ministro Geral OFMCap.