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A
Minoridade de São Francisco e dos Primeiros Frades |
Regis Armstrong,
o.f.m.cap. |
Em 1984, Davide
Covi me pediu para escrever um artigo a ser publicado
numa edição especial do Laurentianum intitulada Franciscanismo
e Profecia por ocasião do V CPO de Garibaldi. Aquele
projeto resultou num longo estudo sobre as Admoestações
no qual tentei compreender as vinte e oito misteriosas
e transparentes exortações do ponto de vista do nosso
testemunho profético quais seguidores de Francisco.
Aquele artigo não chamou muita atenção e não contribui
muito nos trabalhos e nas reflexões do V CPO que, em
vez, enfrentou questões muito urgentes. Lendo agora
aquele artigo tem-se a impressão que tivesse sido escrito
para aquilo que estamos vivendo hoje: o VII Conselho
Plenário da Ordem.
Transcorridos vinte anos e depois de ter publicado os
três volumes de Francisco de Assis, Early Documents,
as fontes franciscanas e não franciscanas da vida de
São Francisco entre 1207 e 1235, releio aquele artigo
e me admiro do tão pouco que sabia naquele tempo. A
experiência de viver com aqueles documentos dia após
dia, representou uma significativa viagem formativa
na qual emergiram mais perguntas que respostas e na
qual as surpresas chegaram quando menos esperava. Os
editores maravilharam-se comigo, por exemplo, por descobrir
que os textos e as imagens bíblicas presentes nos escritos
de Francisco re-emergiram somente depois dos escritos
de Boaventura. Quando menos esperava, algumas frases
ou termos menos agradáveis ao co-editor Conventual eram
perfeitamente aceitáveis para mim e para o outro co-editor
‘Leonino’ e vice-versa. As obras ‘pós-boaventuranas’
publicadas no terceiro e maior volume nos deixaram surpresos
por descobrir que algumas frases ou conceitos ausentes
nos primeiros dois volumes, apareceram só no terceiro
e, ainda mais surpresos, alguns conceitos presentes
nos escritos de São Francisco eram absolutamente ausentes
ou presentes mas só em mínima medida nos três volumes:
um desses conceitos era exatamente o da ‘minoridade’.
Durante esses dez anos de trabalho na tradução, sem
dar-nos conta, nos deixamos envolver numa ampla discussão
entre professores e mestres de espiritualidade a respeito
de definições, concepções e metodologias. A biblista
americana Sandra M. Schneiders, iniciou essa discussão
no seu artigo de 1989 sobre Theological Studies, Spirituality
in the Academy. Foi criticada por teólogos como o inglês
Philip Sheldrake, que levantou em 1993 questões acadêmicas
acerca da interpretação e do método no seu volume Spirituality
and History, o medievalista canadense Walter Principe,
que levantou questões críticas a respeito das definições
de espiritualidade e o estudioso americano Bernard McGinn,
que em 1994 empreendeu um amplo estudo, em cinco volumes,
The Presence of God: A History of Western Christian
Mysticism. Como estudioso no campo da espiritualidade
apliquei muitos desses argumentos aos textos franciscanos
com os quais me confrontei. Utilizei-os também nesta
reflexão absorvente que agora me disponho a partilhar
com vocês “A Minoridade de São Francisco e dos seus
Primeiros Frades” e que toca questões de interpretação
histórica, teológica e antropológica. Ponho estas considerações
à atenção de vocês consciente que, apresentá-las enquanto
‘minores’ significa, ao meu ver, ir ao coração da nossa
espiritualidade como irmãos. Isto é: somos irmãos pelo
maravilhoso dom do Espírito; o que torna brilhante este
cristal é o dom da minoridade.
Por razões que na conclusão espero lhes sejam mais claras,
pensei intitular a minha apresentação: “Minoridade:
a intuição sacramental de Francisco”. Considerei oportuna
esta mudança vista a crescente atenção nos estudos de
espiritualidade e liturgia ao papel primário dos símbolos
no formar e influenciar a nossa imaginação religiosa.
Os símbolos, enquanto imediatamente presentes, têm a
capacidade de falar à alma do homem. Da mesma forma,
os símbolos eficazes são aqueles evocativos e provocantes
que são capazes de convidar-nos a entrar sempre mais
profundamente no seu mistério. Falar de nós mesmos como
fratres e minores, penso que signifique declarar a dimensão
simbólica da nossa forma de vida ou, dizendo de outro
modo, quer dizer entrar no mistério da nossa comunhão
e descobrir a maravilha da nossa vocação.
Minoridade: a intuição sacramental de Francisco de Assis
Uma das discussões mais interessantes
que tivemos durante a tradução dos primeiros documentos
de Francisco de Assis, se concentrou sobre a tradução
da expressão fratres minores. Tínhamos o desejo de desafiar
o leitor médio a considerar a realidade daquilo que
somos sob uma perspectiva diferente. Era relativamente
simples traduzir fratres, o problema era minores. Como
se deveria traduzir minores? Quando se decidiu por Ordem
dos ‘Frades Inferiores’ (lesser brothers), alguns, sobretudo
confrades, se ressentiram porque entendiam modificar
o modo como o povo nos chamava e nos pensava. Outros
ficaram brabos porque tínhamos escolhido o diminutivo
‘inferiores’. Mas era isto que pretendíamos fazer: expressar
aquilo que Francisco queria que fôssemos considerados.
Aprender a ler os primeiros documentos da nossa vida
evangélica é, de fato, uma arte que nos torna sempre
mais sensíveis à tradição que herdamos, especialmente
quando procuramos traduzir o adjetivo latino minor,
de modo a fazê-lo significativo. A procura de uma definição
do que significa ser fratres minores é absolutamente
difícil visto que os biógrafos de Francisco parecem
estar mais preocupados com outros aspectos de sua vida.
Todavia, inicialmente dois autores foram considerados
com uma certa atenção: Tomás de Celano e Boaventura
e, como veremos, por diversas razões.
Tomás, na sua Vida de São Francisco, uma obra clássica
escrita para sublinhar a santidade e para provar o valor
da sua canonização, descreve como o santo deu o nome
à Ordem. Enquanto utiliza quatro vezes o termo minor
naquele único parágrafo, os quatro modos de utilizá-lo
estão espalhados no texto para referir-se à própria
Ordem ou, num outro caso, como adjetivo diminutivo.
Contudo, no Tratado dos Milagres, Tomás utiliza o termo
vinte e oito vezes. Algumas dessas instâncias derivam
da Compilatio Assiensis que, como sabemos, constitui
a base da ampla segunda parte do retrato de Tomás. Na
sua maior parte são, porém, interpolações do próprio
Tomás e dão a impressão que ele mesmo tivesse se dado
conta do engano presente na sua primeira obra e que
quisesse remediá-la. Portanto, Celano entende o ser
minor ou minores a partir da perspectiva da pobreza,
especialmente no contexto da mendicância; da humildade,
na qual se destaca o estado de necessidade pessoal ou
das faltas na vida ordinária e no colocar às claras
a perspectiva de ser utilizados ou explorados no tratar
com o clero e com os outros religiosos. Sem dúvida ele,
com um exemplo tirado do contexto da vida fraterna que
re-evoca a narração da perfeita alegria, apresenta os
contornos mais claros considerando o que signifique
ser minor:
Uma vez, disse a seu companheiro: “Acho
que não sou um frade menor se não estiver na situação
que te vou descrever. Sendo superior dos irmãos, vou
ao capítulo, prego, admoesto os frades e, no fim, dizem
contra mim: ‘Não nos convém um iletrado e desprezível,
por isso não queremos que reines sobre nós, porque não
sabes falar, és simples e idiota’. Afinal, sou vergonhosamente
posto para fora, desprezado por todos. Pois eu te digo,
se não ouvir essas palavras com a mesma feição, com
a mesma alegria interior, com a mesma vontade de ser
santo, não sou frade menor”.
Todavia, Boaventura é mais interessante.
Boaventura, o teólogo encarregado pelos seus irmãos
de redigir o retrato ‘definitivo’ de Francisco, tece
juntas narrações tiradas da trilogia de Tomás com intuições
que recolhe de quem tinha conhecido Francisco pessoalmente.
Quando se lê a sua Legenda Major pelo prisma do seu
Breviloquium, que a antecipa de apenas dois ou três
anos, aparece o gênio da compreensão teológica de Boaventura
da aventura de Francisco: o seu retrato de Francisco
é uma construção literária fundada sobre os sólidos
fundamentos da sua teologia da graça. Esta afirmação
parece óbvia se se considera o conjunto das virtudes
do santo, um programa de crescimento espiritual que
Boaventura coloca diante dos seus confrades que desafia
a competir com seu fundador. É curioso notar como algumas
virtudes que hoje são celebradas na nossa compreensão
da visão evangélica de Francisco como fraternidade e
minoridade, sejam mencionadas só de passagem e, mais,
sem aprofundamentos. Boaventura se coloca à sombra de
Tomás de Celano, pronto a deixar emergir o termo minor,
na maioria das vezes, através da lente da humildade
e, numa ocasião, como expressão de pobreza. Contudo,
o Doutor Seráfico é o primeiro a cunhar a palavra minoritas
com a intenção de compreender a natureza da vocação
a ser fratres minores.
No dia 4 de outubro de 1255, Boaventura comentou o trecho
do Evangelho dia tirado de Mateus 11,29 “aprendei de
mim que sou manso e humilde de coração”. O sermão da
manhã é dedicado àquilo que se poderia considerar a
proximidade pedagógica da escola franciscana e parece
como se tivesse sido pronunciado diante da importante
e nutrida comunidade acadêmica de Paris. O objetivo
da Collatio da tarde, ao contrário, era mais preciso
e parece que verossimilmente tenha acontecido diante
da fraternidade acadêmica que vivia no Convent des Cordeliers
sulla Rive Gauche. Considerando ainda uma vez o Evangelho
do dia, Boaventura recolhe o que tinha deixado fora
do seu comentário sobre o texto aprendei de mim:
“Aprenda do meu exemplo para que tu
possas ser manso e humilde. Uma pessoa é mansa per affectum
fraternitatis, e humilde per affectum inferioritatis
sive minoritatis. Portanto, ser manso significa ser
irmão de todos; ser humilde quer dizer ser minorem [menos]
de todos”.
A Collatio continua com uma quádrupla
consideração sobre a mansidão e com três quádruplas
considerações cobre a humildade a partir da perspectiva
dos seus frutos, os meios para adquiri-la e os meios
para mantê-la. Aquilo que é especial na Collatio de
Boaventura é exatamente a sua audience composta por
confrades, nas suas palavras, aqueles que aprendem e
aqueles que ensinam. Segundo esta visão, a sua compreensão
da unidade per affectum inferioritatis sive minoritatis
apresenta uma intuição do que significa ser fratres
minores. Inicialmente o comentário de Boaventura ao
texto de Mateus parece indicar o encorajamento a um
sentido de inferioridade que pode ser descrito como
aquilo que “regula a vida mental e que pode ser claramente
reconhecido como um sentido de caráter incompleto e
de carência, de não acabamento”. Todavia, é própria
a utilização, por parte de Boaventura, do termo inferioritas,
como sinônimo de minoritas, que nos fornece uma chave
de leitura para entender o apreço que este teólogo tinha
do uso desta palavra por Francisco.
Bem simples: inferioritas é o substantivo baseado na
forma comparativa do adjetivo inferus, que significa
baixo. Portanto, ser inferior significa ser mais baixo
ou inferior.
Esta leitura implica uma questão importante: ser inferior
a que coisa? de quem? Semelhantemente minoritas é o
substantivo baseado na forma comparativa do adjetivo
parvus, que significa pequeno, e minor, o adjetivo comparativo,
descreve algo ou alguém que é menor; mas, ainda, menor
em relação a que coisa? a quem? A interpretação de Boaventura
sublinha a natureza relativa e comparativa da minoridade
e, num certo sentido, coloca em evidência o desafio
do seu caráter flexível e variável. O que nos sugere
o posterior esquecimento de Boaventura do termo minoritas,
um esquecimento que aparece não só no ano 1255 mas também
nos dois retratos de Francisco e nos sermões que pronunciou
depois como Ministro Geral pela Solenidade de São Francisco,
ou na sua Apologia Pauperum onde revela o seu profundo
conhecimento da Regra? Podemos nos perguntar, então,
se Boaventura tivesse mesmo captado como Francisco chamou
os seus frades minores para desafiá-los a não se arranjar
comodamente, estáveis e estagnados. Este esquecimento
dos dois no definir o conceito foi uma opção acabada
para recordar-nos o caráter relativo da nossa vida que
nos impulsiona continuamente a perguntar-nos quem somos
para os outros?
Ser menos que os outros, de fato, é um critério de medida
incômodo! No mundo do 1220, o de Francisco, como podia
um sacerdote expressar o seu ser inferior a respeito
dos seus irmãos ou como podia um frade expressar o seu
ser inferior a respeito dos menos afortunados entre
os quais tinha sido chamado a viver? No contexto de
Boaventura, em 1225, como podia um professor universitário
expressar a sua ‘inferioridade’ diante dos seus estudantes
ou dos seus colegas? Era algo completamente relativo,
ou então, era uma estrutura mental, uma impostação cultural,
um paradigma fundamental que influía sobre o próprio
modo de considerar a si mesmo, uma perspectiva que exigia
continuamente novas expressões?
À procura de um paradigma
As reflexões contemporâneas sobre
o tema da minoridade parecem surgir de duas perspectivas:
a histórico-contextual ou sócio-política e, mais recentemente,
a bíblica. Attilio Bártoli Langeli e, especialmente,
David Flood deram força às considerações conexas às
origens sócio-econômicas do termo nos seus estudos sobre
o Pacto de Assis de 1210, recolhidos em numerosos escritos
sobre os majores e minores do tardio século XII e do
início do século XIII em Assis. As reflexões de Leonard
Lehmann, Fernando Uribe, Bernard Holter e Marco Bártoli
têm caráter fundamentalmente histórico pois consideram
a origem do termo no seu emprego nos escritos de Francisco
e Clara, especialmente a Primeira Regra, e a sua utilização
na tradição literária sucessiva. Só mais recentemente
alguns Franciscanos consideraram a sua forma de vida
à luz da rica teologia bíblica como nos atestam as contribuições
de Frederic Raurell, Michele Mazzeo e Paolo Martinelli.
Nessa mesma linha, Yannis Spiteris colheu expressões
de uma postura semelhante também no antigo monacato.
Se ser minor é, como indica a palavra e como sublinha
Boaventura, um termo relativo, a pesquisa dos seus fundamentos
teológicos deveria levar-nos para trás aos escritos
de Francisco. À luz do comentário sobre as Origens da
Ordem Franciscana, poderíamos suspeitar facilmente como
também Kajetan Esser estivesse à procura de uma intuição
teológica qualquer como fundamento do título fratrum
minorum. Enquanto estava para completar a importante
obra da edição crítica dos escritos de Francisco, ele
dava um curso sobre Admoestações no Antoniano e pouco
a pouco, em 1978, introduzindo a edição crítica dos
opuscula Sancti Francisci escrevia:
Nestas vinte e oito Admoestações, podemos
descobrir preciosas pérolas de sabedoria que são de
extremo valor para a ascética franciscana e para a vida
do frade menor. Não foram ainda exploradas suficientemente.
Estas Admoestações são, de fato, um panegírico do espírito
de pobreza e, por esta razão, um panegírico da fraternidade
menor.
Esser simplesmente ecoava os juízos
de Ângelo Clareno, Bartolomeo de Pisa e, talvez mais
significativamente, i peso da tradição dos anos 1300
dos manuscritos em que aparecem fundamentalmente só
as Admonitiones e não a Regra e o Testamento.
Depois de cerca 25 anos, a avaliação de Esser ainda
continua válida, especialmente se consideramos o conceito
de minoridade. Provavelmente foi mesmo o comentário
de Esser que em 1985 me encorajou a procurar nas Admoestações
intuições conexas à presença profética dos capuchinhos
e me convenceram do seu papel no delinear os contornos
da vida na minoridade. O resultado foi o artigo The
Prophetic Implications of the Admonitions no qual, fazendo
exceção a Esser, que o definia como o ‘Cântico da Pobreza
Interior’ de Francisco as intitulei em vez “Cântico
da Minoridade”. Durante o simpósio de 2003 no Antoniano,
me surpreendi que só Fernando Uribe reconheceu o valor
das Admoestações como fonte significativa.
Um dos motivos fundamentais pelos quais se tende a esquecer
esta incalculável fonte de intuições é a questão do
gênero literário das Admoestações, um problema que se
põe também para um documento semelhante, a Exhortatio
et Commonitorum. São partes da obra legislativa de Francisco
como parecem indicar as primeiras edições? Ou são, como
sugerem Martino Conti e Robert J. Karris, uma coleção
semelhante aos Ditos da tradição do deserto? Apresentar
as Admoestações simplesmente em ordem alfabética ou
então simplesmente entre os “escritos não datados” tende
a reduzi-las a literatura ascética e exortativa da espiritualidade
franciscana. Esser, ao contrário, reavaliando as Admoestações,
as considera como ‘os mais importantes textos de exortação
de Francisco... endereçados não contra os pecados teológicos,
mas escritos para procurar corrigir abusos verdadeiros
e urgentes’ na vida fraterna cotidiana. Nesta perspectiva
são um instrumento de absoluto valor para fazer-nos
compreender o significado da vida fraterna na minoridade.
Isto é particularmente verdadeiro porque nas Admoestações
Francisco apresenta não só as dicotomias ou polaridades
que emergem do pecado, mas, ao mesmo tempo, indica os
contornos da vida profética que testemunha as modalidades
evangélicas necessárias para superar o pecado.
Existem numerosas vantagens em examinar a minoridade
à luz das Admoestações. Numa perspectiva histórica elas
aparecem sem tempo. Houve diversas tentativas de colocá-las
num contexto histórico, mas na maioria das vezes não
tiveram sucesso. Com toda a simplicidade, portanto,
pode-se dizer que se referem àquele sentido da vida
ordinária e cotidiana com a qual nós do século XXI nos
podemos coligar facilmente com os irmãos do século XIII.
Do ponto de vista literário se aproximam aos métodos
catequéticos utilizados no tempo de Francisco nos quais
um breve texto, imagem ou alusão bíblica, era conduzido
ad mentem do ouvinte ou do leitor num nível mais ‘terra-terrra’,
a uma aplicação prática. À luz destas considerações,
os vinte e oito textos nos transmitem a sua espiritualidade
e as suas intuições bíblicas e como elas podem ser colocadas
em prática. Um último benefício oferecido pelas Admoestações
é a sua capacidade de realizar o papel de toda a espiritualidade
evangélica do modo como foi descrita por Hans Urs Von
Balthasar. Escreve: “nada na Igreja é um mero princípio
abstrato”. “Tudo o que é válido para todos o é também
para as pessoas concretas, ou melhor, para os percursos
concretos confiados a pessoas concretas...” A beleza
das Admoestações é a sua transparência, o seu caráter
concreto e a sua capacidade de comunicar a espiritualidade
evangélica às pessoas comuns de forma a não fazê-las
assumir um caráter elitista.
A fundamentação bíblica da busca da ‘inferioridade’
Na literatura acadêmica contemporânea
relativa à espiritualidade, cresce a importância do
símbolo como instrumento para captar as próprias dimensões
teológicas, históricas e antropológicas. Nesta perspectiva,
a segunda Admoestação representa uma das expressões
mais ricas do pensamento simbólico de Francisco e, mesmo
que seja muitas vezes esquecida, constitui um dos principais
instrumentos para entrar na compreensão do conceito
da minoridade. À primeira vista, aparece como uma simples
reedição do drama bíblico do Éden, no início do Gênesis,
representado nos termos familiares típicos da tradição
patrística, monástica e contemplativa. Contudo, cada
detalhe é digno de consideração: a imagem de Deus como
fonte de todo o bem, o convite de Deus a comer do fruto
de toda a árvore menos uma, a fome de conhecimento e
os símbolos da árvore e da maçã.
No livro Oração de São Francisco, Leonardo Boff apresenta
um caminho ideal para aproximar-se desta narrativa de
Francisco. Enquanto estuda as forças e os poderes que
guiam o mundo hoje, Boff nos sugere de considerar a
vida como vivida simbolicamente ou diabolicamente. Jogando
com a etimologia das duas palavras, simbólico e diabólico,
Boff reflete sobre as forças simbólicas que criam harmonia
e comunhão e as forças diabólicas que dividem e desintegram.
Mudando a pessoa específica Adão, no pronome impessoal
ille, e o tempo dos verbos do perfeito ao presente,
a sugestão de Francisco é de apresentar Adão como representante,
um símbolo evocativo da vocação de todo o ser humano,
enviado a gozar de todos os bens da criação e da bondade
do sumo Bem e do generoso Senhor e a ser simplesmente
o primeiro beneficiário da magnanimidade do Criador.
A partir de sua abertura com o conjunto paradoxal de
ordens divinas, ‘comer... não comer’, Francisco se concentra
no símbolo da árvore do conhecimento do bem e do mal
e a contrapõe a todas as outras árvores do paraíso:
“[Adão] podia comer de toda árvore do paraíso e, enquanto
nada fazia contra a obediência, não pecava.” Até quando
Adão reconheceu o seu lugar depois do lugar do Criador,
como o do inferior diante do maior, ele foi capaz de
viver simbolicamente, isto é, em harmonia. No amplo
olhar de liberdade, aquela única árvore, a árvore do
conhecimento do bem e do mal, tornou-se a pedra de tropeço
para Adão e a ocasião de sua queda. É curioso como Francisco
a esse ponto se concentre sobre a árvore do conhecimento
do bem e se esqueça da árvore do conhecimento do mal.
Assim fazendo, ele aponta o dedo sobre o que ele considera
como a causa que move todo o ser humano: conhecer e,
nesse caso, conhecer exatamente que Deus conhece. De
fato escreve: “Come, porém, da árvore da ciência do
bem e do mal aquele que reclama sua vontade como propriedade
sua e se vangloria dos bens que o Senhor diz e opera
nele.” Ele se apropria, toma aquilo que não é seu para
ter mais e, assim fazendo, põe a si mesmo no alto para
ser maior. Francisco apresenta a sua interpretação do
pecado original, em vez de ouvir o Criador, ele segue
a sugestão do diabo e a árvore da ciência do bem se
torna o pomum (maçã) do conhecimento do mal. Em vez
de respeitar o simbólico, cede ao diabólico e acaba
por despedaçar a paz e a serenidade do seu mundo. Francisco,
portanto, é muito claro a respeito do papel do diabo
nesta tragédia: o diabo somente sugere, Adão é o transgressor.
A tragédia do pecado, então, se torna ainda mais grave:
a punição poderia assim ser parecida com a dificuldade
no apreciar o dom do amor e dos bens superabundantes
de Deus, no viver no nível do símbolo em vez de entregar
a si mesmos ao diabólico que coloca divisões entre nós.
Francisco percebe a causa do pecado e a contínua vocação
à penitência e isso exige uma resposta que deve ser
expressa nos termos antropológicos do pecado original
de Adão, ou seja, a causa do pecado exige o retorno
ao estado original de minoridade. Dizendo de forma mais
simples: a segunda Admoestação nos empurra a viver lutando
contra a tendência da vida de apropriar-se e segurar
para si com avidez e a coloca-se acima dos outros.
Minoridade: o ‘desmonte’ do apropriar-se
A segunda Admoestação, na sua simplicidade,
é um texto importante porque determina a ordem do que
vem depois. Exatamente porque é tão difícil estabelecer
a data da sua composição, estas vinte e seis oferecem
intuições interessantes para uma vida centrada no Evangelho,
uma vida cotidiana com a qual podemos coligar-nos porque
é composta por pessoas semelhantes a nós. As pessoas
que Francisco descreve como os ‘Adão’ continuamente
angustiados a tomar e a procurar caminhos de auto-exaltação
somos nós mesmos e aqueles com os quais partilhamos
a vida.
Tinha razão Kajetan Esser de colocar o tema da pobreza
como elemento central das Admoestações. Esta compreensão
deriva mais logicamente do paradigma manifestado na
segunda que, em alguns manuscritos do século XIV, é
colocada no primeiro lugar, como prólogo da coleção.
Em nenhum lugar nas suas Admoestações Francisco fala
da pobreza em termos de posse material, enquanto a nossa
tendência, ao contrário, é de iniciar a discussão sobre
a pobreza exatamente do nível material e concreto. Francisco,
ao menos nas Admoestações, assume uma atitude diferente.
Podemos sempre argumentar dizendo que Francisco, o idealista
exagerado, considerava a pobreza em relação às coisas
como algo de preliminar, de adquirido de uma vez por
todas, do início da vida religiosa depois do ano de
prova quando se devia entregar tudo aos pobres. Os seus
escritos, especialmente as Admoestações, revelam como
a sua compreensão de uma vida sine proprio penetrasse
muito mais profundamente. Nesta perspectiva o comentário
de Lázaro Iriarte é muito pertinente: “Toda a complexa
problemática... a respeito da pobreza... resultou do
esforço impossível por parte dos filhos de São Francisco
de quererem ser ‘pobres’ sem ter a coragem de continuar
sendo ‘menores’”. Se os seus primeiros seguidores tivessem
compreendido a qualidade quase sacramental na pobreza
material como a entendia Francisco, o seu ‘relacionamento’
com ela teria sido verdadeiramente diverso. Se os seus
seguidores tivessem compreendido o papel da pobreza
no aprofundamento daquilo que Francisco entendia com
o ser irmãos ‘inferiores’, eles teriam lutado com maior
autenticidade e manifestando de fato esta realidade
nas suas vidas.
Quando se estuda a pobreza nos escritos de São Francisco,
esta aparece quase como uma vocação contraditória e
ao mesmo tempo cheia de significados. Francisco não
escreve da vida sine rebus huius mundi ou do que falta,
mas sine proprio, isto é, sem algo meu ou alguma coisa
de próprio para mim. Nesta perspectiva, a pobreza material
se torna ‘sacramental’ e sinal de uma realidade interior
voltada ao exterior com dois rostos. Quanto mais for
abraçada radicalmente, mais eficazmente nos conduz a
níveis de profunda pobreza e nos empenha a dar uma resposta
à pergunta: o que posso dizer que seja minha propriedade?
Como emerge das Admoestações, uma vida sine proprio,
sem nada de meu, é vivida sob três níveis: em relação
ao meu interior, em relação aos meus irmãos e em relação
a Deus. Não se deve esquecer o seu caráter relacional
e que, portanto, é essencialmente relativa, apresenta-se
como uma virtude integralmente associada a uma outra.
Mais ampla é a consideração de Francisco sobre a pobreza
considerada em relação de um com o outro. A décima primeira
Admoestação indica muito claramente aqueles que não
conseguem superar a agressividade e se enraivecem com
os outros: “Vive realmente sine proprio aquele servo
de Deus que não se enraivece nem perturba por causa
de ninguém.” A décima quarta, que representa um comentário
à primeira bem-aventurança de Mateus, inicia com uma
referência àqueles que insistem com orações, votos e
ações ou com uma ascese rigorosa e ao mesmo tempo estão
preocupados com o seu bom nome.
O apego aos serviços e ministérios é parte das considerações
da terceira Admoestação, um ponto que retorna também
no capítulo VII da Primeira Regra quando Francisco trata
das atividades apostólicas.
As Admoestações nos convidam a examinar também a pobreza
em relação ao nosso eu interior, aquela que podemos
chamar a “pobreza de espírito”. Diz respeito àquelas
coisas às quais nos apegamos mais freqüentemente. A
quinta Admoestação, por exemplo, sublinha não só os
dons espirituais mas também os naturais, enquanto a
sétima considera as modalidades auto-referenciais e
auto-exaltantes com as quais nos apegamos ao conhecimento,
como a vigésima considera a capacidade de provocar o
riso dos outros. Contudo, é a terceira Admoestação que
toca o bem mais importante que causou a queda, a vontade
humana, à qual os homens se apegam como a posse mais
preciosa.
Esta passagem que nos leva à pobreza em relação a Deus
e a uma posterior reflexão sobre a segunda Admoestação
e à tentação da apropriação daquilo que não é nosso
e de torná-lo tal. Ainda uma vez o capítulo XVII da
Primeira Regra nos ajuda, quando Francisco nos recorda:
“E estejamos firmemente convencidos de que não temos
coisa própria nossa senão os nossos vícios e pecados.”
Portanto, o desfio de viver sine proprio é um desafio
de penitência, a invocação da Oração diante do Crucifixo
a “iluminai as trevas do meu coração” e, através do
dom da nossa vida juntos, a ter a coragem de observar
as profundezas mais imprevistas da nossa vida. Francisco
afirma mais simplesmente na décima primeira Admoestação:
“Bem-aventurado aquele que nada retém para si, mas ‘dá
a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus’”.
Humildade: o ‘desmonte’ da auto-exaltação
Muitas referências de Tomás de Celano
a ser frades menores são expressas na linguagem da humildade.
Neste contexto Boaventura introduz o termo minoritas.
No momento em que este fenômeno é considerado nos seus
fundamentos teológicos sobre os quais os dois autores
se baseiam, se compreende a utilização equívoca de humildade
e minoridade. Ambos utilizam imagens e frases tomadas
da tradição monástica que os havia precedido, sobretudo
os escritos de Bernardo de Clairvaux. O De gradibus
humilitatis et superbiae tornou-se o manual para os
séculos seguintes. Todavia, fazendo assim, Tomás e Boaventura
parecem muito conscientes de que a concepção de Francisco
divergia daquela de Bernardo em três modos.
No estudo sobre o De gradibus humilitatis et superbiae,
Basil Pennington afirma que, segundo Bernardo, o objetivo
da humildade é a verdade: a verdade em si mesma, a verdade
no próximo e a Verdade mesma. Francisco, por sua vez,
parece mais preocupado em considerar a humildade no
contexto da revelação da bondade, a bondade que Deus
continuamente afirma e cumpre em cada um de nós, no
próximo e em toda a criação. Mesmo que se possa afirmar
que se trata só de um leve matiz, baseado sobre uma
percepção da revelação, os textos sublinham as ênfases
que os dois apaixonados comunicadores desejavam transmitir.
Para Bernardo a humildade é a virtude irmã do amor.
Ele sustenta que sem amor a humildade é sem calor. Francisco
tem uma perspectiva diversa: a humildade é a virtude
irmã da pobreza. A genialidade da concepção de Francisco
consiste na sua compreensão que uma vida sine proprio
nos conduz diante de Deus como se fôssemos apenas criados,
tornando-nos capazes de reconhecer a nossa dependência
de criaturas e colocando-nos diante do sumo Bem e do
generoso Senhor assim como somos, angustiados por ter
e arrogantes. Portanto, a humildade não é definida em
termos de baixeza ou de nulidade, mas sim em termos
de autenticidade e de transparência. Deste modo se torna
uma realidade bem mais positiva que não terminará nunca
de desfiar-nos e provocar-nos.
Esta reflexão nos leva a uma outra diferença significativa
entre os dois, Bernardo e Francisco, o contexto no qual
eles observam o crescimento em humildade. Pode-se ler
o texto de Bernardo De gradibus humilitatis et superbiae,
claramente é uma obra de literatura monástica que provém
do contexto cenobítico, que não consegue provocar a
mesma intensidade acerca das relações fraternas que
se percebe nos escritos de Francisco, especialmente
nas suas Admoestações. Diferente da percepção monos
pros monon do monacato, Francisco intui que o nosso
modo de enfrentar as relações fraternas oferece oportunidades
incalculáveis para realizar o que afirma a segunda Admoestação
com lucidez mais transparente: é o Senhor que diz e
cumpre o bem em e através de cada um de nós. Diferente
de Bernardo, Francisco vê a vida de pobreza e humildade,
ou seja, o reconhecimento da bondade dinâmica de Deus
no outro, no ambiente relacional da vida fraterna como
o caminho mais seguro para Deus.
A terceira Admoestação é o cruzamento das duas virtudes:
pobreza e humildade. Os verbos que aparecem são difíceis:
renúncia, perda, derrota, condescendência, sacrifício,
obediência. Francisco procura desafiar os seus irmãos
a arrancar as raízes do pecado agindo de modo contrário
a respeito das modalidades de apropriação e de auto-exaltação.
Note-se a dimensão da totalidade presente na segunda
frase: “Abandona tudo quanto possui e perde sua vida
aquele que a si mesmo abandona inteiramente à obediência
nas mãos do seu prelado”. Mas o modo como Francisco
descreve aqueles que estão implicados nesta dinâmica
nos parece verdadeiramente difícil e incômodo: a pessoa
que oferece a si mesma ao praelatus se torna subditus.
Em outras palavras, quer dizer oferecer-se totalmente
a um outro que está situado antes e acima, implica tornar-se
uma pessoa colocada embaixo. Francisco procura ainda
introduzir a questão recorrente da percepção como sugere
o uso de videre [ver] e sub specie [sob a aparência
de]. No momento em que este matiz é colocado no contexto
do convite freqüente a superar a cegueira, a abrir os
nossos olhos e a estar atentos ao que parece como bem,
isto é, sub specie, a sua consciência do fruto do pecado
– a desilusão – se torna evidente. Portanto, o desafio
de discernir o que é meliora ou utiliora é colocado
à sombra da árvore do conhecimento do bem e do mal e
é expresso em termos de quanto facilmente ficamos desiludidos.
Novamente as Admoestações exprimem uma concepção quase-sacramental.
As nossas expressões de humildade um pelo outro são
manifestações de uma atitude muito mais profunda do
nosso colocar-nos diante de Deus. Ao mesmo tempo, a
humildade no nosso tratar um com o outro, especialmente
entre irmãos, nos leva a aprofundar em nós a nossa humildade
diante de Deus. A humildade nas nossas relações fraternas
é uma daquelas operações ‘centralizadas no outro’ típicas
do Espírito do Senhor que fortalecem os laços entre
nós e o Senhor e aprofundam o nosso compromisso um com
o outro. A décima segunda Admoestação, por exemplo,
indica uma norma útil para discernir a vitalidade da
nossa vida espiritual nos seguintes termos: “Eis o meio
para reconhecer se o servo de Deus tem o Espírito do
Senhor. Se Deus por meio dele operar alguma boa obra,
e ele não o atribuir a si, pois o seu próprio eu é sempre
inimigo de todo o bem, mas antes considerar como ele
próprio é insignificante e se julgar menor que todos
os outros homens.”
Ao ler as muitas Admoestações em que Francisco nos desafia
a abraçar a humildade é difícil não ver os verbos que
exprimem o movimento de subida e de descida da vida
cotidiana e os adjetivos comparativos com os quais nós
descrevemos a nós mesmos e o outro. A vigésima Admoestação
exprime isso em termos semelhantes:
“Bem-aventurado o servo que, sendo
louvado e exaltatur pelos homens, não se considera meliorem
do que quando é tido por insignificante, simplório e
desprezível. Porque o homem vale o que é diante de Deus
e nada mais. Ai do religioso que, enaltecido (colocado
in alto) pelos outros, em sua obstinação não quer mais
descendere. E bem-aventurado o servo que não é por sua
vontade enaltecido (não se coloca in alto) e que continuamente
deseja ser posto debaixo dos pés dos outros.”
Esta passagem nos introduz a um outro
tema das Admoestações que poderia revelar-nos porque
a minoridade tenha sido uma questão assim tão colocada
de lado pela tradição franciscana: a fascinante questão
da vulnerabilidade. Revela-se através de repetidas referências
ao sofrimento paciente não só quando nos confrontamos
com os inimigos, mas também na vida fraterna de todo
o dia.
Minoridade: o abraço da vulnerabilidade
A minoridade no contexto da pobreza
e da humildade aparece nas Admoestações como suficientemente
difícil, especialmente na vida fraterna, e Francisco
reconhece quanto vulneráveis nos deixam os outros. O
tema do sofrimento paciente aparece com freqüência nas
Admoestações, bem como em quase todos os outros escritos.
Em geral, a estes apelos à imagem de Jesus ou do Servo
Sofredor, fazem eco as próprias palavras de Jesus: “Quem
quiser salvar a sua vida deve perdê-la.” Podemos nos
perguntar se é esta mesmo a punição que Francisco entrevia
na segunda Admoestação. Claramente é uma alusão ao modo
com o qual Jesus nos ensina a desmontar as tendências
de pecado que herdamos.
Sempre realista e ao mesmo tempo nunca longe do amor
pelo ideal, Francisco intui que a acolhida da obediência
caritativa facilmente nos torna vulneráveis um em relação
ao outro. A obediência às vezes não nos pede só o sacrifício
dos nossos melhores e mais úteis juízos, nos coloca
também em situações estranhas nas quais somos tomados
por razões de consciência. Se se pudesse supor que um
ministro devesse sofrer dor física por causa dos seus
irmãos, Francisco não hesitaria de oferecer conselhos
a quem quer que se encontrasse em tal situação, conselhos
que o levariam inevitavelmente a sofrer até à perseguição:
... se o prelado der ao súdito alguma
ordem contrária à alma, este todavia não se separe dele,
embora não lhe seja lícito obedecer-lhe. E se por esse
motivo tiver de suportar perseguição da parte de alguém,
que então o ame ainda mais por amor de Deus. Pois aquele
que prefere aturar perseguições a querer ficar separado
de seus irmãos, permanece verdadeiramente na perfeita
obediência, porque ‘dá a sua vida pelos seus irmãos’.
O encorajamento indicado aqui de amar
aqueles que nos infligem dor e de enfrentar as perseguições
ao invés de separar-se, é importante para compreender
a visão de Francisco sobre o sofrimento paciente e encontra
um eco no capítulo XXII da Primeira Regra:
“Atendamos todos, irmãos, ao que diz
o Senhor: ‘Amai os vossos inimigos e fazei o bem a todos
os que vos odeiam’. Pois também Nosso Senhor Jesus Cristo,
cujas pegadas devemos seguir, chamou de ‘amigo’ o seu
traidor e se entregou de livre vontade aos que o crucificavam.
São pois nossos amigos todos os aqueles que injustamente
nos afligem tribulações e angústias, opróbrios e injustiças,
dores e tormentos, martírio e morte. A esses devemos
amar muito, porquanto pelo mal que nos fazem teremos
a vida eterna.”
Variações sobre o tema podem ser encontradas
em algumas Admoestações. A nona, por exemplo, é dedicada
à caridade autêntica e no mais é colocada no contexto
do sofrimento paciente. A décima terceira e a décima
quinta Admoestações, apresentam dois comentários à sétima
Bem-aventurança, “bem-aventurados os que promovem a
paz” e sempre sobre o mesmo tema, o suportar pacientemente.
Enquanto consideramos Francisco que encoraja seus frades
a aceitar as posições inferiores para abraçar a pobreza
e a humildade, podemos perceber um encorajamento semelhante
no abraço do sofrimento paciente. E ainda, conciliar
a pacífica acolhida do abuso e das injustiças que nos
vêm dos nossos irmãos, significa que Francisco quereria
que nos encontrássemos um lugar ‘embaixo dos pés dos
outros’ e não em posição de prestígio, como escreve
na décima nona Admoestação. E mais, cantar a bem-aventurança
do servo que voluntariamente quer permanecer ‘sob a
vara da correção’ na vigésima terceira Admoestação ele
exalta o servo que sofre a correção, a acusação e a
repreensão de um outro como se ele próprio a fizesse
a si mesmo. E mais, como se chegasse a uma posição ainda
mais ínfima, Francisco escreve de uma pessoa que aceita
estas humilhações mesmo que tenha cometido o erro pelo
qual está sofrendo. Mesmo que não haja uma única referência
bíblica sequer ao servo prudente e fiel do Evangelho
de Mateus nestes textos, Francisco claramente tem diante
dos seus olhos o exemplo de Cristo servo inocente e
sofredor ao propor este aspecto da minoridade aos seus
irmãos.
“Aprendei de mim...”
Penso que viver as Admoestações tenha
o poder de gerar aquilo que vocês estão discutindo:
a minoridade ou, aquilo que T. S. Eliot chamava ‘uma
condição de completa simplicidade’. Encorajemo-nos a
trabalhar contra e a viver de forma diversa. Viver as
Admoestações é o nosso modo de enfrentar e lutar com
a queda e inverter-lhe a dinâmica. Seguindo o método
catequético medieval, as Admoestações nos ensinam a
seguir a Palavra de Deus numa sempre mais profunda inferioridade
– minoritas – até retornar à simplicidade do plano original
de Deus.
Num dos seus comentários particulares, Tomás de Celano
escreve de como Francisco tivesse alcançado a inocência
original. Depois de ter considerado o crescimento de
Francisco nas virtudes da humildade e da pobreza, no
capítulo oitavo da Legenda Maior Boaventura faz a mesma
afirmação, mas com uma diferença importante. O fundamento
teológico do retrato de Boaventura exige que também
nós cumpramos o mesmo percurso e coloca este desafio
no abraço cósmico da paz ‘a tranqüilidade do amor’.
Retornamos assim, à Collatio da tarde de 4 de outubro
de 1255. “Aprendei de mim que sou manso e humilde...
aprendam de mim a ser frades menores”.
Recentemente alguns autores procuraram identificar a
inspiração bíblica do conceito de minoridade de Francisco
colocando em evidência particular o trecho do Evangelho
de Mateus 20,20-28 e de Lucas 22,24-30. As Admoestações
apresentam em cada circunstância a imagem do Servo de
Deus do qual se cantam os louvores e o colocam em contraste
com o religioso cuja vida é seguidamente descrita como
pouco autêntica. A imagem do servo pode claramente ser
considerada como um reflexo do servo dos salmos 22,
56, 68, etc. Estes textos aparecem no Ofício da Paixão
de Francisco.
Todavia é mais forte a imagem do Canto do Servo Sofredor
no Deutero Isaías e, sobretudo, o retrato de Jesus no
Evangelho de João. Estudos recentes sobre os escritos
de Francisco nos apresentam uma outra perspectiva, a
sacramental.
Poder-se-ia afirmar que a dimensão sacramental do pensamento
de Francisco se tornou muito mais profunda depois dos
estigmas. O Tu es do seu Louvor ao Deus Altíssimo, escrito
por Frei Leão enquanto ainda estava no Alverne, ressoa
em todo o texto proclamando a presença de Deus em todas
as coisas, uma presença que explode na alma poética
de Francisco como quando, na primavera sucessiva, ele
compôs o Cântico do Irmão Sol. A sua Carta a toda a
Ordem dos Frades Menores assume significado próprio
desta fonte de luz. Muitos viram este como o escrito
teologicamente mais profundo de Francisco; certamente
é o mais eucarístico, ele escreve: “Rogo-vos pois, a
vós todos, meus irmãos, beijando-vos os pés, e com toda
a caridade de que sou capaz, que manifesteis toda a
reverência e toda honra que puderdes ao santíssimo corpo
e ao santíssimo sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo,
no qual foram pacificadas todas as coisas, assim as
da terra como as do céu, e reconciliadas com o Deus
onipotente”.
Este é o Francisco místico que escreve, o Francisco
que experimentou as maravilhas do Amor Encarnado em
Greccio e o Amor Redentor no Alverne. Este ó o Francisco
que, sempre consciente da sua missão evangélica de levar
amor a toda a humanidade, agora escreve da reconciliação
de todas as coisas no Corpo Eucarístico de Cristo. Este
é também o Francisco que convida os seus frades a abraçar
a minoridade eucarística de Deus: “Pasme o homem todo,
estremeça a terra inteira, rejubile o céu em altas vozes
quando, sobre o altar, estiver nas mãos do sacerdote
o Cristo, Filho de Deus vivo! Ó grandeza maravilhosa,
ó admirável condescendência! Ó humildade sublime, ó
humilde sublimidade! O Senhor do universo, Deus e Filho
de Deus, se humilha a ponto de se esconder, para nosso
bem, na modesta aparência de pão!” As palavras brotam
com paixão e intensidade revelando Francisco místico
e exprimem uma visão de Cristo que pode ser bem sintetizada
pelo simples conceito: menor. Ele está “sobre o altar,
nas mãos do sacerdote”. Ele “se humilha a ponto de se
esconder , para nosso bem, na modesta aparência de pão!”
Este é o Francisco que convida seus frades: “Vede, irmãos,
que humildade a de Deus! Derramai ante Ele os vossos
corações! Humilhai-vos para que Ele vos exalte! Portanto,
nada de vós retenhais para vós mesmos, para que totalmente
vos receba quem totalmente se vos dá!” O mistério da
minoridade eucarística!
Alguns manuscritos do século XIV colocam a primeira
Admoestação numa categoria à parte; os comentaristas,
muitas vezes, a colocam na mesma categoria da Carta
ao Capitulo Geral e a todos os frades. As temáticas
eucarísticas presentes nos dois escritos parecem muito
semelhantes. A primeira Admoestação, porém, usa uma
linguagem muito mais direta e provém de um contexto
diferente, o da luta quotidiana da fé.
Inicia com as palavras de Jesus durante o discurso da
última ceia depois das interrupções de Tomé e Filipe:
“Nós não sabemos para onde vais; como podemos conhecer
o caminho?” e “Senhor, mostra-nos o Pai e isso basta
para nós.” Francisco prossegue reconhecendo a dificuldade
de ver Deus e se abre às considerações ligadas com o
ver o Verbo Encarnado e o Senhor Jesus na Eucaristia
segundo o Espírito e a Divindade. Chega à conclusão
com estas potentes palavras:
“Portanto, ‘ó filhos dos homens, até
quando tereis duro o coração?’ Por que não reconheceis
a verdade ‘nem credes no Filho de Deus’? Eis que Ele
se humilha todos os dias; tal como na hora em que, ‘descendo
do seu trono real’ para o seio da Virgem, vem diariamente
a nós sob aparência humilde; todos os dias desce do
seio de Pai sobre o altar, nas mãos do sacerdote. E
como apareceu aos santos apóstolos em verdadeira carne,
também a nós se nos mostra hoje no pão sagrado.”
Esta é uma visão sacramental da vida
e que define a vida evangélica de Francisco de Assis.
A sua intuição evangélica da minoridade aprofundada
a partir da intuição sacramental e manifestada dentro
de um esquema de pensamento, em modalidades de falar
e com exemplos de vida. Todo dia Francisco percebia
o Altíssimo optando pela minoridade, todo dia esvaziando
a si mesmo, todo dia fazendo-se vulnerável nas nossas
mãos. Podemos, talvez, também nós fazer o mesmo?
Frei Regis Armstrong, OFMCap.
|
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Uma
contribuição capuchinha à compreensão do sacerdócio
na Igreja: consideração analógica sobre o biculturalismo
e a dupla pertença religiosa |
Edward Foley,
o.f.m.cap. |
A
História
Estamos em 1974. Na minha Província de São José, uma
das nossas maiores casas dentro da cidade era a sede
do pós-noviciado. A comunidade de cerca de 40 frades
incluía muitos frades em formação inicial, alguns professos
do teologado local, o grupo de serviço à paróquia e
outros frades empenhados no ministério. 75% dos frades
da comunidade eram irmãos leigos. A casa era cheia e
o espaço do coro era relativamente pequeno para a oração.
Constituía um hábito tornado quase um rito que os frades
sacerdotes deixassem o coro depois das Laudes, se retirassem
na sacristia para prepararem-se para a Eucaristia e
retornassem depois ao coro onde tomavam lugar ao redor
do pequeno altar para a concelebração. Com tal disposição
eles blocavam virtualmente sempre a visão de ao menos
alguns dos frades que estavam nas cadeiras do coro.
Muitos dos jovens frades tinham-se queixado da situação
com o guardião. Mesmo com as repetidas tentativas para
ajudá-los a compreender a mentalidade dos frades sacerdotes,
as tensões aumentaram. Por fim, a questão foi levada
à reunião da fraternidade. Como compromisso, os frades
sacerdotes – que insistiam na necessidade de sair do
coro para preparar-se – concordaram de celebrar permanecendo
nos seus lugares no coro. Mas o compromisso não satizfez
nem os sacerdotes nem os irmãos leigos. A tensão nunca
se acalmou.
Uma tarde, depois da oração, alguns frades leigos, o
guardião e alguns sacerdotes reencontraram-se na sala
comum da fraternidade onde o assunto foi reproposto.
Seguiu-se uma longa discussão, às vezes quente. Foi
dito que os frades sacerdotes eram insensíveis e que
lhes faltava humildade. Os irmãos leigos foram acusados
de denegrir o sacerdócio. O guardião reconheceu que
a fraternidade estava começando a desgregar-se por causa
deste problema dirigindo-se rapidamente a um ponto de
danos irreparáveis. Era hora de intervir. Como estava
previsto que ele presidisse a Eucaristia do dia seguinte,
escolheu aquele momento para passar à ação e fazê-lo
de modo decisivo.
Na manhã seguinte, depois das Laudes, enquanto os sacerdotes
estavam para sair do coro para preparar-se, o guardião
pediu que todos permanecessem no seu lugar. Dirigiu-se
ao altar e falou à comunidade da Eucaristia como símbolo
de unidade e de fraternidade. Fez, porém, notar que
a Eucaristia tinha-se tornado causa de divisão e ocasião
para aumentar a hostilidade entre os frades. Depois
anunciou que não presidiria a Eucaristia naquela manhã
porque pensava que a questão estava se tornando escandalosa.
E que não seria permitido a nenhum outro presidir naquela
manhã: como guardião não poderia, em boa consciência,
permitir que a Eucaristia fosse celebrada nem em comum
nem em particular no coro até que o problema não fosse
resolvido.
Quando lhe foi pedido se se poderia celebrar a Eucaristia
na capela privada ou na igreja ao lado, o guardião respondeu:
“sim, mas não como Missa conventual; só como Missa particular.”
Depois o guardião foi para seu quarto. Enquanto isso,
a casa provincial de Detroit foi bombardeada com uma
tempestade de telefonemas por parte dos frades da casa
dando a sua versão dos fatos e pedindo se o guardião
tinha autoridade para agir daquele modo. Alguns minutos
depois, o ministro provincial chamou o guardião e pediu
se fosse sua intenção interditar a área do coro e a
capela do convento. Mesmo dizendo que aquela não era
a sua intenção do ponto de vista canônico, o guardião
explicou e confirmou a sua ação, que permaneceu obrigatória
para a comunidade.
Como vocês podem suspeitar, isso foi o começo do fim
daquela casa como sede da formação inicial. Numerosos
encontros levaram a pouca reconciliação. A única solução
foi a de deslocar os estudantes – que eram a maioria
dos frades leigos – para outra casa. Assim a comunidade
formativa daquela casa foi dissolvida e diversos elementos
da fraternidade tomaram destinos diversos. Acrescento
que, alguns anos depois, o guardião foi eleito ministro
provincial. Informando-me recentemente sobre os detalhes
dessa história, disse-me que, como ministro provincial,
teve ainda que enfrentar os mesmos problemas e os mesmos
comportamentos no decênio seguinte.
Introdução
Trata-se certamente de uma história dramática e preocupante.
E esse episódio – que é verdadeiro – da história recente
da minha província coloca à luz a potencialidade que
existe quando se enfrenta o assunto do sacerdócio romano-católico
no contexto da vida franciscano-capuchinha, assunto
muito sensível, e muito confuso de um ponto de vista
fraterno, eclesial e até canônico. Ainda mais: olhando
o sacerdócio romano-católico através do prisma do carisma
seráfico tão caro da minoridade, se poderia pensar num
desastre pré-anunciado. Como chave de volta da identidade
franciscana, a “minoridade” evoca imagens de humildade,
de falta de poder, de ser menores em tudo, enquanto
a instituição do sacerdócio romano-católico pode levar
o pensamento a expectros de poder, hierarquia e sacralidade
privilegiada. Colocando os elementos desse diálogo em
termos tão opostos – como facilmente acontece – se prospecta
um conflito quase inevitável entre a nossa vocação franciscana
e a aceitação do sacerdócio romano-católico. Talvez
a única solução em vista de uma tal discórdia poderia
ser a elaboração de um tratado de paz destilado com
prudência e feito de modo que nem a irmã minoridade
nem o irmão sacerdócio fossem muito sacrificados, a
ponto de conseguir o desejado cessar-fogo.
Não creio, porém, que os Conselhos Plenários da Ordem
sejam essencialmente operações para manter a paz interna.
Como conseqüência, não penso que seja minha missão propor
uma estratégia para manter uma ligação fraterna entre
minoridade e presbiterato; nem, por extensão, entre
frades leigos e frades clérigos. Nem considero este
encontro como o equivalente à divisão franciscano-capuchinha
da sociedade internacional de teologia histórica, cuja
finalidade é descobrir as causas desta bem conhecida
tensão. O exame das bases históricas e dos fundamentos
teológicos é certamente útil, mas se este se tornar
o nosso principal objetivo no tempo limitado que temos
para refletir sobre esse tema, então existe realmente
a possibilidade que usemos mais tempo a considerar o
passado que a projetar o futuro, mais tempo a fazer
relatórios que a refletir e terminar facilmente ainda
“atrás” dos problemas em vez de caminhar adiante deles.
Nem uma operação de manutenção da paz, nem um exercício
de arqueologia teológica. Sugiro um outro caminho. Como
a conjunção entre a vida capuchinha e o sacerdócio romano-católico
foi tanto uma graça como uma prática negativa no passado,
e como esta união de vida religiosa e de sacerdócio
é parte inevitável do nosso futuro previsível, nossa
tarefa é de examinar esta união de modo que a sua potencialidade
de graça seja maior que a sua potencialidade de des-graça.
Temos necessidade de maiores lentes para entender que
o sacerdócio não tem mais importância que a profissão
religiosa, que o frade clérigo não é uma contradição,
e que a aliança de sacerdócio e minoridade não significa
necessariamente conflito e confusão. Antes, uma visão
renovada poderia nos tornar capazes de descobrir que
o carisma capuchinho não só de tolerar mas de abraçar
tanto o sacerdócio como a minoridade é, na verdade,
um tesouro evangélico escondido – uma parábola a ser
desenvolvida que está ainda parcialmente escondida no
campo e que espera ser desenterrada. Isso é, penso,
um aspecto pós-moderno de luz crística que espera que
o alqueire seja erguido para que a fraternidade, como
a Igreja e o mundo possam ser ainda mais iluminados.
Nas tratativas contemporâneas é procedimento comum colocar
o sacerdócio em uma das duas tradições: o diocesano
ou no contexto das ordens religiosas. Talvez possamos
oferecer uma via tertia: certamente já o fizemos antes.
E como as nossas Constituições nos recordam que nós
não existimos em função de nós mesmos mas para contribuir
para o bem da Igreja, para servir o povo de Deus e a
inteira comunidade humana, aceitamos esse empenho de
revisão não só ou nem de modo especial para a nossa
própria consevação ou desenvolvimento, mas como uma
maior contribuição para uma renovada práxis da Igreja,
desde a Igreja e para a Igreja a serviço do mundo.
A mudança metodológica
Existem muitos métodos à nossa disposição para tal reexame.
Proponho usar o método que se baseia na obra de David
Tracy e que genericamente se pode entender como uma
forma de teologia prática. Tracy sugeriu que no tempo
moderno aquelas que uma vez eram distinções úteis para
os medievais se tornaram fatais separações. Uma dessas
é a separação de teoria e prática. Crendo que aqui nós
estamos interessados na correlação de teoria e prática
de sacerdócio e vida capuchinha, o guia metodológico
de Tracy pode nos ser útil para colocar em relação os
dois elementos no nosso empenho de elaborar uma teologia
da práxis para o sacerdócio capuchinho.
Tracy acredita que existem três possíveis paradigmas
para a interação entre teoria e prática. Caracteriza
o primeiro como a abordagem teoria-práxis, na qual a
teoria é elaborada em um campo (por exemplo, teologia
sistemática) e aplicada num outro (por exemplo, na prática
pastoral). Tracy considera que este seja um modelo teológico
inadequado por muitas razões. A mais convincente delas
é o destaque crítico que nesse modelo a teoria não é
mais influenciada por alguma prática. Para nós poderia
constituir um modelo perigoso a ser usado, porque poderia
ter como resultado dar a prioridade a uma particular
teologia ou do sacerdócio ou da vida religiosa (com
a diminuição que resulta para a outra parte), com a
conseqüente tentativa de alienar a nossa práxis de vida
com aquilo que poderia ser uma ao menos inadequada se
não mal concebida teologia.
O segundo modelo de Tracy pela interação entre teoria
e prática é um modelo que não dá espaço à reflexão crítica.
E ele pensa que também este seja defeituoso. O caracteriza
como modelo práxis-práxis. Tracy nota que este modelo
“não só não considera a teoria como simplesmente a nega."
Escreve: neste modelo “as ações concretas e os empenhos
por um caso particular fornecem todos os critérios necessários
para a verdade em teologia. Este segundo modelo... não
afirma de modo correto o primado da práxis sobre a teoria...
[mas ele] não vê como cada práxis, como cada experiência,
é efetivamente carregada de teoria." Como capuchinhos
chamados a uma reflexão teológica sobre nossa experiência
partilhada – que constitui a autêntica essência de um
Conselho Plenário da Ordem, sem falar do capítulo local
- devemos rejeitar qualquer modelo teológico do gênero,
que não dá espaço ou mesmo não requer uma séria reflexão
teológica sobre nossa vida em comum.
Tracy afirma que as teologias da práxis devem rejeitar
tanto a abordagem teoria-páxis como o modelo práxis-práxis.
E conclui propondo que uma autêntica forma de teologia
da práxis é “a mútua relação crítica de uma teoria e
de uma prática que interpretem o fato cristão e de uma
teoria e de uma práxis que interpretem a situação contemporânea."
Essa imagem de uma mútua crítica correlação convida
a um "diálogo colaborativo... no qual cada um pode
interpelar o outro e oferecer observações descritivas
ou normativas, chegando a uma mais profunda compreensão
através do seu diálogo que se desenvolve essencialmente
entre iguais."
É isso, creio, que somos chamados a fazer aqui: construir
um diálogo de colaboração a serviço de uma renovada
teologia da práxis, uma mútua crítica correlação entre
o sacerdócio romano-católico e a minoridade capuchinha,
ambas consideradas no contexto daquilo que Tracy chama
“a situação contemporânea.” Nesse processo devemos pôr
a minoridade e as ordens sagradas como iguais parceiros
do diálogo. Isso significa especialmente evitar o risco
de dar a prioridade a um ou outro e, conseqüentemente,
bloquear qualquer esperança de diálogo autêntico. Por
isso, não creio que se possa simplesmente usar a minoridade
como um meio para criticar ou repensar o sacerdócio,
porque para criar um diálogo que seja mútuo se deve
supor que todos os participantes possam contribuir.
Assim, desde o início é necessário admitir a possibilidade
não só que a minoridade capuchinha possa iluminar o
sacerdócio romano-católico, mas que a realidade de frades
ordenados possa iluminar a vida capuchinha. Deve-se
evitar o isolamento ermético da porfissão religiosa
como se a sua pureza fosse de qualquer modo comprometida
pelo contato sacerdotal.
Escutar de fora para dentro
Do ponto de vista da teologia prática, o primeiro nível
para a criação de tal diálogo colaborativo requer uma
completa e empática atenção recíproca: escuta que supere
os limites da idade, da formação, do estado eclesial,
da cultura e da experiência: um processo que vocês claramente
já iniciaram. A qualidade da escuta determinará, em
larga escala, o tipo de correlação crítica e de decisivo
reexame que se seguirá. Todavia se nessa obra o dar
atenção à realidade capuchinha é certamente exercício
fundamental, ele é, antes de tudo, insuficiente. Reunir-se
em um Conselho Plenário nesse período de tão grande
fermento eclesial e global nos põem ulteriores questões.
Além do panorama franciscano-capuchinho, como parte
daquela atenção ao que Tracy chama a mais ampla “situação
contemporânea,” somos forçados a dar atenção à realidade
maior da Igreja que nos gera. Devemos contextualizar
as nossas reflexões no panorama da unidade na diversidade
que caracteriza o catolicismo global que se encarna
em mais de um bilhão de fiéis que vivem a sua fé praticamente
em toda língua e nação sobre a face da terra. E, depois,
é claro, existe o mundo que ultrapassa a Igreja, o mundo
para além do cristianismo, o mundo além também da fé.
É esse mundo que é o objeto último do amor do Pai, o
fundamento joanino da encarnação e o centro de toda
a missão que seja autenticamente católica. Assim, nessas
nossas reflexões nós devemos ter presente o contexto
global que a Gaudium et Spes chama “as alegrias e as
esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de
hoje” [n. 1].
Só depois de termos dado atenção não só aos irmãos mas
também à realidade da Igreja e do mundo – com escuta
empática que suspende o juízo - estamos preparados a
comprometermo-nos no tipo de reflexão e de diálogo que
dá espaço a novas concepções, refresca a visão e fortalece
a Ordem não simplesmente com o espírito fundador mas
com o Espírito Santo.
Certamente a alguns pode parecer estranho considerar
uma questão tão tipicamente franciscana como a minoridade
ou enfrentar o paradoxo que está intra nos do sacerdócio
e minoridade de pontos de vista eclesiais e globais
não-capuchinhos. Penso, porém, que isso seja essencial
se devemos evitar o destino ao qual se dirigiu em 1974
a comunidade de formação da qual narrei brevemente a
história no início desta conferência. Mesmo fora daquele
específico contexto provincial, instintivamente sinto
que, em última análise, o fim daquela comunidade foi
o resultado de horizontes estreitos e de miopia eclesial.
Tradução: os frades nunca foram além de si mesmos no
seu modo de pensar. Estavam totalmente interessados
na sua própria dignidade e igualdade, no seu próprio
senso de justiça e de injustiça, nos seus próprios direitos
e respeito que pouco consideraram qual impacto a sua
ação coletiva teria sobre a mais vasta fraternidade
capuchinha ou também sobre a igreja local ou sobre a
vizinhança onde a comunidade constituía uma grande presença.
O dissolver-se da fraternidade foi tratado simplesmente
como um assunto privado, interno, dos frades antes que
como um símbolo público de dissonância e de luta.
Entretanto, do momento que os franciscanos-capuchinhos
são, por definição, homens da Igreja - não só batizados
cronologicamente no corpo de Cristo antes da profissão
ou da ordenação, mas declarados primeiramente cristãos,
cuja própria profissão e ordenação estão teologicamente
implicadas nesse batismo – então toda a correlação entre
a minoridade e o sacerdócio deve ser levada adiante
partindo de uma perspectiva eclesial. A Congregação
para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades
de Vida Apostólica em síntese disse: “o Vaticano II
afirmou que a vida religiosa pertence ‘firmemente’ à
vida e à santidade da Igreja, e a colocou exatamente
no coração do seu mistério de comunhão e de santidade.”
Por isso a nossa tentativa de uma visão revificada do
sacerdócio e da minoridade deve contribuir para a comunhão
da Igreja e ser concebida no contexto de tal comunhão.
Mas perguntemo-nos: de qual visão de Igreja, de qual
“eclesiologia de comunhão” deveríamos partir para elaborar
a nossa relação, já que o termo certamente não é unívoco?
Alguns que aceitam a visão da Igreja como mistério de
comunhão o fazem com uma tendência centrípeta. Isso
se torna evidente pelo fato que algumas eclesiologias
de comunhão parecem sem qualquer "missiologia de
comunhão." Mas a Igreja não foi colocada a existir
para si mesma e não é sustentada pelo Espírito de Jesus
Cristo para preservar a si mesma. Antes, o Concílio
Vaticano II proclama claramente e o Papa João Paulo
II o repetiu, a “Igreja é missionária por sua própria
natureza.” Por isso, como diz Paul Lakeland,
devemos reiterar a unidade simbiótica
entre comunhão e missão. A comunhão pode ser um conceito
confortador a ser meditado, mas a validade da expressão
particular da comunhão na Igreja deve ser procurada
na qualidade do empenho da mesma comunidade para a sua
missão. A práxis da comunhão é visível na fidelidade
da Igreja à sua missão; a práxis da missão está conectada
diretamente com a compreensão da comunhão. Se aquilo
que nós entendemos por “comunhão” é um olhar para o
interior, um auto-elogio e um colocar-se juntos, com
medo, contra as forças da modernidade... então “missão”
significará um pouco mais que uma crítica periódica
corosiva do mundo “externo”. Mas se a comunhão significa
uma generosa associação cheia de amor de livres e fiéis
filhos de Deus, então o excesso dinâmico do amor, sem
o qual não se dá amor de modo algum, se derrama na missão
a todo o gênero humano, uma missão caracterizada pela
generosa partilha do saber que Deus quer salvar o mundo.
Esta é uma eclesiologia de comunhão
com claras ressonâncias na própria natureza da profissão
religiosa. Como foi colocado bastante em relevo no Instrumentum
Laboris, nos trabalhos e na exortação pós-sinodal de
1994 do Sínodo especial sobre a Vida Consagrada, a vocação
à missão é parte essencial de toda a forma de vida consagrada
comum. Quase 16 anos antes desse Sínodo, o III CPO (Mattli,
1978) expôs uma visão semelhante, notando que, “o projeto
evangélico de vida do franciscano implica, radicalmente,
uma espontânea dimensão apostólica sem fronteiras”,
porque “toda vocação franciscana é, fundamentalmente,
missionária.” Parece assim apropriado criar uma correlação
entre minoridade e sacerdócio num contexto eclesial
com uma forte trajetória missionária.
Dada a nossa preferência por uma eclesiologia de comunhão
com clara orientação missiológica, pareceria ser oportuno
e ao mesmo tempo frutuoso iniciar elaborando a nossa
correlação crítica entre sacerdócio e minoridade tendo
presente, antes de tudo, o mundo maior que é o autêntico
objeto da missão da Igreja. Proponho que se comece tomando
em consideração o mundo em vez dos nossos problemas
franciscanos particulares, de modo a desmontar, ou ao
menos inabilitar temporariamente as muitas predisposições,
preconceitos e pressupostos que instintivamente entram
em jogo quando se considera o paradoxo dos frades ordenados.
Em particular, gostaria colocar à parte aquilo que eu
considero abordagens da “justiça” e da “igualdade”,
abordagens já gastas a respeito desse problema, que
tendem a ser binárias (igual ou desigual), opostas (justa
ou injusta) e – ao menos pela minha experiência – causa
de divisão. Saindo das nossas categorias habituais e
das nossas questões usuais, correlacionando aquilo que
é ordinário com o que é imprevisto, justapondo o interno
com o externo, colocando em diálogo aquilo que está
no centro com aquilo que está às margens, não existe
só a real possibilidade de ter uma visão nova, mas também
a sortuda possibilidade de que tal visão resulte como
bem de quem não espera, dos estrangeiros e dos marginalizados
– e não simplesmente dos capuchinhos. E, do ponto de
vista da missiologia de comunhão, se o nosso reexame
da minoridade ordenada não resulta para o bem de toda
a Igreja e do mundo e especialmente daqueles que a Igreja
e o mundo minimizam e marginalizam, o nosso exercício
não só faliu, mas é efetivamente um exercício negativo.
Quais serão os parceiros do nosso diálogo ao elaborar
a nossa relação a serviço de um sacerdócio capuchinho
revisitado? Como os parceiros do nosso diálogo necessariamente
estão limitados pelo breve tempo que temos diante de
nós, parece mais positivo empenhar parceiros do diálogo
na Igreja e no mundo que possam oferecer explícitas,
mesmo se inseparáveis, analogias com a ultrapassagem
das fronteiras que se reflete no sacerdócio capuchinho.
Especificamente proporia duas dinâmicas operativas no
nosso mundo e na Igreja que têm, ambas, algo a oferecer
e algo a ganhar com esse diálogo: trata-se do biculturalismo
e do fenômeno da dupla pertença religiosa.
Vamos considerá-las uma após outra, primeiro descrevendo-a
e depois considerando o que estes participantes no diálogo
podem oferecer para uma renovada visão do sacerdócio
capuchinho e o que o sacerdócio capuchinho, por sua
vez, pode oferecer àqueles que vivem biculturalmente
ou simultaneamente em duas comunidades religiosas. No
fim, procurarei tirar algumas conclusões destas correlações
a cerca de uma renovada visão do sacerdócio capuchinho
e oferecer algumas estratégias para fazer progredir
tal visão.
Biculturalismo
Uma das características da sociedade da última parte
do século XX é o fenômeno conhecido como globalização.
Trata-se de um complexo fenômeno político, econômico
e social resultado da convergência de diferentes forças.
Na sua análise recapitulativa, Robert Schreiter indica
três dessas forças como especialmente influentes. A
primeira, que se afirmou em 1989 com o colapso do sistema
político bipolar, é o emergir relativamente rápido de
um mundo multipolar. Schreiter nota que, antes da queda
do Muro de Berlin, o planeta podia ser dividido num
Primeiro e num Segundo Mundo que, a grosso modo, representavam
o sistema democrático e capitalista diante do sistema
social e comunista. Esta divisão Moscou-Washington,
com nações alienadas em ambos os lados, era claramente
bipolar e em oposição, simbolizada na ameaça recíproca
de destruição nuclear. As nações pobres do emisfério
sul constituíam o assim chamado Terceiro Mundo, o qual,
às vezes, colocava em contraposição o Primeiro e o Segundo
Mundo para tirar vantagem, e, às vezes, servia de teatro
de guerras substitutas entre os dois. Com o rápido colapso
dessa subdivisão do poder entre os dois polos, o mundo
tornou-se um lugar multipolar, do qual, afirma Schreiter,
ninguém conseguiu traçar um mapa convincente.
Uma segunda força no emergir da globalização é o crescimento
dos mercados globais e a expansão mundial do capitalismo
de mercado. Schreiter escreve que esse tipo de capitalismo
é caracterizado pelo fato que ignora as fronteiras nacionais,
pela sua habilidade em movimentar capitais com rapidez
e pelo seu compromisso com projetos de curto prazo que
aumentam ao máximo os rendimentos. Como o novo mundo
político, também essa economia globalizada é multipolar
– mesmo sendo os americanos, sem dúvida, dos mais importantes
“globalizadores.”
O terceiro fenômeno indicado por Schreiter no processo
de globalização é o progresso nas tecnologias da comunicação.
As revoluções nas telecomunicações, o poder viajar com
grande rapidez e, especialmente, a Internet deram uma
nova forma ao nosso modo de perceber tempo e espaço.
As tecnologias da comunicação do século XXI “tornam
possível uma rede que evita sempre mais o controle hierárquico;
a rede tomou o lugar da hierarquia como modelo social
para a comunicação.”
Schreiter conclui que,
“a convergência desses três fenômenos
– o mundo multipolar, o capitalismo global e as tecnologias
da comunicação – criam o fenômeno conhecido como globalização...
definido aqui [como] a extensão dos efeitos da modernidade
ao mundo inteiro e a compreensão de tempo e espaço,
tudo acontecendo ao mesmo tempo.”
Um dos efeitos dessa compreensão de
tempo e de espaço é um aumentado multiculturalismo.
O multiculturalismo era um fenômeno já reconhecido antes
da última parte do século XX. Por exemplo, a Austrália
– uma das nações mais multiculturais do mundo - teve
grandes imigrações da Grã-Bretanha, Europa e Ásia durante
todo o período da história moderna. Mas a globalização,
decididamente, intensificou o nível de multiculturalismo
em todo o mundo. Isso é certamente verdadeiro para a
Europa do final do século XX, particularmente no que
diz respeiro à República Federal da Alemanha, que experimentou
contínuas ondas de imigrantes à procura de trabalho,
refugiados de guerra civis e pessoas à procura de asilo
na última metado de século XX. Para nós, capuchinhos,
que atualmente vivemos em 95 nações e compreendemos
“centenas de comunidades étnicas,” as dinâmicas de um
tal multiculturalismo são tão importantes que no mês
de fevereiro passado a Ordem celebrou em Adis-Abeba
um encontro sobre “Fraternidade e Etnicidade.”
Com a nossa crescente tomada de consciência e com o
aumento do conhecimento das dinâmicas do multiculturalismo,
os especialistas no campo cultural e especialmente os
psicólogos interculturais começaram a explorar o fenômeno
conhecido como biculturalismo. Às vezes o biculturalismo
é definido como “a capacidade das pessoas de uma minoria
cultural compreender e trabalhar no âmbito da cultura
dominante para melhorar o seu bem-estar econômico e/ou
físico na interação que têm com tal cultura... [conservando
porém] o conhecimento e os modos de comportamento da
sua própria cultura nativa.” Outros sustentam que o
biculturalismo representa somente uma fase transitória
na passagem de uma cultura a outra e é o ponto intermediário
no processo de passagem da completa segregação ao ideal
que é constituído pela total assimilação. Finalmente,
alguns pensam que o estado de biculturalismo é, por
definição, uma experiência de marginalização na qual
as pessoas não se sentem bem em nenhuma das duas culturas,
mas se encontram em frente ao desafio de criar um espaço
onde tal separação pode ser continuamente explorada,
reconhecida e mudada.
Contudo, recentemente alguns estudiosos têm sustentado
que o biculturalismo não é necessariamente uma experiência
de marginalização ou de deslocamento. Nem um passo intermediário
e desagradável de assimilação. Mais, o biculturalismo
é visto por alguns como um são e deveras ideal estágio
de adaptação no qual a própria visão cultural original
do mundo permanece intacta enquanto são adquiridos elementos
da cultura alternativa. Jean Phinney, por exemplo, sustentou
que ser membro de duas culturas não significa ‘existir’
no meio das duas, não denota um estado de prisão intermediária,
mas sim o biculturalismo pode ser uma posição integrada
da vida na qual alguém pertence a duas culturas – em
vários níveis – ao mesmo tempo.
Essa visão do biculturalismo sugere que a capacidade
de viver com sucesso aquilo que alguns chamaram “uma
exestência conjunta” não significa alcançar um ponto
perfeito de equilíbrio entre as culturas, mas desenvolver
a capacidade de empenhar-se num contínuo processo de
negociação entre culturas. Para essa finalidade, os
pesquisadores descobriram que as pessoas biculturais
não aceitam elementos das duas culturas que constituem
a sua identidade no mesmo grau e ao mesmo tempo. Pelo
contrário, como as suas auto-identidades se modulam
de acordo com a situação social, também o equilíbrio
entre os seus recursos culturais é reajustado para enfrentar
cada nova situação social. Parece que tais pessoas tenham
alcançado um elevado nível de aculturação e se tornam
verdadeiramente capazes de elaborar vários aspectos
das suas identidades culturais segundo a necessidade.
Considero que esse modo de conceber o biculturalismo,
mais positivo e dinâmico, oferece uma analogia útil
para refletir sobre a união entre minoridade e sacerdócio.
Acredito principalmente que ele contribua à reflexão
sobre minoridade e sacerdócio em três modos distintos.
Antes de tudo, a estrutura bicultural segere que ser
um menor ordenado não significa ser colocado numa posição
na qual alguém é forçado a escolher entre um ou outro
aspecto da sua identidade eclesial como primário ou
fundacional. Penso que, infelizmente, isso aconteça
seguidamente, especialmente quando nós usamos uma linguagem
seqüencial para descrever as nossas identidades eclesiásticas
como “primeiro capuchinho e, depois, sacerdote.” Tal
linguagem se coloca fora dos parâmetros de uma mútua
correlação crítica e dá a entender que uma vocação não
é aspecto tão importante ou tão privilegiado para a
identidade como a outra. Outra coisa é reconhecer a
formação na comunidade capuchinha como a formação originária,
que ordinariamente vem antes, e que só depois dessa
alguém é formado ao ministério sacerdotal. Mas essa
sucessão histórica não nega a possibilidade que um frade
viva uma vida integrada como menor ordenado, na qual
tanto a profissão religiosa como a ordenação sejam partes
iguais do diálogo na vida da sua vocação. Afirmar que
se trate aqui de algo mais que uma sucessão histórica
– em outras palavras, dar uma prioridade teológica em
vez de “cultural” à sucessão profissão-ordenação, efetivamente
introduziria uma espécie de colonialismo no nosso modo
de pensar o sacerdócio capuchinho, supondo que a única
forma aceitável de sacerdócio é a que, de alguma forma,
foi domesticada pela vida capuchinha.
Todavia, a imagem do biculturalismo recorda um outro
caminho. O menor ordenado bem como a grande comunidade
capuchinha que aceita sem problemas a união entre a
profissão e a ordenação, por causa dessa realidade,
são convidados a uma forma especial de inculturação
que modela e apóia a integração sem limitar nem uma
nem outra. É uma virada no sentido do que alguns teólogos
chamam “dualismo complementar” – uma imagem que se refere
ao pensamento simbólico “Yin-Yang” da Ásia Oriental,
pensamento que é inclusivo, isto é, a forma de pensamento
“tanto/como”, que se distingue da forma de “dualismo
conflitivo” ou “ou/ou” que caracteriza fortemente o
pensamento ocidental. O biculturalismo revela que na
realidade conjunta do frade-ordenado efetivamente existe
uma graça em ser assim: para o indivíduo, a comunidade
e o mundo. O biculturalismo indica que essa conjunção
é um dom a ser aceito, não um problema a ser resolvido.
Ele é, como afirma Jung Young Lee, um convite não só
a ser “tanto/como” ... não só “entre”, mas na aceitação
dessa tal nova marginalidade ser “dentro e além”, transcendendo
o presente para modelar uma nova identidade, uma nova
concepção, uma nova forma de relação como “harmonia
de diferença.”
Uma segunda contribuição do biculturalismo para a nossa
compreensão do sacerdócio capuchinho é o que ele nos
revela sobre a natureza dinâmica desta conjunção. Como
vimos antes, vários estudos demonstraram que as pessoas
biculturais não aceitam elementos das duas culturas
que constituem as suas identidades no mesmo grau e ao
mesmo tempo , mas que a atitude da auto-identidade varia
de acordo com a situação social. Esse olhar na dinâmica
da identidade bicultural oferece, ao mesmo tempo, uma
visão útil e uma importante estratégia tanto para a
comunidade capuchinha que aceita a profissão e a ordenação
como para os muitos indivíduos na nossa fraternidade
que encarnam essa analogia eclesial de biculturalismo.
Exatamente como uma pessoa afro-americana, que adquire
o estado integrado de biculturalismo, sabe quando dar
relevo à sua africanidade, quando dar relevo à sua identidade
americana, ou manter os dois elementos em equilíbrio,
assim a fraternidade capuchinha bem como, individualmente,
frades ordenados na fraternidade podem adquirir suficiente
integração a ponto de saber quando é apropriado dar
relevância ao aspecto capuchinho da nossa identidade
eclesial, quando dar destaque ao aspecto sacerdotal
da nossa identidade eclesial, ou quando manter os dois
elementos em equilíbrio.
Um exemplo concreto de como isso possa ser feito é a
questão da concelebração, um tema já tratado na nossa
história introdutiva. Creio que o ato da concelebração
por parte de um frade ordenado necessariamente sublinha
o aspecto sacerdotal da sua identidade eclesial. Às
vezes isso é sublinhado muito apropriadamente como,
por exemplo, na Missa do Crisma celebrada com o bispo.
Outras vezes, em vez, a concelebração é decididamente
não apropriada porque ela sublinha o aspecto sacerdotal
da identidade eclesial de um frade, enquanto o rito
está efetivamente sublinhando a identidade capuchinha.
Um exemplo disso poderia ser a celebração da primeira
profissão. Pode ser apropriado celebrar a primeira profissão
no contexto da Eucaristia, mas ter a concelebração durante
tal rito desloca de modo inapropriado o equilíbrio para
o eixo sacerdotal da identidade eclesial comunitária,
enquanto o centro primário da primeira profissão é o
aspecto capuchinho da nossa identidade eclesial. A concelebração
não é um direito absoluto e deve ser regulada - mas
regulada de modo que o justo aspecto da nossa conjunta
identidade individual seja posto em destque. Se a nossa
conjunta identidade deve de fato progredir rumo a um
estado de ser de um nível avançado de inculturação,
então, tanto os indivíduos como as comunidades necessitam
de um repertório dinâmico de respostas, cada uma adaptada
às específicas circunstâncias que se apresentam, de
modo que se possa manter um justo equilíbrio entre o
carisma da profissão e da ordenação. Uma resposta única,
modelo [por exemplo, a concelebração não seja nunca
permitida ou “eu concelebro sempre”] é, ao mesmo tempo,
superficial e potencialemnte destrutiva. Note-se que
o objetivo de toda estratégia dinâmica em vista do nosso
biculturalismo eclesial não é de suprimir ou de ignorar
um ou outro aspecto dos carismas da nossa comunidade
encarnados na presença de menores ordenados, mas de
tornar possível o seu justo e dinâmico equilíbrio.
Uma terceira contribuição que vem do usar o biculturalismo
como estrutura para refletir sobre a relação entre minoridade
e ordenação é o seu forte convite a ser solidários com
o crescente número de irmãs e irmãos em todo o mundo
para os quais o biculturalismo não é uma opção, mas
um fato da sua vida de todos os dias. Em termos de migração
internacional, por exemplo, as últimas três décadas
viram um crescimento de mais de 230% no número de pessoas
que vivem fora dos seus países de nascimento, um número
atualmente estimado em mais de 185 milhões de pessoas.
Este e outros fatores no nosso mundo multicultural contribuem
para o desenvolvimento de uma crescente população que
os sociólogos chamam “raça mista.” Para dar só um exemplo,
o Reino Unido está experimentando hoje níveis recordes
de
“coabitações, matrimônios e relações
românticas entre diferentes grupos étnicos e raciais.
Segundo as últimas estatísticas de recenseamento para
a Inglaterra e País de Gales, 660.000 pessoas se definem
como de etnicidade mista. O maior grupo misto é o branco
e negro caribenho – 237.000, dos quais 137.000 (57.5%)
têm 15 anos ou menos. Extrapolando esses dados, o número
de britânicos implicados em raça mista é muito maior
desse, e em crescimento. A população de raça/etnicidade
mista é agora a terceira maior minoria no Reino Unido,
14.6% do total das ninorias étnicas, segunda das comunidades
índus e paquistanesas e maior das populações caribenhas
e africanas.”
Como vocês puderam perceber, essa população
em expansão tem hoje um perfil de idade mais jovem no
Reino Unido. Segundo recentes publicações do governo,
55% dos identificados como raça mista eram menores de
16 anos, enquanto a proporção da população branca abaixo
dos 16 anos era só de 19%. Como observou justamente
Virgilio Elizondo, “o futuro é mestiço.”
É claro, biculturalismo e raça mista não são necessariamente
termos sinônimos, especialmente se alguém pensa no biculturalismo
como um estado avançado de aculturação. Infelizmente,
para muitos se não para a maioria dos imigrantes e das
pessoas de origem de raça mista a sua situação é uma
situação de marginalização, de itinerância e minoridade
forçadas – não uma situação de integração. Mas o que
tem a ver essa situação global com os capuchinhos e
com o sacerdócio e a minoridade? Na minha perspectiva,
tudo!
Na sua Carta Circular n. 20, Frei John Corriveau fala
da Fraternidade Evangélica num “Mundo em Mudança.” Nesta
carta – apoiando-se na Carta Apostólica do Papa João
Paulo II Novo Millennio Ineunte – sugere que uma nova
imagem para descrever a nossa fraternidade é a da “a
casa e a escola da comunhão” [n. 2.1]. Evidentemente,
a comunhão, koinonia, e a comunidade são experiências
que todos sonham sobre a terra – especialmente, os milhões
de habitantes do mundo que são deslocados, que vivem
uma vida cultural bifurcada. Eles desejam ardentemente
poder deslocar-se das margens e encontrar uma sociedade
que lhes permita viver a própria vida, composta por
elementos sociais e culturais díspares, num mundo integrado
e pacífico.
Se nós devemos estar em missão para essas pessoas deslocadas
e arrasadas, como nos exortam as Constituições [n. 174.1]
e as fortes indicações do III CPO (Mattli, 1978) , então
se deve reconhecer que, segundo as palavras de tal Conselho,
o nosso primeiro passo na evangelização é “com a própria
vida.” A natureza eclesialmente “mista” da comunidade
capuchinha internacional é, na minha opinião, uma riqueza
desperdiçada na nossa missão aos que estão em situação
difícil nas diversas nações, línguas e culturas, porque
nós encarnamos o equivalente eclesiástico do biculturalismo,
nós somos o paralelo religioso chamado por alguns estudiosos
pós-modernos “hibridismo” . Nós somos uma comunidade
híbrida, uma união de leigos e de clérigos, elementos
díspares colocados juntos numa única mas não homogênea
identidade. Somos um exemplo vivo – ou ao menos um exemplo
potencial – de inculturação eclesiástica, uma comunidade
a caminho rumo à integração das culturas clerical e
leiga numa via tertia. E se, como afirmou a Assembléia
da Ordem em 1992 (Lublin), a fraternidade é o lugar
onde esta e todas as formas de inculturação começam
, então a minoridade emerge não só como uma característica
da vida capuchinha, mas como modo dinâmico de inculturação:
um meio para mostrar estima aos outros sem condicioná-los,
a vontade de aceitar a ambigüidade de uma realidade
composta como graça evangélica. Assim o biculturalismo
não só oferece uma crítica e uma contribuição à vida
capuchinha, mas a vida capuchinha oferece uma crítica
potencial e uma contribuição àquela concepção de biculturalismo
que o vê só como um estágio intermediário, uma existência
permanentemente marginalizada ou até uma realidade definida
só pela etnicidade .
Dupla pertença religiosa
Até este ponto tomamos em consideração o biculturalismo
e alguns aspectos da mais ampla realidade da nossa reflexão
da imagem do sacerdócio capuchinho. Essas várias formas
de hibridismo são muito comuns no nosso mundo complexo,
e formas diversas de hibridismo e de complexidade constituem
sempre mais a Igreja Católica de hoje. Uma dessas é
o fenômeno da dupla pertença religiosa que, creio eu,
pode oferecer um meio útil para repensar a união da
profissão e ordenação para os menores.
A dupla pertença religiosa – ou seja, aderir a uma religião
aceitando ao mesmo tempo os ensinamentos ou as práticas
de outra – aparece como um outro fenômeno, cuja crescente
freqüência pode contribuir no processo de globalização.
Certamente no Ocidente, e numa Igreja como a nossa tradicionalmente
centrada no Ocidente, isso parece ser o caso . Contudo,
em países como o Japão, a dupla pertença religiosa não
é so uma realidade difusa mas também tradicional e que
remonta a antes da globalização. Por exemplo, recentes
estatísticas do governo indicam que um país de 126 milhões
de pessoas, cerca de 100 milhões de japoneses se identificam
como aderentes ao xintoísmo, e 95 milhões como budistas.
A única conclusão que se pode tirar de tais estatísticas
– que não incluem seguidores de muitas novas religiões
nem os não-crentes do Japão – é que a maioria dos japoneses
se consideram tanto xintoístas como budistas .
A dupla pertença religiosa não só é a regra em países
como a China, Japão, Coréia, Vietnã, Índia, Nepal e
Sri Lanka, mas está efetivamente também na raiz das
origens cristãs. Como escreve Claude Geffré,
“No início, os judeus que se tinham
tornado discípulos do caminho de Jesus, achavam coisa
normal continuar indo na sinagoga, circuncidar-se e
não comer certos tipos de carnes impuras. Assim acreditavam
na possibilidade de permanecerem judeus mesmo tornando-se
cristãos.”
Apesar da história, entretanto, a dupla
pertença religiosa emergiu como problema teológico “nas
religiões que requerem um empenho absoluto e exclusivo
para os seus fundadores e/ou para as suas ‘fés’ por
parte dos seus seguidores.” Peter Phan enumera, entre
tais religiões, o judaísmo, o cristianismo e o islamismo.
Ele nota que
essas três religiões se consideram
não só mutuamente incompatíveis, mas também irreconciliáveis
com qualquer outra religião, de modo que a ‘conversão’
a qualquer uma delas é muitas vezes celebrada com um
rito externo que indica uma total renúncia a toda fidelidade
religiosa precedente.
Apesar dessas posições oficiais, um
número sempre maior de estudiosos cristãos e romano-católicos
pensa que o fenômeno da dupla pertença – ser um cristão
índu ou um cristão budista – não é só secundário mas
talvez e até desejável. Eu deixo esse debate aos teólogos
interessados no pluralismo religioso; quero, porém,
examinar duas contribuições distintas que essa analogia
da dupla pertença religiosa traz ao nosso re-pensar
o sacerdócio capuchinho.
Antes de tudo, o fenômeno da dupla pertença religiosa
é um catalizador para um particular e prometente tipo
de diálogo num terreno notoriamente difícil. Quando
indivíduos e comunidades se identificam simultaneamente
com duas distintas tradições religiosas, elas põem o
potencial de diálogo num nível de abertura inusual e
o esvaziam da aspereza que muitas vezes caracteriza
os contatos entre as diversas religiões. Descrevendo
o efetivo diálogo inter-religioso, Jacques Dupuis comenta
que “para ser verdadeiro, o diálogo inter-religioso
entre pessoas de diferentes ‘fés’ exige que todos os
participantes façam um esforço positivo para, o quanto
possível, entrar cada um na experiência religiosa e
na visão global do outro.” Tal empatia é um dom especial
daquelas pessoas e daquelas comunidades que vivem não
entre uma religião e outra, mas dentro de duas diferentes
experiências religiosas. O seu diálogo é de fato um
diálogo do próprio ser com a capacidade de um honesto
e autêntico intercâmbio e crítica segundo um estilo
de complementariedade mais que de exclusão. O seu diálogo
em efeito é um auto-exame que requer especial humildade
e honestidade.
Um diálogo assim não constitui só uma técnica de sobrevivência,
mas uma potente forma de testemunho de evangelização.
Mostra o cristianismo no seu aspecto mais acolhente,
permitindo a “mútua complementariedade” que enriquece
todos os participantes do diálogo. É a rejeição das
formas colonialistas de atividade missionária, nas quais
a finalidade é impor a uma outra comunidade as próprias
crenças religiosas e um belo exemplo de um novo gênero
de diálogo missiológico – uma “missão às avessas"
no qual se desenvolve uma autêntica reciprocidade entre
o missionário e a comunidade.
Analogamente, a vida capuchinha do século XXI encarna
uma espécie de “dupla pertença religiosa” na conjunção
entre ordenação e profissão religiosa. Esse é tanto
o estado dos frades individualmente quanto o estado
da natureza própria da nossa fraternidade contemporânea.
O convite positivo desse fenômeno é o apelo a um diálogo
público do próprio ser, uma nova resposta ao chamado
das nossas Constituições ao “diálogo mútuo” no espírito
de compreensão fraterna e de sincera estima, um empenho
a um contínuo auto-exame dessa justaposição de carismas
caracterizado pela empatia, honestidade e hospitalidade.
Na medida em que nós somos capazes de sustentar um tal
diálogo humilde – não como meio para resolver algumas
problemáticas que aparecem na nossa identidade capuchinha
– mas como modo de uma contínua auto-reflexão minorítica,
nessa medida a vida capuchinha se revela num novo modo
como testemunho evangélico para aqueles que estão fora
da comunidade romano-católica. Ao mesmo tempo, tal diálogo
minorítico se torna uma forma especialmente incisiva
de “nova evangelização” – não só no sentido original
que lhe foi dado pelo Papa João Paulo II como “redespertar
dos países tradicionalmente cristãos à urgência do Evangelho,”
mas nova evangelização para uma Igreja que se encontra
mais genericamente diante do desafio do batismo e da
ordenação, no esforço de enfrentar aquela especial alienação
dos fiéis como resultado do clericalismo e necessitada
de novos modelos para o ministério ordenado.
Uma segunda contribuição do fenômeno da dupla pertença
religiosa ao nosso repensar o sacerdócio capuchinho
é o seu convite à reconciliação. Poucas formas de violência
são tão infames como as perpetradas em nome da religião.
As guerras santas são uma realidade humana conturbadora
e uma herança muito devastadora entre os hebreus, os
cristãos e os muçulmanos. Na sua obra classica Violence
and the Sacred, René Girard demonstrou como religião
e violência estão extremamente unidas nas antigas religiões.
Porém, como demonstram os recentes acontecimentos na
Bósnia, Irlanda do Norte, Israel, Afeganistão e em muitos
outros lugares do mundo, a inseparabilidade de religião
e violência não está relegada ao tempo antigo. É triste
saber que existam, ainda hoje, muitos que continuam
a aceitar a violência como um "dever sacro."
Como cristãos somos chamados a confessar os horrores
que perpetramos sob as insígnias de Cristo. Como sintetiza
John Cobb,
A nossa história está cheia de perseguições
de hebreus e heréticos. Aprovamos e santificamos conquistas
e escravidões. Reforçamos o patriarcado com formas extremas
e horríveis. Ignoramos as conseqüências das nossas ações
para o bem-estar do mundo natural, ameaçando, assim,
o futuro humano sobre o planeta. Usamos o poder político
e econômico para impor com a força as nossas crenças
aos outros.
Poucos manifestaram a necessidade que temos de confessar
tais pecados de comissão e omissão como o Papa, que
durante o seu pontificado confessou os erros que a Igreja
cometeu contra os hebreus, os ortodoxos, as minorias
e muitos outros. Esse é um passo decisivo rumo à reconciliação.
Sabendo que o perdão não é um poder que pertence a quem
fez o mal, mas um dom que pertence às vítimas, e um
dom que eles podem dar quando não são mais demonizados,
colonizados, banalizados, ou de qualquer outra forma
rejeitados como "outros."
Aqueles que têm experiência da graça da dupla pertença
religiosa podem mostrar-nos a estrada. Eles acolheram
o outro em si mesmos e se tornaram ícones vivos do diálogo
inter-religioso. Como modelos dinâmicos de integração,
eles deixam claro que a reconciliação não é um ato que
se faz uma vez por todas, mas uma postura profética
constante. Os indivíduos e ainda mais as comunidades
de dupla pertença religiosa são um antídoto simbólico
à violência que nasce da ignorância religiosa ou da
rejeição e mostra o caminho para o Shalom.
De igual forma, uma comunidade minorítica de frades
leigos e de frades ordenados tem a capacidade de ser
icônica. Não só o frade ordenado tomado individualmente,
mas sobretudo a comunidade que compreende frades leigos
e frades ordenados como irmãos de um estado eclesial
distinto mas igual é, num certo sentido, uma comunidade
que aceita uma dupla pertença. É uma comunidade que
anuncia que não existem estranhos ou estrangeiros entre
nós e que a diversidade é aceita positivamente.
Que testemunho para uma Igreja onde é difusa a alienação
e até a violência entre membros leigos e membros ordenados!
Movimentos internacionais fizeram notar uma preocupação
crescente a respeito da cultura clerical que muitos
acreditam ter contribuído de modo significativo para
o abuso escandaloso que sacudiu a Igreja Católica Romana
no meu país e não só. E como muitos leigos se sentem
afastados do clero, acontece que um número crescente
de pertencentes ao clero se consideram separados dos
leigos. Por exemplo, o estimado sociólogo Dean Hoge
num recente estudo sobre os sacerdotes romano-católicos
recém ordenados refere que 75% dos sacerdotes diocesanos
em atividade nos USA, ordenados entre 1995 e 1999, acreditam
que a ordenação confere aos sacerdotes um status que
os faz ser essencialmente diferentes dos leigos. 69%
deles crê que um sacerdote deve considerar a si mesmo
como um “homem separado” por Deus. Mais, 36% desses
novos sacerdotes acreditam que os leigos devem ser “melhor
preparados a respeitar a autoridade da palavra do sacerdote.”
Em outras palavras, parece que – certamente nos Estados
Unidos – exista um difuso estado de fato que demonstra
como muitos membros do clero romano-católico e muitos
leigos se vêem uns aos outros como diferentes e irreconciliáveis
estrangeiros, estranhos.
Nós não só vivemos numa "comunidade mista"
chamada “Capuchinha,” nós vivemos numa comunidade maior
chamada “Igreja.” Na sua Exortação Apostólica Vita Consecrata,
o Papa João Paulo II definiu as comunidades mistas como
aqueles institutos que "se apresentavam como fraternidades,
onde todos os membros – sacerdotes e não sacerdotes
– eram considerados iguais entre si." Não deveríamos
pensar na Igreja como "comunidade de irmãos e irmãs
na qual todos os membros, sacerdotes e leigos, são considerados
iguais entre eles?" O único caminho para se chegar
a essa visão é o da reconciliação. E, como aquelas comunidades
que vivem a vida de dupla pertença religiosa e são ícones
e agentes dessa reconciliação, evitando distinções religiosas
e aceitando a diversidade em si mesmas, assim devemos
ser nós para a Igreja: agentes de reconciliação que,
imitando o Crucificado, queremos quebrar o círculo da
violência e dar forma a um novo modo de ser igreja,
uma nova maneira de ser sacerdotes, não fundada sobre
a separação e a sacralização, mas sobre a solidariedade
e o humilde serviço – isto é, o lugar do autêntico frade
menor.
Estratégias
Refletindo sobre a justaposição do sacerdócio e do carisma
franciscano da minoridade, me propus não compor uma
ladainha qualquer de lembranças, descrevendo com detalhes
as possibilidades e os problemas reais que poderiam
surgir ou surgiram dessa união. Pensei, antes, que fosse
um melhor gasto de energias explorar a possibilidade
de uma reestruturação da imagem dessa aliança, de modo
que possa ser vista sempre mais como partilha de graça
do que de des-graça, de uma santa práxis mais que de
uma má práxis. Nesse sentido, procurei evitar o modo
comum de pensar a respeito do carisma da minoridade,
do sacerdócio ou da conjunção dos dois. Em vez disso,
tomando em consideração duas formas diferentes de hibridismo
que são muito freqüentes no mundo pós-modermo – o biculturalismo
e a dupla pertença religiosa – e, em especial, prestando
atenção nas interpretações mais otimistas dessas formas
de hibridismo, tentei dar uma imagem renovada da minoridade
ordenada, imagem que tenha forma de não oposição, e,
portanto, seja complementar e evengélica.
Implícita nesse exame esteve a reconsideração não só
da minoridade mas também do que significa ser capuchinho
e, em especial, que significa para uma fraternidade
e não simplesmente para uma pessoa tomada individualmente.
Se está tudo claro, tanto histórica como teologicamente
que o sacerdócio de modo algum é essencial à vocação
franciscana, sustento em vez que o sacerdócio é uma
componente de facto da identidade capuchinha contemporânea
e não só deve ser reconhecida mas aceita como tal. Se,
de acordo com as mais recentes estatísticas, no final
de 2002 existiam na Ordem 9.093 professos perpétuos
e desses 7,080 cerca de 77.9% eram sacerdotes, então
penso que não se trate de um aspecto irrelevante, estranho
ou acidental da nossa vida comum ou auto-identidade.
E, dada a tendência estatística do último decênio, não
parece que esse aspecto da realidade capuchinha esteja
caminhando rumo ao desaparecimento. É um dado de fato
que devemos tomar a sério.
Isso significa que para ser "um" capuchinho,
alguém precisa ser ordenado? Claro que não! Mas de novo,
a consideração não diz respeito só a este ou aquele
capuchinho em particular, mas à própria natureza da
fraternidade capuchinha que inegavelmente é "mista."
Um dos motivos pelos quais não desperdicei muita energia
no desenvolvimento histórico dessa realidade é porque
penso que o atual desafio não é negar tal tal realidade
capuchinha, com recurso a certo puro ideal franciscano
ou a uma teoria de ‘capuchinidade’ que isola ou até
nega a importância do sacerdócio na nossa vocação, mas
enfrentar diretamente esse fato, esse inegável dado
atual, para poder oferecer uma interpretação nova, construtiva,
positiva e autêntica dessa realidade mista. A capacidade
e a vontade de fazer isso é em si mesma, assim penso,
um autêntico gesto de minoridade.
Ser uma comunidade mista que evita estratégias de desvalorização
ou de segregação, ser uma comunidade mista que rejeita
a tolerância como aceitável modus vivendi, ser uma comunidade
mista que, em vez disso, se esforça para ser uma comunidade
de diálogo, de reconciliação, de nova evangelização
e de missão é, na minha opinião, uma comunidade disposta
não só a aceitar a minoridade, mas a aceitar uma minoridade
que é trinitária.
A tríplice fornalha de amor que nós chamamos Trindade,
é uma infinita repetição do outro, caracterizada por
uma torrente de dar e de receber que não tem fim, como
é celebrado magnificamente no grande canto do segundo
capítulo da Carta aos Filipenses. Deus, como três em
um, se revela como divindade na missão beatífica do
divino ‘si mesmo’. Mas esse dar e receber, essa divina
missão é caracterizada por uma eterna humildade, na
qual nenhuma pessoa divina é limitada no mútuo intercâmbio.
Pelo contrário, o intercâmbio mútuo entre o Pai e o
Filho é tão pleno que gera a Santidade no Espírito,
o Espírito Santo. Aqui está a origem divina do amor
“em e além.” Este é o divino ícone da minoridade no
qual não existe uma alienação em função de si mesmo,
mas somente um serviço de complementariedade. Não existe
algo de meio que seja excluído, não uma existência ou/ou
no eterno Deus, mas o que as nossas irmãs e os nossos
irmãos da Ásia ensinaram é ser uma relação Yin-Yang,
na qual, além da coexistência, cada um existe no outro.
Creio que o desafio da minoridade fundada na revelação
trinitária seja, para nós, a mesma: permenecer fraternalmente
e ecelsialmente uns nos outros.
Como podemos caminhar na direção dessa minoridade trinitária?
Como podemos modelar uma fraternidade não só mista no
fato mas com uma espiritualidade de complementariedade
ampla o suficiente para englobar os frades leigos e
os frades sacerdotes e a projetar-nos para além de nós
mesmos a serviço de uma Igreja que se debate por causa
da mesma mista identidade e a serviço de um mundo cheio
de hibridismo? Creio que para responder a estas perguntas
podemos tomar algumas indicações das nossas Constituições
que no capítulo II admoestam os formadores a fazer com
que "os frades em formação adquiram uma cultura
viva e coerente." Muitas vezes pensamos a cultura
em termos de etnicidade e de raça, mas a cultura, evidentemente,
é uma dinâmica bem mais ampla que tudo isso. Esse é
um fato reconhecido pelo IV CPO (Roma, 1981) que considerou
a formação em vista da grande diversidade que caracteriza
aqueles que entram na Ordem. O Conselho prossegue sublinhando
a importância da inculturação, isto é, “a integração
da experiência vivida pelo carisma franciscano-capuchinho
na cultura de um povo no seio do qual os frades vivem
e trabalham.” Isso, segundo o IV CPO, se obtém mediante
a participação, a abertura, a integração e a conversão.
Se esse processo de inculturação é de integração no
processo formativo no qual os frades e as comunidades
são chamados a “superar a tendência de criar um mundo
fechado para si mesmos e participam, em vez, das experiências
dos outros,” então creio que um primeiro passo rumo
à minoridade trinitária seja inculturar intencionalmente
os frades, desde o início, a serem menores biculturais,
que enfrentam explicitamente desde o início a realidade
da natureza mista da nossa comum vocação. Normalmente,
muitos dos nossos programas de formação inicial não
tratam da questão do sacerdócio até ao menos depois
do postulado e noviciado, se não até mais tarde. Parece-me
que, fazendo assim, nós perdemos a oportunidade de melhorar
a capacidade de um frade de aceitar a dualidade complementar
que é uma característica da vida capuchinha do século
XXI. Se a preocupação dos nossos programas de formação
inicial está só voltada àquelas coisas que temos em
comum como irmãos, então cada reflexão posterior sobre
o sacerdócio pode apresentar-se como uma intrusão desagradável,
que introduz distinções quando, em vez, antes, haviam
somente coisas em comum. Portanto, gostaria de propor
que se formem os frades, desde o início, como frades
que compreendem e aceitam a dualidade complementar de
profissão e de ordenação, característica da vida capuchinha
do século XXI.
Uma segunda chave para uma minoridade inspirada na Trindade
é a formação ao culto de todos os frades, que os forme
como menores pelo aspecto litúrgico. O II CPO (Taizé,
1973) desafiou-nos “a rezar como frades menores.” Esse
é um forte som de tromba que nos convida a rezar e a
viver a nossa oração de modo a evitar de dar toda e
qualquer impressão de superioridade por parte de um
frade sobre o outro. Manter esse espírito constitui
uma dificuldade e um empenho especiais no contexto da
liturgia oficial da Igreja, porque muitos estudiosos
atualmente pensam que algumas formas rituais na sua
essência sejam fundamentalmente um forma de poder. Presidir
a Eucaristia não é um direito mas um privilégio, e somente
um privilégio para o serviço. Como fonte e cume da vida
da Igreja, a liturgia – e especialmente a Eucaristia
– deve ser a síntese da posição minorítica dos frades.
Só então ela preencherá a visão do II CPO que vê a oração
– e especialmente a Eucaristia – como um ato de conversão.
Se isso não for fruto da Eucaristia e dos outros atos
de culto, o culto não só não vale nada como, de fato,
diminui os laços fraternos. Assim, as preferências pessoais
e as prerrogativas do frade ordenado não deveriam dominar
nenhum aspecto da ecologia litúrgica capuchinha. Ao
contrário, os frades ordenados devem entender e aceitar
no contexto litúrgico que são servidores especiais na
liturgia e o seu empenho é “o bem comum espiritual do
povo de Deus [e de todos os frades] antes que... a inclinação
pessoal ou uma opção arbitrária.” Esta é uma contribuição
especial que os frades ordenados podem dar a uma Igreja
onde, muitas vezes, muitos fiéis têm a experiência da
liturgia como causa de exclusão e de opressão.
Por fim, uma terceira chave para uma minoridade inspirada
trinitariamente é a de ampliar o círculo de colaboração
e de tomada de decisões de modo que, para parafrasear
o III CPO, nós decidamos não só “para” os outros, mas
“com” os outros. Certamente como frades leigos e frades
ordenados somos chamados a colaborar uns com os outros,
mas, às vezes, o clericalismo institucional que caracterizou
a nossa Ordem no passado ainda impede a colaboração
no presente. Promover a verdadeira colaboração não só
dos outros franciscanos, mas também das nossas irmãs
e dos nossos irmãos leigos creio que possa ajudar a
mudar tal dinâmica. Vejo que na minha família os irmãos
se comportam diferente quando uma das nossas irmãs está
presente. Elas têm uma forma especial de ensinar-nos
como sermos irmãos, mesmo que elas não o sejam. É uma
pena que nesta sala não haja irmãs e me pergunto o que
nos ensinariam sobre o ser irmãos o sobre o estar juntos
uns com os outros, qualquer que seja o nosso estado
eclesial. Muitas vezes as nossas irmãs leigas e os nossos
irmãos leigos não distinguem ou não podem distinguir
um frade ordenado de um frade leigo. Para eles somos
somente capuchinhos. O que poderia acontecer se esses
fossem sempre mais parte da nossa vida, não como “objeto”
da nossa missão e do nosso ministério, mas como co-agentes
na vida, ensinando-nos exatamente a sermos capuchinhos?
De que modo poderiam ajudar-nos a repensar a nossa complementariedade
se eles fossem seriamente convidados a esta complementariedade
em todos os níveis da Ordem?
Alguns sustentariam que a missão da Igreja é, antes
de tudo, desenvolvida pelos leigos que agem no Espírito
Santo e por sua própria iniciativa como cristãos batizados.
O III CPO sublinha a necessidade “de corresponsabilização
dos leigos, em todos os níveis, em nossa obra de evangelização.”
Qual é o seu papel numa imagem renovada da nova evangelização
para uma Igreja que se encontra diante da justaposição
de batismo e ordenação e às vezes está dividida? Como
podem ajudar-nos a refletir sobre o modo como rezamos,
como formamos os frades, como tomamos as decisões, como
vivemos juntos? O que podem nos ensinar sobre as possibilidades
da mutualidade quando como leigos e ordenados procuramos
modelar novas formas de viver juntos?
Um dos meus textos favoritos do IV CPO é o que estrutura
o princípio formativo da “participação.” O objetivo
desse princípio é “superar a tendência de criar um mundo
fechado para si mesmos e participar das experiências
dos outros.” O mesmo Conselho prossegue dizendo:
Ninguém pode amadurecer sozinho, todos
têm necessidade dos outros... essa abertura aos outros
e essa capacidade de participar é fonte de enriquecimento
espiritual e cultural, e também serve para superar a
contraposição exasperada que às vezes pode encontrar-se...
Em virtude desse princípio... deve ser favorecida a
fraternidade aberta... Essa abertura servirá de estímulo
para um aprofundamento e uma melhor realização dos valores
franciscanos comuns.
Creio que esta seja uma visão profética
que ainda deve encontrar a sua realização, mas penso
também que tenha chegado o seu tempo. Num mundo e numa
Igreja feridos pela violência, pela opressão e pelo
abuso, só através da colaboração, da mutualidade e da
vontade de viver juntos uns com os outros é que podemos,
todos juntos, quebrar o cículo de violência e tornar-nos
autênticos colaboradores do Reino de Deus.
Deus, que iniciou essa obra boa em nós, nos conceda
a graça de levá-la a cumprimento em Cristo Jesus, que
nós professamos Senhor e irmão, divino ícone da mutualidade,
aqui e em todo o lugar, para sempre. Amém.
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Minoridade,
Itinerância e Sistema |
Fidel Aizpurúa
Donazar |
“ELES NÃO PERTENCEM
AO SISTEMA, COMO EU NÃO PERTENÇO AO SISTEMA” (Jo 17,16)
Introdução:
Iniciamos nossa reflexão com a denúncia
profética do falecido franciscanólogo Lázaro Iriarte
que põe o dedo numa das chagas da história franciscana,
ainda sangrando: “A minoridade foi a parte que humanamente
menos agradou à Ordem da herança deixada por Francisco
de Assis, a primeira a ser esquecida, mesmo que fosse
fácil de entender e pouco exposta a complicações jurídicas...
Toda a complexa problemática desenvolvida a respeito
da pobreza na fraternidade depois da morte do fundador,
todas as lutas internas e as atitudes externas, bem
pouco evangélicas, resultaram do esforço impossível
por parte dos filhos de São Francisco de quererem ser
‘pobres’ sem ter a coragem de continuar sendo ‘menores’”
.
A intenção desta reflexão é de ajudar a suscitar “a
coragem de sermos menores”, uma coragem que não é só,
e nem sobretudo, pessoal senão que comunitária. Há uma
percepção generalizada de que os franciscanos(as) podemos
viver a minoridade em formas individualistas, enquanto
que participar de uma comunidade minorítica nos parece
quase impossível. Têm-se a impressão que as estruturas
comunitárias são um impedimento real para a construção
de um projeto minorítico de vida. Essas estruturas que
se tornam parte de uma rede de sistemas são o objeto
da nossa reflexão .
É realmente possível uma vida franciscana em minoridade?
A pergunta traz em si a necessidade de tratar de superar
a falsa convicção de falar, pretender, desejar, a minoridade
comunitária na evidência de que se vive, de fato, noutra
direção. A falsa convicção gera tensões insolúveis entre
a espiritualidade e o compromisso, entre o desejo e
a prática, entre a linguagem teológica e o comportamento
cotidiano, conduzindo a rupturas definitivas . Falar
de uma componente da nossa bagagem carismática deveria
incluir a decisão pessoal e comunitária de estar realmente
dispostos a caminhar no sentido da reflexão que se faz.
Caso contrário, é melhor deixar de lado.
Um segundo requisito prévio, sem o qual não valeria
a pena tentar continuar, é o de aceitar uma dose palpável
de risco. A mudança de um estilo de vida para outro
produz um forte sentimento de insegurança diante do
qual podem ser assumidas duas posturas: tratar de reforçar
as estruturas em que tínhamos sempre confiado e que
definiram nosso estilo de vida ou, ao contrário, construir
uma “sociedade de risco” que empurra a viver criativamente
com o risco e a incerteza . Terá que passar de uma comunidade
da ‘nostalgia’ a uma comunidade da possibilidade e do
novo .
Nossa reflexão se propõe, em primeiro lugar, a descrever
de forma sucinta e chocante o funcionamento de um sistema
e as formas de pertencer ao mesmo. Trataremos, ainda,
de colocar às claras as dificuldades e possibilidades
de querer viver não sistematicamente na evidente pertença
a uma rede de sistemas. Em terceiro lugar, procuraremos
propor um conjunto de elementos que possam conduzir
a uma alternativa sistêmica. Finalmente, sugeriremos
uma série de elementos reflexivos necessários para entrever
a possibilidade de um projeto de vida franciscano mais
alternativo, menos distante dos sistemas dominantes
e, por isso, mais profético.
Falamos cada vez menos de refundar a Vida Religiosa.
É uma idéia muito inovadora, quem sabe prematura, que
vamos abandonando porque percebemos como é difícil mover
nossas tendas. Intuímos que só é possível refundar relacionando-nos
com o caos e a confusão do nosso tempo, para chegar
assim a responder de uma forma nova às necessidades
da evolução dos nossos dias. Pois bem, ainda que o conceito
seja prematuro, a mensagem não pode ficar esquecida.
“Os religiosos e religiosas estamos às portas de um
mundo desconcertante e apaixonante. Pode ser que esse
não seja o tempo adequado para refundar. Nosso desafio
é acolher a obscuridade e a morte, as dores da gestação
e as diversas lutas por dar à luz a vida” . Os trabalhos
para construir um estilo de vida com mais densidade
minorítica são as dores do parto até que nasça, quem
dera, uma vida franciscana nova.
Nossa pretensão é, assim mesmo, minorítica: não queremos
mudar o sistema se não que, ao menos, o sistema não
mude a nós mesmos, não mate os ideais que Francisco
semeou no início dessa aventura. Esses ideais brotam,
o sabemos, do próprio Jesus: quando ele rezou para que
seus seguidores futuros não pertencessem ao mundo como
ele não pertencia ao mundo (Jo 17,16), na realidade
estava pedindo que não pertencêssemos ao sistema injusto
e desumano no qual, com freqüência, se tem configurado
o caminho histórico .
I. Sistemas e estruturas: incidência
na VR
A VR é uma realidade totalmente inserida
no contexto histórico. Mesmo que tenha como finalidade
espiritual fazer visível “o mistério do Reino de Deus
que já atua na história” , na realidade, é com o hoje
que deve confrontar-se e construir sua razão e seu sentido.
Como conseqüência, não pode ignorar a análise sobre
seus modos de inserção na história.
1. Um “mundo de ‘turbilhões’”
Nosso mundo pode ser entendido e definido
como “um mundo de ‘turbilhões’”. De alguma forma, é
preciso estar disposto, com todos os riscos que isso
significa, a entrar nesses ‘turbilhões’ . Vejamo-los
de modo sucinto:
• Um ‘turbilhão’ persistente em toda a história humana
e bem vivo hoje, é o do poder. Pensa-se que ter poder
sobre outros seja o modo mais eficaz de auto-afirmação
humana. Sempre foi assim. Porém hoje, o ‘turbilhão’
do poder está ativado pela informação. Na “era da informação”
quem tem informação tem poder. O mundo dos países e
das pessoas excluídas, além da exclusão econômica é
um mundo excluído também da informação. E isso porque
criar opinião é a maneira para controlar tudo, o mercado
e os sentimentos, a produção e os sonhos. O ‘turbilhão’
do poder segue mais vivo que nunca porque a sede de
ser o/a tal está muito distante de ser apagada.
• Outro ‘turbilhão’ que também vem de longe é o da necessidade
de sentido. Quanto mais avançam os anos da história
humana, tantas mais são as feridas universais que os
povos vão acumulando, o horizonte do sentido se obscurece
sempre mais. Não foi em vão que se definiu a pessoa
moderna como “o homem em busca de sentido” . Porque
quando a pessoa encontra um lugar no mundo que dá sentido
a cada um dos seus passos, o caminhar da vida se faz
mais leve e mais criativo. Na origem das grandes alienações
sociais costuma estar um obscurecimento do sentido,
um atordoamento que diz ser bom o que se vive sem discussão.
Muitos movimentos de massa atuais encontram aqui sua
explicação.
• Os melhores analistas do momento dizem que o estado-nação
está em crise e que quem tem cada vez mais as rédeas
do poder é o que chamam estado-rede, aludindo à Internet
como âmbito comercial e político do futuro. Se a isso
acrescentamos a atuação daquela “mão ‘sinistra’” que
organiza a economia a benefício das grandes multinacionais,
as grandes máfias que manipulam a bel prazer o futuro
econômico dos povos, poderemos intuir o fato que o estado-nação
é, a seu modo, um escravo a mais do poder. Daí se origina,
e a pessoa assim a percebe de alguma forma, uma perda
de identidade. Visto que não se pode dominar o indomável,
é pelo velho caminho da afirmação dos nacionalismos
que não poucas pessoas e povos tratam de encontrar sua
identidade. Nesse ‘turbilhão’ paradoxal se encontra
imersa a realidade social de hoje.
• A crise do modelo patriarcal é um grande ‘turbilhão’
porque toca vivamente as opções sobre as quais se tem
assentado tradicionalmente a estrutura da pessoa. Esse
modelo não foi capaz de resistir à revolução sexual,
à incorporação da mulher ao trabalho assalariado ou
aos diferentes movimentos de emancipação feministas
e de liberação sexual. Por isso as relações de gênero
e as relações entre gerações estão adotando formas novas
que se distanciam do modelo patriarcal dominante até
agora.
• O ‘turbilhão’ das migrações que colocou em questão
algo ainda tão sagrado para humanos como o conceito
de fronteira. O estado-rede admite a migração porque
estabelece sua fronteira não em elementos geográficos
mas principalmente em elementos econômicos. Por isso,
enquanto as fronteiras se debilitam e as migrações se
universalizam, há alguém que segue controlando o caminhar
dos humanos.
2. Liberdade, sistemas e estruturas
É nesse marco factual do mundo de
hoje que temos que inserir a reflexão a respeito do
sistema e das estruturas que tanto incidem na organização
e vivência da VR :
a) Liberdade: É a força criativa que define os humanos
na sua identidade mais profunda, dinamizando seu ideal
de ser e realizar-se. Essa força se veicula na comunicação
(comunhão), verbal e existencial, e inclui toda a pessoa,
toda a realidade, sobretudo as mais débeis, mediante
a gratuidade.
b) Sistema: É o conjunto de relações de produção e de
consumo social que podem ser programadas de um modo
racional, englobando indivíduos e povos.
c) Estruturas: São estruturas estáveis de comunicação
que tornam possível a liberdade das pessoas, mesmo que
pertençam ao sistema e tendam a servi-lo.
É necessário retomar essas definições por um lado reflexivo:
• Não há dúvida que, seguindo a grande tradição evangélica
, os compromissos do(a) seguidor(a) de Jesus tenham
que ser compromissos para a liberdade. Crê-se na medida
em que se libera. A VR deve ser sempre interpelada pela
liberdade, pela fraternidade, pelo ideal de fazer da
história um lar para uma só família.
• A certeza partilhada por grandes setores da humanidade
é que “no nosso tempo surgiu um sistema unitário que
engloba, em linha econômico-social, todos os seres humanos,
numa perspectiva neoliberal, capitalista” que força
à exclusão de quem não entra nos seus parâmetros, porque
não quer ou porque é impedido ou não pode. Isso nos
leva, sem dúvida, a uma negativação do sistema. Para
nós o sistema histórico, o que existe, não o ideal,
é negativo, é a “couraça de ferro” da qual falava Max
Weber . Dever-se-á pensar nisso quando se quiser tentar
construir uma alternativa francisca-na .
• Também as estruturas, enquanto relacionadas (e bem
relacionadas) com o sistema, são entendidas como negativadas.
“Uma instituição (estrutura) sem liberdade acaba por
tornar-se sistema impessoal (negativo)” .
3. Dialética sistêmica
Esta negativação do sistema e das
estruturas que o servem foi sempre percebida na história.
Por isso, existiram grupos que, com freqüência, viveram
sua relação com o sistema em formas dialéticas, proféticas.
Colocamos quatro exemplos:
• A vida “adéspotos” dos epicureus: Aristóteles é o
grande teórico da polis, e portanto do sistema: “Quem
não pode viver em sociedade e não tem necessidade de
nada por sua própria suficiência, não é membro da comunidade,
mas um animal ou um deus” . Mais tarde o epicurismo
elaborou a teoria da “adespotía”: “(Ante a opressão
do sistema) era necessário buscar em si mesmo uma liberdade
interior que libertasse os homens: a vida ‘adéspotos’,
sem patrão. Nessa palavra centraliza-se uma das idéias
típicas da nova sabedoria” . Isto é, por causa da pertença
a um sistema, não se pode renunciar ao sistema de valores,
de predisposições e de conteúdos que respiram dentro
da pessoa.
• O monacato antigo: É um exemplo decisivo e fundante
dentro da história da Igreja. Fugindo das cidades e
da convivência social, procuraram desenraizar-se do
sistema (econômico, político, legal, administrativo,
social e até familiar) dominante de seu tempo para oferecer
um modelo alternativo de ser. Procuraram construir o
que chamavam “a cidade dos seres humanos” , o sistema
alternativo, inclusivo, fraterno.
• A fraternidade franciscana: Ainda que Francisco não
tenha elaborado uma espiritualidade anti-sistema, se
tinha algo claro era que aquilo que ele queria viver
era algo distinto não somente do comportamento social
do capitalismo nascente mas do próprio sistema eclesial
e também afetivo.
• O movimento social alternativo atual: A corrente social
amplamente difundida no mundo em fóruns como os de Porto
Alegre, Seattle, Gênova, Barcelona, Paris, etc., é uma
linguagem eloqüente – dificultada unicamente por quem
está instalado no sistema dominante – de muitas pessoas
que vivem dialeticamente sua relação com esse sistema
na convicção de que um outro mundo é possível.
A simples enumeração desses exemplos indica que a relação
dialética com os sistemas dominantes esteve sempre presente.
Colocar-se, em questão de pensamento e de prática, em
modos alternativos não é um ‘impossível’ que se possa
eliminar a priori. Ao contrário, a história ensina que
esses movimentos alternativos têm sido, sem dúvida,
as autênticas parteiras dos caminhos novos de vida.
4. Vida Religiosa e Sistemas
Colocando tudo junto para poder situar
a reflexão, nos fazemos uma pergunta de tipo geral:
Qual foi a atitude da VR em relação ao sistema dominante,
às estruturas sistêmicas (Igreja) e suas próprias estruturas
legislativas? Fundamentalmente não foi uma relação dialética,
mas acomodatícia:
• A VR colaborou em modos decisivos para o fortalecimento
do sistema dominante. E o fez em nome da sua idéia de
sociedade (monárquica), da sua visão da estratificação
social ou da cultura. Diz J.M.Castillo: “Não é lógico,
mas estritamente contraditório, que os religiosos, que
condenam o capitalismo neoliberal, enquanto fazem isso
tenham boas universidades nas quais formam os gestores
mais cotados e mais procurados pelas grandes empresas
financeiras e pelos bancos que obtêm os maiores lucros.
E se os bancos e as empresas buscam e pagam bem os jovens
educados pelos religiosos, é porque se sabe que, nessas
universidades, os ‘profissionais da pobreza’ são excelentes
educadores dos ‘gestores da riqueza’. Nunca entendi
isso. Nem poderei entender, por mais que tentem explicarmo-lo”
. Recebeu do sistema imperante muitos benefícios econômicos
e de estima social. Mas o sistema não é gratuito e,
por isso, a conta que se pagou e se continua pagando
é muito alta.
• A VR, globalmente falando, nos seus aspectos mais
organizativos jogou-se nos braços da instituição eclesial.
Não obstante a sua função na Igreja fosse a de ser profecia,
de ser consciência evangélica, por razões de índole
estrutural e supostamente evangélica, a VR acreditou
que uma de suas principais tarefas deveria ser colaborar
com a estrutura eclesiástica tal como se apresentava
naquele momento histórico. J.B.Metz perguntava-se há
alguns anos, e as suas perguntas ainda nos sacodem:
“Onde se manifesta hoje, propriamente falando, a tensão,
necessária e fecunda segundo a minha opinião, o antagonismo
vital entre as ordens e a grande Igreja? Onde estão
hoje as tensões que caracterizaram as origens de quase
todas as ordens, dos franciscanos aos jesuítas, para
mencionar só uns exemplos? Desde a sua fundação, essas
ordens não se situaram demasiado naquele ‘centro’ em
que tudo se equilibra e se modera, não se acomodaram,
de certa maneira, à grande Igreja e não se deixaram
cercar por ela? E não se deixaram arrastar, de forma
massiva, precisamente por isso, no clima de crise eclesial
generalizada, não se deixaram inserir sob uma tampa
de ar contaminado, daquele ar cinzento que projeta sua
sombra sobre nossa vida eclesial atual e que precisamente
os homens e as mulheres das ordens religiosas poderiam
e deveriam iluminar? Onde está hoje aquela capacidade
de choque intereclesiástico das ordens? Onde exercem
com paixão, no que lhes diz respeito, a crítica profética
dentro da Igreja que não só lhes é permitida em razão
de sua própria existência de seguimento, mas que até
se exige delas, mesmo que aos profetas sempre seja difícil
aceitar e desempenhar seu cargo?” . Seria bom não ficarmos
perturbados nem rechaçar a água fria desse banho, porque
pode ser um banho de purificação e de vigor.
• As próprias estruturas legais da VR procuraram sempre
o amparo da grande legalidade eclesial emanada do Direito.
Assim, chegou-se a verificar com freqüência, mesmo que
as nossas palavras procurem desmenti-lo, que as nossas
instituições canônicas se sobrepõe às instituições evangélicas.
Desse ponto de vista, não poucas iniciativas de minoridade
chocam-se contra um muro insuperável e se esgotam. Talvez
o conceito de limite (de limen, umbral, fronteira) usado
por certos tratadistas da VR possa ser-nos útil aqui
: “Liminaridade é uma tendência inconsciente na direção
da totalidade, da plenitude, da conexão palpável com
o Mistério Originante que afeta as nossas vidas, sejamos
ou não conscientes dele. É uma inclinação interna do
espírito humano que desafia qualquer explicação lógica
ou racional… É necessário recordar mais uma vez que
a tarefa do grupo liminar é a mediação dos valores universalmente
compartilhados. Parece que os valores permanecem essencialmente
os mesmos, porém a sua mediação e aplicação exigem novas
expressões em cada um dos momentos históricos e culturais…
Atualmente a zona liminar está densamente povoada, muitas
vezes por pessoas que se sentem confusas, perdidas e
sós. As respostas dadas pelos gurus de ontem não iluminam
nem dão segurança. É necessária uma nova sabedoria para
o nosso tempo. Ninguém está melhor equipado para fornecê-la
do que os que vivem completamente no espaço liminar”
. A liminaridade pode ser uma outra alternativa à minoridade
ou, ao menos, uma base ideológica nova para gerar uma
reflexão sobre a mesma .
5. “Endurecer a fronte”
“Eu farei que sua cabeça seja dura
como diamante”, diz o Senhor ao profeta Ezequiel para
animá-lo a assumir a sua tarefa profética . Diante desse
tipo de declaração, a angústia e o desencanto não deveriam
tomar conta de nós, mas sim a coragem e a força para
enfrentar os questionamentos que hoje se propõe à comunidade
fraterna. Deveríamos ter a coragem e a capacidade de
propor-nos os grandes questionamentos: Que tipo de estrutura
queremos realmente construir? Como elaborar a nossa
pertença sistêmica? Quais os profundos e reais desejos
operam hoje nos nossos coletivos religiosos? A comunicação
fraterna constitui um ótimo canal para perceber possíveis
horizontes: “A palavra não é uma instituição junto às
outras, mas a base e a possibilidade de todas. Não existe
palavra sem mediações lingüísticas (idiomas) e históricas
(processos comunicativos), porém eles podem pervertê-la,
fazendo-se opressão inter-humana. É esse o risco e o
valor da comunicação” . Assumamos esse risco para aproveitar
o valor.
2. No sistema sem ser do sistema
Já acenamos que, a nosso ver , Francisco
de Assis viveu no âmbito de um marco sistêmico sem ser
do sistema, sem entrar no jogo do sistema, propondo
um caminho novo em modos não deliberadamente dialéticos
mas certamente alternativos. Depois de ter descrito
os mecanismos do sistema e sua incidência sobre a VR,
permitam-nos voltar ao irmão de Assis.
1. Uma série de intenções
A intenção de Francisco de viver sem
fazer parte do mecanismo do sistema não é, evidentemente,
a única. Coloca-se numa longa lista que, no campo cristão,
começa com o próprio Jesus de Nazaré . Destaquemos três
pedras miliárias:
• É tese comum entre os franciscanos que o primitivo
grupo de frades quis reproduzir o modo de vida dos apóstolos
. Refere-se ao estilo de vida, ideal e topicamente dado
em trechos como o de At 4,32-35, que inspirou e continua
inspirando a vida de não poucas comunidades cristãs.
O cristianismo primitivo, como o demonstram as cartas
chamadas “católicas” , nadando em um mar de paganismo
e partindo de uma experiência forte de minoria religiosa,
teve que elaborar mecanismos de vida comunitária que
o confirmassem nas suas próprias opções. Até quando
se manteve nessa postura de viver dentro do sistema
sem ser do sistema? Talvez até quando o próprio Paulo
intuiu que oferecer a fé “à família” poderia dar-lhe
garantia de continuidade? Foi esse passo o começo da
pertença do cristão ao sistema dominante? Nunca saberemos.
Aquilo, porém, que é certo é que a “vida apostólica”,
como estilo de vida não dependente do sistema, inspirou
ainda o caminho de muitos cristãos.
• Sempre foi dito que a primeira grande pedra miliar
da história cristã na qual se quis reproduzir a vida
dos apóstolos foi o antigo monacato . Porém, na verdade
não foi bem assim: parece que o grande número de monges
e eremitas surgidos entre os séculos III-V, tiveram
como ideal ser cidadãos novos da “cidade dos seres humanos”,
construir um projeto social humanizador inspirado na
espiritualidade cristã . Vale dizer, a sua fuga mundi
é o rosto da sua resposta interior a um sistema social
e político que não se aceita, a estilos de vida estruturada
que, segundo eles, não são verdadeiros . Neste sentido,
também se a explicitação posterior vier a ser a que
alude à vida dos apóstolos, o certo é que o monacato
antigo é uma resposta ao sistema em formas de extremo
distanciamento e desconexão.
• É provável que essa maneira de pensar influenciasse
sobre Francisco de Assis através dos movimentos leigos
populares da idade média. Porém, provavelmente não encontraremos
nem em Francisco nem na primitiva comunidade um pensamento
elaborado a esse respeito. O tema veterofranciscano
clássico da “saída do século” , por mais que os próprios
autores da época o interpretem com o paradigma do abandono
do mundo, é mais a opção decidida de não comungar com
os mecanismos sociais que, no sentir de Francisco, se
chocam com sua opção evangélica. Não é tanto uma fuga
quanto um questionamento prático. A novidade de Francisco
(e de muitos outros grupos no curso da história) é pretender
viver essa opção sem sair do mundo e, no caso de Francisco,
fazê-lo não em modos dialéticos mas fraternos. Vista
a institucionalização posterior da Ordem, era a tentativa
dele destinada ao fracasso?
2. Estratégias
A vontade de Francisco, o seu desejo
de viver no sistema em modos não sistêmicos, baseou-se
sobre uma serie de estratégias conhecidas de todos:
• No aspecto da economia: recusa de todo título de propriedade
imobiliária e também mobiliária, na convicção de que
o fato de não ter habitação própria fosse uma forma
de vida factível para a sua comunidade, como o era o
caso dos deserdados ou dos que pagavam aluguel ; recusa
absoluta do dinheiro de modo exagerado, a indicar a
enorme prevenção contra os perigos que derivam do seu
uso (acumulação, ostentação, poder) ; grande prevenção
contra a cultura entendida como instância de superioridade
e de poder ; prevenção contra uma atividade mercantil
que exigisse investimentos por causa da propriedade
. De fato, a questão parece não estar se Francisco permitia
casas ou não, livros ou não, dinheiro ou não, trabalhos
especializados ou não. A originalidade está em procurar
viver em modos não sistêmicos as realidades sobre as
quais se apóia o sistema. Como não sabia elaborar uma
alternativa mais precisa (talvez na época não era possível)
formula uma visão diferente nos moldes comuns da proibição.
• No aspecto da honra social: A proibição de recorrer
à Cúria em busca de documentos que garantissem a sua
identidade e a conseqüente aprovação social é entendida
como o desejo de oferecer outra possibilidade de inserção
no fato social ; a não aceitação de cargos ou de funções
administrativas não indica somente um distanciamento
do perigo que comporta o manejo do dinheiro, mas significa
também dizer em qual nível social alguém quer situar-se,
fora dos mecanismos de promoção e de posição ; a componente
não clerical do início, além das discussões históricas
nas quais enredou a primeira comunidade, quer situar
a opção franciscana nesse terreno não facilmente compreensível
por uma estrutura eclesial à qual o clericalismo resulta
co-natural ; os modos peculiares de evangelizar (tanto
com o exemplo como “não contra dos clérigos”), querem
desenhar um modo de oferta que se situa mais na benignidade
e na cumplicidade do coração que na autoridade de quem
pode ensinar ; a resistência à formulação jurídica da
Regra, como o demonstra o tortuoso processo que culmina
com a regra bulada, indica a prevenção de jogar-se nos
braços da consagração jurídica de um estilo de vida
que era chamado à alternativa .
3. Conseguiu-o?
Esta pode ser a pergunta de quem ler
o fato primitivo franciscano desde um ponto de vista
alternativo ao sistema. Provavelmente a resposta exata
não é nem sim nem não. A intenção em si mesma é já um
valor, como o valor da profecia, mesmo se ainda se deva
cumprir. A verdade das utopias não está tanto no seu
cumprimento quanto na sua capacidade de suscitar, de
sugerir, de interpelar. Nesse sentido, a sobrevivência
dos questionamentos, concretamente da minoridade, é,
sem dúvida, uma herança da profecia franciscana que
nos atinge até hoje. O preço pagado, de dura exclusão
, tem sentido quando um grande número de frades franciscanos/irmãs
franciscanas de hoje ainda acolhem com coragem o desafio,
antisistêmico e ao mesmo tempo fraterno, de Francisco.
3. A itinerância como corretivo do sistema
Todos sabem que os sistemas requerem
estabilidade. As situações instáveis, sobretudo no campo
político, derivam da instabilidade dos mercados de valores
e, por conseguinte, dos investimentos. O sistema, sobretudo
o dinheiro, quer estabilidade. Por isso a itinerância
é um corretivo ao sistema, um ‘canhonaço’ na sua linha
de flutuação.
1. Dinamismos da itinerância
A itinerância não brota por geração
espontânea na espiritualidade cristã e franciscana.
Operam nela uma série de dinamismos que a tornam possível:
• O conceito da criação como casa comum: Desde as antigas
experiências religiosas , passando pelo AT , a fé cristã
acreditou que o mundo era uma casa comum para toda a
criação. Assim o viu Francisco, tanto por razões de
origem como de destino . Entender a pertença à criação
como a uma casa à qual se é destinado, gera um novo
tipo de relações sem limite de abertura ao outro.
• A compreensão da humanidade como uma família: O sistema
continua a servir-se do conceito sócio-econômico de
“caverna”, de tribo, de núcleo restrito, de clube privado
. Porém, não é tanto um setor da criação que sobrevive
porque se impõe às outras espécies e à realidade social
adversa , mas pela certeza, muitas vezes obscurecida,
de possuir o mesmo código genético. Francisco experimentou
misticamente essa consangüinidade. Todos convivemos
na mesma casa e, por isso, todos somos irmãos e irmãs,
nos amamos e nunca é justificada a violência entre familiares
.
• O olhar do coração: A itinerância se bloqueia quando
se olha a realidade histórica desde uma perspectiva
de luta social devida aos interesses de uns contra os
outros. Essa é a maneira própria de olhar do sistema.
Ao contrário, uma leitura da realidade que parte do
coração abre as portas ao “transitivo”, tornando possível
que os caminhos humanos se cruzem e se alarguem. As
biografias franciscanas primitivas dizem que Francisco
tinha um olhar simples, assim como seus irmãos . Quem
sabe fosse porque o próprio Francisco, como dizem as
Considerações sobre os sagrados estigmas, 3, foi olhado
“amorosamente” por Jesus. Esse dinamismo do olhar interior
possibilita a transitoriedade sobre a qual se baseia
qualquer itinerância.
• A relativização do conceito de fronteira: O sistema
se apóia no conceito de fronteira. Na realidade, os
avanços dos últimos tempos procurando tornar mais flexível
o conceito de fronteira, foram movidos sobretudo por
interesses econômicos (UE), ou então sentiram a falta
de apoio dos países mais sistêmicos aos quais não interessa
tal permeabilidade . A itinerância perfura a grossa
parede da fronteira para entender o mundo como o único
âmbito on-de, antes de tudo, deve reinar a justiça e
o direito. As peregrinações de Francisco e seus primeiros
frades à Terra Santa, quem sabe a Santiago de Compostela,
não devem ser vistos simplesmente como práticas religiosas
da época, mas como comportamentos próprios de quem considerava
a vida dentro do grande quadro da relação entre países.
2. Itinerância versus sistema
O estilo de vida franciscano pode
ser entendido como um fraterno confrontar-se com o sistema.
A itinerância seria uma maneira de encarar esse confronto.
Destacamos algumas matizes:
• O modo itinerante dos primeiros frades: Parece que
a estrutura conventual, de investidura, não esteve presente
nos primeiros passos da família franciscana, mesmo que
não tenha tardado a chegar . O Testamento o recorda
com força . Não convém menosprezar as intuições carismáticas
mais básicas do Francisco que vive o Evangelho sem coações,
em total liberdade, com estruturas quase inexistentes.
Além das nuanças que se podem fazer a esta postura inicial,
o que não se pode negar é que a itinerância foi uma
opção natural e deliberada frente às formas religiosas
de vida estável bem conhecidas pelo próprio Francisco.
O sistema impôs logo sua lei e indicou para a estabilidade
do convento, mesmo que tenha sido em modos menos estáveis
do que em outras ordens .
• A missão franciscana na itinerância: Assim foi entendida
e vivida no princípio. O prazer daquela liberdade é
recordado também no Testamento . Certamente podem ter
havido abusos, porém o sistema se encarregou bem de
combatê-los . Com essa repressão rompeu-se um modelo
de missão de cunho não sistêmico, de oferta, de exortação,
que poderia ter iniciado uma forma de evangelizar de
alto componente ecumênico .
• A obediência franciscana como itinerância: O sistema
exige obediência cega àquela “mão sinistra” que dirige
os destinos sociais e econômicos e que esconde as ações
dos poderosos. Francisco entende a obediência num modo
diverso: não é algo exigido por razões organizativas,
mas uma forma de garantir – passe a expressão – a liberdade
de Deus e a das próprias pessoas. A obediência é a liberdade
de pertencer, a liberdade de entrar no caminho evangélico.
Por isso “aquele que, na fé, se lança na obediência
da liberdade a fim de que Deus possa agir com liberdade,
faz com que se liberem outras energias que por si não
estão à disposição do homem” . Essas “outras energias”
são as que podem configurar um sistema de vida distinto,
fraterno.
• Uma nova cidadania: Já dissemos que o sistema negativizado
se articula sobre a velha dialética dominador-dominado.
O Evangelho, e o franciscanismo enquanto evangélico,
postula uma nova cidadania que faz do vasto mundo e
da família humana sua verdadeira casa. A pitoresca cena
dos Fioretti 11, na qual Francisco faz girar Frei Masseo
para saber qual caminho seguir mostra um perfil utópico
do franciscano: alguém que dá mil voltas diante do mundo
na certeza de que, caia onde caia a sorte, estará em
casa. Diz D. Flood que os frades “fugiram de uma estabilidade
que supusesse uma inscrição num estado social, que era
o que a política comunal queria deles, uma vez que,
como religiosos exemplares, tinham começado a demonstrar
sua capacidade (1Rg 17,10-13). Se tivessem investido
muito numa residência, qualquer tivesse sido a justificação
de tal investimento, logo teriam começado a fazer parte
do quadro social” . Essa renúncia à pertença sistêmica
é a que pode dar à luz a nova cidadania.
3. Trabalhos para a recuperação da
itinerância no interior da fraternidade
O milagre de uma vida franciscana
itinerante não brotará sem um cultivo muito explícito
da itinerância no âmbito interno das nossas estruturas
de vida. Nesse sentido permanecem não resolvidas tarefas
como a de superar a “mosteirização” do nosso estilo
de vida que nos acompanha há vários séculos; a internacionalização
da família franciscana, superando os limites férreos
das demarcações provinciais e também locais; a rotação
de cargos como símbolo de uma fraternidade efetiva,
além da rigidez da norma canônica; a incorporação real
do fenômeno das migrações atuais como forma concreta
de inserir-se na itinerância.
Para Francisco o texto de 1Pd 2,11 (“como peregrinos
e forasteiros”) era um texto muito querido . Segundo
a exegese atual, a pátria à qual alude 1Pd é a comunidade
. É da comunidade que a itinerância recebe a força para
crer nela, a coragem para não decair. Sem o apoio comunitário,
a itinerância desaparece e aparece a estabilidade sistêmica.
Talvez por isso, o nosso vigor comunitário poderia ser
medido pelo vigor de nossa vida itinerante.
4. Impostações referenciais
Se percebemos a dialética sistema/alternativa,
deveríamos elaborar algumas impostações referenciais
tratando o tema da minoridade:
1. O questionamento do indiscutível
Manipular conceitos, valores e experiências
“consagradas” pode produzir a reação de renunciar a
questionar o inquestionável. Sem embargo, discutir o
indiscutível é algo que pertence à essência da profecia
e do seguimento de Jesus: “O discipulado cristão consiste
em viver neste mundo do modo como Cristo viveu no seu:
tocando os leprosos, tirando asnos do poço em dia de
sábado, questionando o inquestionável e colocando-se
em relação com mulheres” . Quem compreende bem a orientação
evangélica deveria ter a coragem e o vigor de questionar
o que é considerado indiscutível por parte do sistema.
Desde essa perspectiva, nenhuma realidade pode se eximir
da análise e do discernimento. A componente hierárquica
da fraternidade, dos seus modos sistêmicos de viver
socialmente, do seu estilo de conexão e colaboração
com o sistema eclesial, de sua dependência de modos
de vida econômicos que supõe grande servidão, etc.,
essas deveriam ser as coisas indiscutíveis a discernir
se são assim ou não. Na capacidade de questionamento
verifica-se o desejo real de mudança.
2. Frente ao pensamento único
Mesmo se provém do campo econômico,
a ideologia do pensamento único se aplica a toda a realidade
humana, social e também eclesial. “É a ideologia que
pregou o fim das ideologias. É a ideologia dominante
que se apresenta a si mesma como natural; como tal,
aspira a ser única e se propõe como indiscutível e como
contexto no qual não podem participar senão os especialistas”
. Essa maneira de entender a realidade deveria encontrar
sempre de frente a alternativa, a pluralidade, a minoridade.
Pretender entender as coisas de uma só forma é reduzi-las
e aniquilá-las. Quem percebe a novidade da minoridade
desenvolve o que é politicamente correto e inicia caminhos
de vida que abrem outros caminhos que não cedem ao primeiro
impulso da norma consagrada pelo sistema. Quem faz isso,
entende, maravilhado, que os caminhos possíveis são
múltiplos, e que o pensamento único, ao apresentar-se
como único, pretende um engano.
3. Re-impostação do tema da honra
social
“Quando os Evangelhos nos explicam
o aspecto central da mensagem de Jesus, põem duas condições
para compreender e viver o centro do Evangelho. Somente
duas condições. A que se refere ao dinheiro e a que
se refere à honra” . As instituições religiosas têm
tido necessidade da honra social para terem um lugar
relevante numa sociedade de componente religiosa. A
honra, freqüentemente, influenciou um grau social elevado,
com intervenção direta no âmbito de decisão pública.
Se se quiser entender a alternativa da minoridade, é
preciso re-impostar o tema da honra rebaixando-o, sabendo
que, como Jesus foi um “sem honra” , assim deve ser
seu seguidor, convencido que é possível manter a dignidade
e o prazer pela vida mesmo sem estar no círculo da honra
.
4. Consciência dentro do sistema
Os teólogos atribuem à VR a finalidade de ser consciência
e força de choque dentro do sistema eclesial e também
social . Se se perde essa função profética, a VR perde
sua finalidade primordial e seu horizonte natural. Nesse
caso, a minoridade impulsiona decididamente a uma recuperação
dessa função de choque, do trabalho impagável de oferecer
contínuas alternativas a uma série de sistemas que,
pela sua própria dinâmica, se imobilizam e se tornam
habituais, em resumo, se desumanizam. As conseqüências
de uma e de outra atitude para o porvir da Igreja, das
ordens religiosas e também da própria sociedade, são
transcendentais . Se um CPO não fosse elemento de choque
nem para os próprios capuchinhos, como poderia sê-lo
para a grande Igreja e, em grau menor, para a sociedade?
5. O deslocamento para a margem
Por mais duro que possa parecer, a
minoridade leva a corrigir a perspectiva do grupo fraterno.
A perspectiva, mais interessante que o próprio resultado,
indica o horizonte ao qual tende, o desejo que move
a interioridade, o sonho que se acaricia. A perspectiva
desvela a orientação e o futuro. Por isso é tão decisiva.
Quem compreende a minoridade poderia ver que a liminaridade,
a possibilidade de uma vida à margem, em conexão com
a realidade da margem e com os da margem, é uma perspectiva
possível para uma ordem minorítica . Enquanto a margem
(social, eclesial, afetiva, econômica, etc.) nos é estranha,
falar da minoridade será pouco mais que um hobby espiritual.
Por isso, o autêntico interrogativo para a minoridade
não vem da espiritualidade mas da margem social, daquelas
pessoas e entidades que estão, por necessidade ou por
opção, às margens da vida.
6. Contra o sistema, comunhão
A pessoa de mentalidade sistêmica
argumenta dizendo que não se pode viver sem sistemas.
Por que não fazer utopia de um “sistema de comunhão”?
Não diz o Evangelho, “entre vocês não deverá ser assim”
(Lc 22,26)? A possibilidade de sobreviver como grupo
reforçando os mecanismos da comunhão existe. Se ao sistema
se opõe a dissolução, o individualismo, a ruptura, evidentemente
o fracasso espera à porta. Mas, e se se lhes opusesse
uma comunhão cultivada, reforçada, atualizada, com conteúdos?
Não seria ela própria o núcleo de uma vida significativa-minorítica?
“Ela, enquanto igreja, não pode ter títulos de propriedade,
nem firmar contratos, nem estabelecer leis de sistema,
mas somente abrir encontros de comunhão em gratuidade,
onde tudo se perdoa e se compartilha no amor” . Recriar
a comunhão cada dia é a melhor maneira de encarar a
realidade sistêmica que desumaniza. É ai que a fraternidade
deveria mostrar o seu rosto mais autêntico.
7. Em colaboração com movimentos não sistêmicos
Talvez seja preciso, dado que nossas
forças proféticas como instituição não são excessivas,
tratar de conectar-nos com instituições civis de cunho
não sistêmico, às quais, com generosidade, se poderia
prestar fraterno apoio. ONGs como Greenpeace, Anistia
Internacional, ou outras, podem, em um dado momento,
ser canais adequados para dar escape ao nosso desejo
de modos de vida alternativo-minoríticos. Talvez possa
ter chegado a hora de olhar a realidade social como
um lugar adequado para nosso próprio carisma, e de modo
algum como inimigo à porta.
8. Um convite à vontade e ao sinal
Esta deveria ser a conclusão desta
seção. A vontade, por sua conexão com o coração, é o
sujeito a quem se dirige esse tipo de reflexão. Se a
vontade se mantiver insensível, impermeável, rodeada
de mil defesas, se não houver uma abertura profunda
a novas impostações por impossíveis que pareçam hoje,
todo esse discurso não encontrará enraizamento histórico.
Ainda mais, terá que se apelar à linguagem do sinal
como linguagem de verdade e de futuro. Porque o sinal
não muda o sistema, porém fala de outra possibilidade,
de um tempo em que as coisas poderiam ser de outra maneira
se se tomasse uma determinada orientação. Por isso,
o sistema teme o sinal. E, portanto, o sinal é, hoje
por hoje, e em muitos casos, nossa única pátria possível.
Bem o diz E. Galeano: “São coisas pequenas. Não acabam
com a pobreza, não nos arrancam do sub-desenvolvimento,
não socializam os meios de produção e de intercâmbio,
não expropriam as cavernas de Ali Babá. Todavia, talvez
possam desencadear a alegria de fazer, e traduzi-la
em ação. E, enfim, atuar sobre a realidade e mudá-la,
mesmo que se trate de um pouquinho, é a única maneira
de provar que a realidade é transformável” .
5. Nos caminhos da minoridade
Mesmo arriscando não ser bem interpretado
e dado o componente prático com o qual, em linha com
o VI CPO, quer ser enfocado este VII CPO, me permito
enumerar alguns caminhos de minoridade que, talvez,
poderiam ser tomados em consideração neste Conselho
Plenário:
• A superação de preconceitos: Se os
preconceitos de sempre, ideológicos, morais, religiosos,
influem sobre nossas decisões, nunca poderemos dar um
passo adiante. É preciso tratar o tema da minoridade
desde uma novidade ideológica, não partindo das posições
de sempre, porque, nesse caso, o resultado será o de
sempre .
• Pedido para que não sejam mais nomeados bispos capuchinhos:
Seguindo a 2C 148 em que Francisco pediu ao Bispo de
Óstia que “se quereis que os franciscanos produzam fruto
na Igreja de Deus, conservai-os no estado de sua vocação.
Reduzi-os aos graus inferiores mesmo contrariando suas
vontades”, talvez se deveria refletir sobre a força
de sinal e de catequese sobre a minoridade para a Ordem
que suporia a renúncia ao episcopado como decisão capuchinha,
fazendo ver que a nossa contribuição à Igreja quer ser
a profecia de periferia.
• Os santos nos fazem perder a minoridade?: Já havia
advertido Francisco na Admoestação 6,3 que “é uma grande
vergonha para nós outros servos de Deus, terem os santos
praticado tais obras, e nós querermos receber honra
e glória somente por contar e pregar o que eles fizeram”.
Nessa dinâmica podemos considerar-nos também nós nesta
nossa época, midiática e globalizante, na qual as canonizações
são tratadas de modo que se tornam causa de afastamento
da minoridade. Não seria interessante exercer aqui a
nossa capacidade de discernimento?
• O “escândalo” dos três grupos de frades menores: Não
há dúvida de que, por um lado, a realidade historicamente
diferenciada de três grupos de frades menores supôs
uma riqueza para a vida da Igreja e do franciscanismo.
Porém, muitos frades a viram e a vêem como um “escândalo”
numa Ordem que tem a fraternidade como ponto central
de seu carisma. Se nós não somos capazes de recuperar
a fraternidade única e perdida, como vamos poder falar
ao mundo de hoje, tão dividido, da única irmandade?
Existem frades capuchinhos que vêem isso como um empenho
de minoridade, ao menos no que se refere ao nome .Poderia
ser incluído nos conteúdos.
• As casas com mais de cem anos: Algumas das nossas
casas na velha Europa têm mais de cem anos, vários centenários
até. Esse tipo de casas determinam a ideologia e a prática
de um estilo de vida que, por contexto histórico, não
se adéqua bem à nova espiritualidade da minoridade.
Não seria bom pensar esta realidade?
• Os santuários e a sua dinâmica: Algumas comunidades
capuchinhas específicas estão inseridas em santuários
marianos ou de outra índole. Mesmo reconhecendo o grande
trabalho ministerial que, com freqüência, se desenvolve
em tais lugares, talvez se deveriam perceber também
as numerosas servidões que esse tipo de presenças trazem
consigo, particularmente em termos econômicos que roçam
a minoridade. O Conselho não deveria dizer alguma palavra
a esse respeito?
• Trabalho não clerical: As fontes de entradas de uma
grande parte da Ordem derivam de atividades religiosas.
“Viver da religião” é sempre algo perigoso. Por isso
se deveria, talvez, dizer uma palavra sobre o trabalho
leigo por conta de estranhos como modo minorítico de
existência. Isso se faz particularmente interessante
no campo da formação dos candidatos à Ordem.
• Uma formação teológica minorítica: Não há dúvida que
se possa ter uma boa formação, teológica e civil, no
quadro da minoridade, sempre que essa não leve a gerar
estruturas educativas de renome e de grandes investimentos.
Não se deveria revisar o estilo de formação teológica
que se dá a inúmeros irmãos jovens do Terceiro Mundo
que vêm formar-se na Europa?
• Deseuropeização da Ordem: É um tema ligado ao anterior.
Nossa Ordem, de origem européia, manteve esse nível
de eurocentrismo mais por pertença a um sistema eclesial
também europeu que por opção grupal. Talvez seja o momento
de refletir sobre esse assunto a partir da perspectiva
da minoridade: mais universais para sermos mais menores.
• Trabalhos de evangelização espiritual mais que religiosa:
O ministério de muitos capuchinhos no mundo é marcado,
sobretudo, por compromissos de índole religiosa. Sem
dúvida, hoje o mundo moderno pede mais espiritualidade
que religião. Talvez seja esse campo da espiritualidade
prática um terreno a descobrir pelos que se dizem menores.
Que fazemos, por exemplo, no acompanhamento dos processos
de fé dos jovens em vista simplesmente da maturação
de sua fé? Que resposta damos, como Ordem, à criação
de uma espiritualidade em relação aos assim chamados
distanciados da fé?
• A inserção: questão pendente: Sempre foi dito que
o capuchinho é homem do povo. Porém, o foi alguma vez,
em nível de Ordem, assumindo as estruturas sociais do
povo? Ou, em vez, procurou aproximar-se do povo a partir
de uma realidade “quase-monástica”? Não seria o momento
de dar um impulso decisivo a um estilo de Ordem realmente
inserida nos meios populares, o que favoreceria o encontro
decisivo com formas minoríticas de viver?
Conclusão
Concluímos esta comunicação destacando
quatro aspectos básicos que, no fundo, são recomendações
feitas partindo da certeza da acolhida fraterna:
• Aguçar a consciência de pertença sistêmica: Se não
se toma consciência que a vida franciscana está imersa
nos diversos sistemas como parte componente e colaboradora
com esses; se não se percebe a necessidade de elaborar
uma impostação que delimite esses sistemas, a dificuldade
para intuir um projeto de vida minorítico alternativo
será muito grande.
• Renovar a intenção de Francisco num contexto novo:
Certamente tem sentido renovar a intenção de Francisco
de viver em relação com o sistema porém sem ser do sistema.
O contexto social mudou, imersos como estamos nos “turbilhões”
da globalização. Seria muito útil à sociedade e à Igreja
a oferta alternativa de uma maneira de entender a vida
a partir de impostações não sistêmicas. Talvez seja
essa a colaboração específica que se pede da vida franciscana.
• As grandes possibilidades da itinerância: São tantas
ou mais que as da minoridade. A itinerância se identifica
muito bem com um mundo em mudança como o nosso e desvela
muitas possibilidades diante da procura de um projeto
novo de vida franciscana, tanto para dentro como para
fora da fraternidade.
• Ponderar a postura: Superar a atitude negativa de
quem diz que isso não é possível; superar também a postura
de pouca fé de quem diz que talvez isso seja possível,
mas o diz sem intenção de realizá-lo; ir além da atitude
auto-enganadora de quem diz que é possível, mas que
é suficiente mudar apenas algo periférico; assumir a
atitude criativa de quem pensa que é possível se nos
decidirmos fazê-lo.
Fidel Aizpurúa Donazar,
Logroño (España).
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ITINERÁRIO
NAS SITUAÇÕES EXTREMAS: FORMAÇÃO FRANCISCANA E ANTROPOLÓGICA
DA ECONOMIA FRATERNA |
David Couturier,
o.f.m.cap. |
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Introdução
No tempo que levaremos para ler esta
apresentação, 1.400 crianças morrerão de fome ou por
causas conexas. 6.000 morrerão por doenças derivadas
de água infectada, diarréia, infecções respiratórias
agudas, malária e falta de higiene: todas doenças possíveis
de prevenção. Passados poucos minutos, oitenta crianças
abaixo dos 15 anos estarão contagiadas pelo vírus que
causa a AIDS e, enquanto estou falando, setenta crianças
morrerão por causa desta terrível doença. Onze milhões
de crianças na África abaixo do Saara, órfãos da AIDS,
estarão lutando para encontrar nutrimento e esperança
para poder sobreviver. Dois milhões e meio de crianças
tentarão viver com o HIV/AIDS e menos de 5% delas terá
a possibilidade de obter um tratamento antivírus.
Nos próximos minutos, 23 crianças se
tornarão alvo fatal nos conflitos étnicos e religiosos
que estouram em toda a parte no mundo. Só na última
década seis milhões de crianças ficaram sem casa e 12
milhões foram feridas ou mutiladas, já que os civis,
não os combatentes, se tornaram o alvo principal e constituem
90% das vítimas das atuais guerras étnicas e religiosas.
Enquanto falo, trezentas mil crianças
são obrigadas a entrar à força nos exércitos e nas guerrilhas,
usadas para missões suicidas, como bandas estratégicas
de estupro dos inimigos e para outras numerosas atividades
terroristas. São elas que os seus comandantes adultos
e os seus oficiais crianças mandam nas primeiras linhas
das batalhas ou nos perigosos campos minados na frente
das tropas.
Hoje, 15 mil pessoas fugirão das suas
regiões nativas, procurando escapar da violência das
regiões de origem; e a maioria desses refugiados serão
crianças.
As crianças serão as mais traumatizadas
emotivamente e as que sofrerão fisicamente mais abusos
entre os cinco milhões e meio de pessoas desenraizadas
e exiladas, só neste ano, por causa da onda crescente
de intolerância religiosa e dos confrontos étnicos em
todo o mundo. Na década de 1990, uma pessoa sobre 120
– isto é, 50 milhões de pessoas – foi forçada a fugir
da própria casa por causa das guerras ou das lutas civis.
E crianças serão a maior parte das 3.000 pessoas que
hoje (um milhão e duzentas mil crianças este ano) serão
vendidas como escravas ou para prostituição forçada,
seqüestradas em campos de estupro, vítimas da nova e
mortal campanha que usa a violência sexual como mercadoria
e como modo moderno de guerra.
Enquanto nós estamos refletindo sobre
o significado da minoridade, do poder e da itinerância
no nosso mundo de hoje, sabemos que mais de seiscentas
milhões de crianças vivem em pobreza absoluta, 50% de
todas as crianças das nações em vias de desenvolvimento
são subnutridas, 153 milhões de crianças abaixo dos
cinco anos nesta noite irão dormir com fome.
Estes fatos díspares, tomados em conjunto,
dão um quadro assustador da situação de extrema miséria
e constituem um desafio extremamente forte à nossa solidariedade
em vista da nova geração. Antes de fechar-nos numa teoria
formativa que nos possa ajudar a guiar o nosso caminho
religioso através do século XXI, é necessário que sondemos
o nosso conhecimento deste “mundo das situações extremas”
e consideremos bem os pressupostos psicológicos e organizativos
que estão na base do nosso desafio teológico.
O mundo das situações extremas: um tempo de pobreza
global e de violência intranacional
Já nos seus primeiros momentos o século
XXI revela, de modo dramático, prioridades e desafios
diferentes daquelas que caracterizaram a maior parte
do século XX. Foi-se o mundo tão confiante da modernidade.
As suas construções religiosas de certeza, universalidade
e uniformidade foram substituídas por discursos de preocupação
pelas tradições perdidas, exigências ignoradas, direitos
negados, posições assumidas, itens suprimidos e histórias
não aceitas.
O século XXI se prepara para enfrentar
seriamente as situações graves e contraditórias do sofrimento
que se apresentam também nas várias e diferentes estruturas
dos paradigmas seculares e fundamentalistas. No centro
da sua atenção está o mundo das situações extremas e
é nele que Deus se revelará amorosamente e/ou será negado
decisivamente, nas origens e no desenvolver-se do sofrimento
global.
As trágicas experiências de crianças
a que me referi acima têm uma base comum e um triste
desenvolvimento. Cada uma delas está radicada numa pobreza
que aumenta e que se faz mais vasta, que agora é exacerbada
pelo explodir de conflitos internacionais, religiosos
e étnicos. Enquanto a natureza e a freqüência das crises
internacionais mudaram dramaticamente e foram reduzidas,
houve uma proliferação de conflitos locais e regionais
baseados sobre a etnicidade, a nacionalidade ou a religião
que se utilizam muito de meios de violência descentralizados
e, seguidamente, terroristas.
Sociedades e culturas, já enfraquecidas
por anos de domínio estrangeiro, devem agora fazer frente
a uma nova e mortal combinação de desafios sociais:
instituições políticas instáveis, sistemas médicos e
formativos inadequados, pagamentos de dívidas esmagadoras
aos arquitetos e primeiros beneficiários da globalização
e virulentas tensões de violência tática, coisas que
estão se tornando comuns nas lutas étnico-religiosas
dos fundamentalismos.
O mundo das situações extremas, contexto
e sujeito do nosso trabalho por um reino redimido e
livre, é um mundo precariamente colocado entre as dinâmicas
da pobreza global e as dinâmicas de violentas lutas
sociais no contexto local.
É aqui que a formação religiosa deve
tomar um novo interesse e adquirir nova experiência,
no ponto de interseção onde se encontram a esmagadora
desigualdade econômica e as contrastantes exigências
culturais. Trata-se de uma mudança significativa e de
um desafio de grande fôlego.
Na maior parte do século XX, as comunidades
religiosas apoiaram e ajudaram o desenvolvimento da
“cultura paroquial” da Igreja, rede bem estável dos
interesses eclesiais, da compaixão regional e do orgulho
provincial. O desafio que se apresenta às comunidades
franciscanas do século XXI é o desenvolvimento de uma
nova “cultura da missão internacional”, que será caracterizada
por uma renovada atenção ao amor salvífico de Deus e
à sua bondosa compaixão pelo mundo, por um revigoramento
da qualidade da oração e da comunhão, por uma renovada
atenção à missão além fronteiras e no meio das culturas
e por uma formação permanente que vê o seu papel na
“ecologia da desigualdade” na qual nos encontramos.
Já se tornou quase evidente para muitas
comunidades religiosas que nós vivemos hoje num mundo
complexo e globalmente interdependente. A visão formativa
que no passado destacava a uniformidade cultural e a
intimidade étnica na vida religiosa, está agora cedendo
espaço a uma visão diferente que coloca às claras um
mundo de profunda diversidade. A vida religiosa hoje
é mais sensível ao fato que os católicos formem uma
comunidade de culturas muito ricas e variadas, que exprimam
uma só fé com muitas vozes. Esta consciência se traduziu
num aumento do estudo das línguas e no desenvolvimento
de programas de formação interculturais na formação
religiosa. As liturgias nas paróquias e nas comunidades
religiosas procuram novas formas de celebrar a igreja
global nas reuniões da igreja local.
Mas a formação religiosa se encontra
diante de um desafio verdadeiramente único: o de desenvolver
uma pedagogia que ajude os candidatos a ultrapassar
tanto as barreiras econômicas como as culturais. Enquanto
o andar além dos limites culturais implica entrar ‘simpateticamente’
na língua e nos costumes dos “outros”, o andar além
dos limites da classe social significa um realinhamento
do próprio horizonte de poder e de responsabilidade
na sociedade, na comunidade e na Igreja. Hoje o ministério
da formação deve não só tomar em consideração a sensibilidade
do candidato a respeito da diversidade cultural e a
sua aceitação da mesma, mas também a sua disponibilidade
para o confronto com a crescente desigualdade econômica
que se manifesta em todos os níveis da sociedade.
Muitos jovens religiosos podem percorrer
todo o caminho da sua formação religiosa sem nunca mudar
ou confrontar-se com o seu horizonte econômico. As estruturas
econômicas que estão na base do desenvolvimento da sua
atividade caritativa e das suas sensibilidades culturais
se presumem justas e além da crítica. A mudança que
propomos do discurso de diversidade ao discurso de desigualdade
na literatura da formação tem o objetivo de situar a
nossa discussão num mundo interdependente mas diferente
e de ligar mais atentamente entre eles a espiritualidade
da transcendência e da justiça.
Infelizmente, muitas vezes, se trata
de um mundo visto com indiferença por parte dos indivíduos
e com ambivalência institucional por parte dos chefes
religiosos, como se pobreza e violência não fossem produtos
devidos ao homem e sujeitos à mesma graça que move o
coração humano à conversão pessoal. Precisamos de um
olhar diferente sobre o nosso modo de pensar a pobreza
no mundo.
A pobreza, como a conhecemos hoje,
é “o resultado claro de conscientes decisões políticas
e econômicas feitas por algumas pessoas”. A pobreza
é uma série de privações que se acumulam na vida das
pessoas e assim se reforçam uma com a outra. Falo hoje
da pobreza como necessidades materiais, privação física,
falta das coisas básicas necessárias, instituições econômicas
que faltam, desigualdades políticas e de sexo e privações
de voz e de representatividade pessoal. Como Peter Henriot,
SJ, também creio que a pobreza não é um estado inevitável.
É a conseqüência de um plano humano (não divino), das
nossas estruturas sociais, políticas, econômicas e relacionais.
A pobreza é uma realidade que nós estruturamos e que
nós toleramos. Quando Jesus disse aos seus discípulos
que nós sempre teríamos pobres conosco, estava fazendo
“uma observação empírica, não... estava dando uma norma
de comportamento”.
Eu considero que a pobreza é uma desordem
estrutural da oportunidade, autoridade e segurança exigida
pelos seres humanos, uma desordem que cria e coloca
junto uma extrema vulnerabilidade e os eventos normais
e às vezes incontroláveis que as pessoas devem enfrentar,
como os desastres naturais, as doenças, a violência
e as crises econômicas. A desordem estrutural da extrema
pobreza requer uma formação à conversão estrutural das
nossas comunidades religiosas.
Passamos agora a uma análise da pobreza
extrema e às nossas afirmações acerca do seu desenraizamento.
A desordem estrutural da desigualdade econômica e o
seu desenraizamento
Se nós consideramos a composição estrutural
das sociedades atuais, vemos que no mundo existe uma
imensa pobreza unida a uma grande riqueza. Dos seis
bilhões de pessoas que existem no mundo, estima-se que
quase a metade (dois bilhões e oitocentos milhões) viva
com menos de dois dólares ao dia. Cerca de 20% (um bilhão
e duzentos milhões) vivem com menos de um dólar ao dia.
Para colocar tudo isto no contexto que nos diz respeito:
no Ocidente são necessários U$ 18.000,00 (€ 15.000,00)
ao ano para manter um religioso na sua vida simples
e ascética, quando são computados a comida, os cuidados
médicos, os seguros, as hospedagens e as outras necessidades.
Segundo meus cálculos, isto representa 25 vezes mais
daquilo que a metade das pessoas do mundo têm para viver
e 50 vezes mais do que recebem os mais pobres, isto
é, 20% das pessoas.
Os efeitos da pobreza global são enormes.
Nas nações ricas menos de 1% das crianças morre nos
cinco primeiros anos de vida. Nas nações mais pobres,
20% de todas as crianças morrerão antes de atingir cinco
anos de vida. Como afirmei mais acima, 600 milhões de
crianças no mundo (1/4) vivem em pobreza absoluta.
Num estudo recente sobre a distribuição
das entradas no mundo, viu-se que a desigualdade cresce
sempre mais e que a diferença entre ricos e pobres aumenta
visto que os ricos recolhem os benefícios da globalização
enquanto os pobres estão no limite ou abaixo do limite
de pobreza. Entre 1988 e 1993, por exemplo, as entradas
globais per capita cresceram efetivamente um respeitável
5,7%. Contudo, foi a quinta parte mais rica da população
mundial que teve todo o ganho. Todas as entradas para
os outros diminuíram e 5% dos pobres viu diminuir as
próprias entradas em 25%.
Uma análise nas dinâmicas da pobreza
global revela cinco tendências. Atualmente nós podemos
dizer que a pobreza
1. está se aprofundando, no sentido
que os pobres despencam sempre mais e com mais velocidade
na miséria, apesar do grande progresso, das conquistas
tecnológicas sem precedentes e do sólido crescimento
econômico;
2. está se alargando, no sentido que a diferença entre
aqueles que têm e aqueles que não têm cresce sempre
mais, porque os ricos engolem todos os benefícios da
globalização, enquanto as entradas dos pobres continuam
a diminuir rapidamente;
3. está se militarizando sempre mais, no sentido que
os conflitos armados, especialmente o pipocar de guerras
civis e os confrontos étnico-religiosos exasperam e
aumentam a já alarmante combinação dos fatores de risco
da miséria;
4. está se feminilizando e “jovenilizando”, no sentido
que as mulheres e as crianças caem na pobreza mais facilmente
e mais freqüentemente que os homens;
5. está se internacionalizando, no sentido que o crescente
volume e a crescente variedade das transações dos bens,
dos serviços e dos capitais além fronteiras (essencialmente,
a globalização) deixam muitas nações fortemente endividadas
à mercê das poucas nações muito ricas que escrevem as
leis e estabelecem as tarifas do comércio.
Não é coisa rara entre nós que estamos
empenhados no trabalho internacional de justiça e paz
o lamentar-nos do fato que seja tão difícil ter e manter
a atenção por parte da comunidade quando o discurso
fala da justiça. Pouco tempo faz, durante um encontro
com os ministros gerais das maiores ordens franciscanas,
um dos ministros me fez uma pergunta atinente ao nosso
trabalho de hoje. Questionava-se sobre o como (por que)
os franciscanos parecem estar perdendo entusiasmo e
energia em relação aos problemas da justiça, paz e integridade
da criação.
Eu não pude negar a sua afirmação.
Trata-se de uma dos aspectos desconcertantes do nosso
trabalho: por que religiosos bons, generosos e comprometidos
parecem, às vezes, tão desinteressados e, algumas vezes,
até contrários aos esforços que poderiam aprofundar
a sua tomada de consciência, ampliar a sua compreensão
e estender o seu empenho nas ações acerca da condição
dos pobres no mundo.
Uma razão é que nós supomos que a pobreza
global seja inevitável e que aliviá-la seja virtualmente
impossível. A esmagadora pobreza da metade da humanidade
persiste, apesar das maravilhosas conquistas técnicas,
dos extraordinários progressos científicos e de uma
agenda moral iluminada que já rejeitou coisas como a
escravidão, o trabalho infantil, o colonialismo e a
violação de todo um conjunto de direitos humanos. Ela
resiste porque não podemos ainda concluir que temos
o motivo para reformar a ecologia da desigualdade.
No seu novo livro World Poverty and
Human Rights, Thomas Pogge chega à conclusão que a realidade
diante da qual nos encontramos é a falência da convicção
moral. Escreve: “a pobreza ampla, extrema, pode continuar
porque nós não estimamos que o seu desenraizamento seja
moralmente devido”. E prossegue dizendo que ele não
será nunca moralmente devido até que não vejamos que
o seu inexorável crescimento na desigualdade global
é tão inquietante a ponto de exigir uma séria reflexão
moral.
Substancialmente, nós não cremos que
a condição presente das nossas irmãs e dos nossos irmãos
seja suficientemente preocupante de um ponto de vista
moral para fazer-nos mudar o curso das nossas ações.
Pode ser assim porque os pobres que encontramos e aqueles
que estão além das nossas fronteiras são os que Bryan
Massingale chama “as vítimas permitidas” do mundo. Existem
aqueles “cuja vida e dignidade podem – e são – violadas
sem grande ofensa social, notícia pública ou protesto
cívico”. Estes são aqueles cujos gritos, por mais altos
que sejam, persistentes ou determinados, permanecem
inaudíveis ou são sufocados nas grandes discussões e
discursos morais das nossas igrejas e instituições.
Mas existe uma razão mais profunda,
uma razão que desafia os nossos esforços de minoridade
e de itinerância como homens franciscanos. É a subjacente
ambivalência psicológica e a defesa institucional contra
a conversão estrutural necessária para mover as nossas
comunidades na direção da compaixão internacional que
se requer da nossa parte.
Minoridade, itinerância e desenraizamento da pobreza
Certamente não se poderá conter a maré
da pobreza extrema sem uma cooperação internacional
muito grande e sem sacrifícios globais. Como já acenamos,
a pobreza atual do mundo é uma “desordem estrutural”.
Exige uma conversão estrutural. E para os franciscanos
a virtude que dará a força para uma conversão estrutural
das condições da pobreza global é a minoridade. Nessa
linha, a itinerância é a nossa libertação do “monopólio
do imaginário” que dissuade as nossas emoções, a nossa
mente, o nosso espírito e as nossas estruturas da vocação
que temos de ser uma livre comunidade de pessoas no
mundo de hoje, sem dominação e sem limitações.
O VI CPO colocou em relação o ideal
evangélico da pobreza e a opção de minoridade:
Ser menor é a manifestação de autêntica
pobreza interior, que no projeto franciscano de vida
se exprime também exteriormente; é humildade de coração
e ausência de poder; é solidariedade com aqueles que
estão em necessidade e em privação. Duas conseqüências
da pobreza evangélica que no projeto franciscano de
vida assumem particular força são: a pobreza manifestada
externamente e a vontade de viver em solidariedade.
Sem a minoridade a nossa pobreza não teria sentido e
se tornaria orgulho; assim como sem a pobreza, a minoridade
seria falsa.
John Corriveau, nas suas reflexões
sobre os resultados desse CPO, fez notar que o empenho
franciscano pela pobreza incentivou os nossos primeiros
frades a corajosas opções econômicas (e não só a disposições
espirituais) que constituíram um desafio à economia
dominante do seu tempo.
Estas opções econômicas eram também
uma ruptura consciente com as mais óbvias injustiças
do crescente mercado econômico do tempo, baseado na
apropriação do poder e da riqueza por parte de alguns
em prejuízo da maioria. A escolha da pobreza por parte
dos primeiros franciscanos visava o seguimento: o objetivo
consistia em entrar em relação uns com os outros e com
o próximo ao modo de Jesus. Era uma escolha consciente
de um mundo mais fraterno, de um mundo mais humano.
Corriveau diz que a intenção de Francisco
(e dos seus companheiros) era de construir uma nova
segurança fundada na mútua dependência e na solidariedade
fraterna. Comentando os nossos desafios franciscanos
hoje, continua afirmando que nós hoje somos chamados
a nada menos que a instituir uma “economia fraterna”
que constitua um desafio ao reino do capitalismo no
nosso imaginário social e religioso. Porque, diz “o
capitalismo propõe a concorrência como a melhor resposta
para proteger e administrar a escassez de recursos”
(Carta Circular 13,5.2). Mas a Igreja propõe a solidariedade
e a mútua dependência como fundamento mais seguro, duradouro
e justo para a segurança e o bem estar humanos.
Posto tudo isto, me parece que a minoridade,
a força que estimula a nossa pobreza franciscana, não
pode mais ser reduzida a uma perspectiva que a torna
uma virtude humilde e imperceptível, interior e muito
privatizada. Diante da pobreza global, assim como a
apresentamos, talvez a descrição mais apropriada da
minoridade do século XXI seja: a virtude social da compaixão
internacional.
Como capuchinhos, somos agentes internacionais
com uma visão que nos conduz a uma sofisticada (mesmo
se muitas vezes não utilizada) rede de comunicações.
Podemos apoiar instituições justas que têm finalidade
de ajuda e, quando possível, transformar organizações
pecaminosas e sistemas injustos. Podemos oferecer idéias,
instituições e relações em todo o mundo para ajudar
o povo a dar um sentido à própria vida, aliviá-lo no
seu sofrimento e construir pontes através das perigosas
barreiras políticas, econômicas, culturais e étnicas
que o divide.
A itinerância é a confiança corajosa
e apaixonada de ir em frente e para além das fronteiras
da língua, classe, cultura, ideologia, sexo, orientação
e castas que separam os pobres dos ricos no mundo ilusório
dos maiores e dos minores. A itinerância está radicada
na convicção intelectual, na maturidade emotiva e na
flexibilidade organizativa de uma livre comunhão de
fraternidade evangélica de irmãos/irmãs. Está fundada
sobre a premissa espiritualmente segura e continuamente
criativa de que Deus é o bem, todo o bem, o sumo bem,
em todo o tempo e para cada um. A itinerância é a nossa
resposta individual e comunitária à promessa escatológica
de Cristo que, num mundo de bárbaro e extremo sofrimento,
faz novas todas as coisas e nos pede para viver no adventus
de Deus, bom e doador de graça.
Refletindo sobre as dinâmicas espirituais
e psicológicas da itinerância, Carlos Alfonso Aspíroz
Costa, OP, refere-se ao texto bíblico do Êxodo que diz:
“quem queria consultar a Javé, devia ir até a tenda
da reunião, que estava fora do acampamento” (Ex 33,7).
Isso leva Costa a observar:
“Fora do acampamento”, entre todos
“os outros” relegados num lugar fora do acampamento,
é onde nós encontramos Deus. A itinerância requer sair
da instituição, fora das percepções e das crenças culturalmente
condicionadas, porque é “fora do acampamento” que nós
encontramos um Deus que não pode ser controlado. É “fora
do acampamento” que nós encontramos o Outro, que é diferente,
e descobrimos quem somos e o que devemos fazer.
As dinâmicas psicológicas e organizativas “no interior
do acampamento”
Referimo-nos diversas vezes aos desafios
formativos a respeito da nossa vocação à compaixão internacional
e às virtudes franciscanas da minoridade e da itinerância.
É hora de explicitar tais desafios.
Durante os últimos vinte anos fiz pesquisas
sobre a capacidade dos religiosos – homens e mulheres
– de promover a justiça e de desenvolver a virtude da
solidariedade, como vêm apresentadas nos ensinamentos
sociais da Igreja. Fiz isso utilizando duas disciplinas:
a pesquisa psicológica a respeito dos religiosos – homens
e mulheres – e o campo do desenvolvimento organizativo
sócio-analítico. Isso me levou à convicção que, enquanto
a maioria dos religiosos e religiosas deseja sinceramente
ajudar os seus irmãos e as suas irmãs que estão em necessidade,
nós somos, ao mesmo tempo, freados por uma ambivalência
psicológica subjacente no que diz respeito à pobreza
e à condição dos pobres.
Por um lado a pesquisa empírica indicou
que os jovens religiosos possuem altos ideais de serviço
diferente e obediência, disposição a sacrificar-se por
um mundo melhor, pobreza, autodisciplina e responsabilidade.
Dão importância à vida eterna como seu último fim e,
em confronto com os grupos de leigos coetâneos, têm
uma postura menos marcada a assumir a vida como ela
é. Demonstram um maior senso de pobreza, piedade, mortificação
e castidade no elencar os valores por eles professados.
Evitam o poder competitivo e o controle sobre os outros.
São pessoas cujos valores convergem para a compaixão
e o interesse pelos outros.
Contudo, os estudos mostraram também
que, enquanto os jovens religiosos expressam altos valores
de abnegação em favor dos outros, eles demonstram significativas
tendências de agressividade, de vontade de domínio sobre
os outros, de procurar fugir das coisas que lhes possam
causar danos ou críticas. As atuais pesquisas indicam
que os altos ideais vocacionais pelo empenho social
e pela justiça não são suficientes para fazer supor
que pessoas já na vida religiosa ou que estão entrando
tenham uma efetiva capacidade para a solidariedade com
os pobres. Entendemos que o imaginário social daqueles
que estudamos muitas vezes é construído sobretudo na
base de um compromisso entre altos ideais vocacionais
e incoerentes e fortemente inconscientes necessidades
pessoais. De sessenta a oitenta por cento dos religiosos
e religiosas, apesar dos valores de compaixão sinceramente
considerados e publicamente proclamados, são fundamentalmente
ambivalentes no que se refere à pobreza e à condição
dos pobres. Se a itinerância é, como sugerimos, “a confiança
corajosa de ir em frente e para além das fronteiras
da língua, classe, cultura, ideologia, sexo, orientação
e castas que separam os pobres dos ricos”, então nós,
como formadores, nos encontramos imediatamente diante
de um problema. Que é este: a persistente incoerência
entre os valores, as atitudes e as exigências emotivas
que existem na posição dos religiosos e o projeto de
vida daqueles que se empenham por uma vida de minoridade.
As pesquisas e a experiência juntas
mostram que a sincera proclamação dos ideais de justiça,
compaixão e solidariedade constituem somente a metade
da história das motivações religiosas. D’outro lado
e num nível mais profundo estão os compromissos emotivos
e as concessões não-racionais que com o tempo fazemos
para satisfazer as nossas necessidades afetivas, especialmente
quando esses se demonstram em contraste com opções duras
e penosas implicadas na autotranscendência do zelo profético.
Os programas de formação religiosa
fizeram muito caminho sublinhando os valores da minoridade,
justiça, compaixão e solidariedade na vida religiosa.
A literatura sobre a minoridade e a solidariedade produzida
nestes últimos anos é extensa e aprofundada. O acréscimo
da “itinerância” completará e ampliará outros importantes
temas no léxico da “economia fraterna”. Todavia, a literatura
sobre a formação é incompleta se ela não enfrenta os
obstáculos e as resistência (tanto as pessoais como
as organizativas) que se encontram no desenvolvimento
da economia fraterna, especialmente aqueles que se encontram
nas águas turvas das necessidades incoerentes e dos
compromissos emotivos.
Aqui devemos olhar seriamente os programas
de formação que tratam dos altos ideais da minoridade
e da itinerância e, ao mesmo tempo, os compromissos
emotivos que se têm a respeito da compaixão, tormentosos
e, freqüentemente, difíceis de decifrar.
Parece que a formação para a itinerância,
a formação dos indivíduos e das comunidades para irem
além das fronteiras da língua, classe e cultura, será
posteriormente colocada à prova pela ambivalência estrutural
inerente à própria formação atual. Existem várias razões
para isso.
Antes de tudo, os nossos sistemas de
formação são primariamente e quase exclusivamente centrados
na conversão pessoal dos frades individualmente. Raramente
eles são competentes na literatura e nas experiências
da conversão estrutural das comunidades religiosas.
Enquanto nós tomamos conta de modo apropriado do desenvolvimento
espiritual, afetivo, intelectual e interpessoal dos
frades indivíduos, o mesmo não se pode dizer das comunidades
que formam a matriz deste desenvolvimento. São raras
as comunidades que se põem em confronto com os princípios
das suas dinâmicas organizativas, conscientes das suas
defesas sociais e capazes de confessarem os seus pecados
sociais como grupo. Hoje nós compreendemos de modo mais
claro os valores que estão na base de desenvolvimento
da economia fraterna, mas não aprofundamos ainda as
dinâmicas psicológicas e organizativas do seu desenvolvimento
e do seu regresso.
Se como fraternidade nós devemos entrar
de forma mais direta na arena do poder e da minoridade,
da itinerância e da compaixão internacional (e eu creio
que devemos), então devemos articular uma antropologia
da economia fraterna mais convincente e mais robusta,
uma antropologia que possua o espaço e os meios para
ajudar-nos a entender as nossas possibilidades e a nossa
vocação à análise institucional e à transformação das
organizações, sistemas e estruturas na nossa vida. E
não podemos dar por descontados os sistemas que ainda
existem em torno a nós como se não estivessem implicados
em pecados sociais e não usassem defesas sociais.
Em segundo lugar, a formação para a
itinerância e para a compaixão internacional é obstaculizada
porque nós não temos uma teoria da formação religiosa
compreensiva, coerente e partilhada.
Recentemente terminei um estudo sobre
os programas de formação nos EUA e concluí que nós temos
sete “culturas de formação”, distintos e às vezes concorrentes
sistemas de crenças, emoções, rituais e meios. Cada
uma destas culturas expressa valores que derivam de
ensinamentos confiáveis, cada uma delas procura ser
fiel a aspectos cruciais do pensamento da Igreja do
pós-Vaticano II.
Porém, são culturas de vida religiosa
fechadas, cada uma com sua linguagem distinta e o seu
conjunto de rituais que formam e delimitam um horizonte
de expectativas que serve para delinear e distinguir
uma da outra. Elas estão rapidamente se tornando as
culturas da vida eclesial.
Por exemplo, a cultura ‘essencialista’
com sua estreita adesão à linguagem e à práxis da “verdade
objetiva”, aos pronunciamentos do magistério e à defesa
apologética da fé, é bem diferente da cultura ‘essencialista’
com sua ênfase no crescimento pessoal, na reflexão sobre
si mesmo e sobre a autenticidade. A cultura da socialização
com sua ênfase na “fraternidade”, na “partilha da fé”
e nas dinâmicas do discernimento está em forte contraste
com a interioridade da cultura ‘essencialista’ que a
precedeu. Cada uma das outras culturas da formação (a
‘comportamentista’, a ‘neo-essencialista’, a da libertação
e a profissional) exprimem os valores fundamentais da
ação, liderança, justiça e criatividade, mas o fazem
com uma linguagem e com um estilo que permanecem grandemente
incompreensíveis fora dos parâmetros da cultura de formação
preferida por alguém. Estas culturas de formação tornaram-se
defesas sociais usadas inconscientemente para contrastar
o fortalecimento das comunidades religiosas do século
XXI.
Se nós queremos construir comunidades
de fraternidade evangélica, com a flexibilidade organizativa
e a paixão corajosa de ir além das fronteiras da própria
classe e cultura em função da compaixão internacional,
então devemos escutar com atenção e seguir de modo apropriado
as culturas concorrentes de formação presentes na nossa
Ordem. Se aprendermos como transferir-nos para tais
culturas e para dentro delas, sem julgá-las e com respeito
espiritual, então poderemos também aprender – desde
dentro – as técnicas e as dinâmicas necessárias para
a passagem pelas fronteiras do sexo, da classe e da
casta.
A antropologia da economia fraterna
“Minoridade”, “itinerância”, “solidariedade”,
“participação” e “transparência” são elementos fascinantes
no léxico do ensinamento social de John Corriveau na
Ordem Capuchinha. Mas eles convergem para uma imagem
central, um paradigma que os coordena e para uma metáfora
fundamental da sua visão soteriológica da Ordem. E esta
é a visão da “economia fraterna”.
É a “economia fraterna” que exprime
como os frades devem viver o plano de redenção e o trabalho
de libertação num mundo que se atém aos princípios alternativos
da divisão e da alienação. Aquilo que Corriveau quer,
mais que um plano econômico de distribuição de fundos
no mundo, é desafiar a metáfora central dos nossos tempos,
o “monopólio do imaginário” que impõe a competição,
que é a “única voz que determina como as coisas são
experimentadas... a lente através da qual a vida é propriamente
vista ou experimentada”.
O que ele quer é propor uma visão alternativa
e fazer um apelo à reconstrução das relações em todos
os níveis da nossa experiência eclesial e social. Solidamente
fundado sobre a visão trinitária de que o nosso Deus
é uma “livre comunhão de pessoas sem dominação nem limitação”,
Corriveau entende que nenhuma irmã e nenhum irmão no
mundo é livre se não puder exprimir a si mesmo (e tudo
de si mesmo) na livre comunhão que é o seu patrimônio
como filhos de Deus. Qualquer sistema, qualquer estrutura,
qualquer instituição social ou eclesial que interrompa
ou interfira no acesso individual ou de grupo à plena
e transcendente extensão de liberdade de ser em comunhão,
deve ser rejeitada como uma afronta ao fundamento trinitário
do universo. Qualquer instituição ou organização que
quisesse tentar circunscrever ou limitar de qualquer
forma o impulso de um irmão ou de uma irmã à livre comunhão
com métodos de domínio ou com meios de limitação, deve
ser renegado e os seus esforços devem ser corrigidos,
porque o domínio e a limitação não são obra de um Deus
que ama.
Deste modo John Corriveau pôde integrar
a espiritualidade da transcendência e a espiritualidade
da justiça e justamente fazer da obra de promoção dos
direitos humanos no mundo o empenho central do franciscano
maduro.
Gostaria de terminar esta apresentação
colocando à luz os elementos centrais da antropologia
da economia fraterna, aquelas constantes decisivas que
devem formar a base das nossas tentativas de construir
uma sólida formação à itinerância e à compaixão internacional
no século XXI. Vou descrevê-las brevemente.
Edward Schillebeeckx descreveu diversas
“constantes antropológicas” que exprimem o que quer
dizer ser pessoa humana e como nós nos relacionamos
com o divino. Elas constituem o fundamento da resposta
da nossa fé no mundo, da nossa ética, liturgia, ação
pastoral e oração. Elas formam a nossa visão e interpretação
do mundo. Elas formam a nossa resposta ao sofrimento
e à orientação da nossa presença encarnada na sociedade.
Schillebeeckx enumera seis:
1. Corporeidade (que inclui a própria
sexualidade e o ambiente ecológico);
2. Relação com as outras pessoas como contexto formativo
da nossa própria individualidade;
3. Relação com as estruturas sociais, políticas e econômicas;
4. Condicionamento de tempo e espaço;
5. Dinâmica de teoria e práxis experimentada como cultura
(como oposta ao instinto);
6. Orientação ao futuro (como parte daquilo que significa
ser pessoa humana).
Sem querer sugerir que Corriveau tenha
derivado as suas constantes antropológicas diretamente
das premissas teológicas de Schilleebeeckx, gostaria,
com objetivo heurístico, traçar três linhas antropológicas
inspiradoras que poderiam formar a base da nossa formação
à itinerância e à compaixão internacional.
1. Criação e fraternidade cósmica.
Antes de adentrar em uma série de reflexões sobre a
pobreza, a solidariedade e os princípios da economia
fraterna, Corriveau coloca as bases de todas no profundo
princípio antropológico de criação. Nós somos criaturas
intimamente conexas e visceralmente ligadas ao mundo
material. Corriveau salienta a realidade da salvação
e da libertação como um drama encarnado. Escreve:
Como a fraternidade engloba toda a
criação, Francisco foi seduzido por aquilo que se poderia
chamar a “fraternidade cósmica”. Celano descreve como
Francisco olhava as mais humildes realidades... a luz,
a água, o fogo, o vento, a terra, as árvores, os animais,
as flores... com estupor. Era capaz de ver as realidades
escondidas da natureza... Todas as criaturas formam
uma única família diante de Deus.
Claramente toda formação à itinerância
e à compaixão internacional deve impulsionar os frades
a aceitar o próprio corpo e toda a criação, evitando
toda forma de dualismo e ajudando-os a ver que a ecologia
não é um objeto de estudo, mas a verdadeira matriz do
seu desenvolvimento. Este mundo e todos os mundos, encarnados
e cheios de sentimento e de inteligência, se unem numa
maravilhosa diversidade como uma única família diante
de Deus e são o lugar privilegiado de admiração, contemplação,
construção e compromisso.
2. Comunhão e interdependência. Como
vimos, Corriveau rejeita de modo decisivo o atomismo,
o individualismo e o isolamento que são os princípios
de fundo da antropologia secular que herdamos. Repetidas
vezes Corriveau rebate com força o paradigma da competição
que controla de modo prevalente o nosso imaginário social.
E, ao contrário, nos impulsiona energicamente à solidariedade
e à mútua interdependência em todas as relações como
única resposta adequada a Deus, que é descrito como
uma “livre comunhão de pessoas sem dominação e sem limitação”.
Corriveau fala seguidamente da necessidade de “relações
renovadas e restauradas”, que encontram a sua força,
o seu motivo e o seu modelo no “excessivo amor” do Crucificado.
Corriveau rejeita qualquer projeto antropológico que
inclua domínio ou defenda a limitação. Observa: “Uma
autoridade patriarcal e despótica, inspira somente ódio
e medo, viciando desde a base a comunhão de vida que
existe na Santíssima Trindade”. Três princípios derivam
desta visão de comunhão e de mútua interdependência:
participação, transparência e responsabilidade.
Estes três princípios já estão presentes
nas nossas reflexões, mas devem ainda encontrar uma
realização apropriada na transformação das nossas relações.
Na formação, colocar a atenção na “participação”
pode mudar a natureza e a qualidade das relações e do
trabalho com os diretores da formação. A colaboração
e a cooperação que ultrapassem as fronteiras das províncias
podem se tornar uma nova expressão da nossa itinerância.
Podem até fazer diminuir a assimetria que muitas vezes
existe entre o desenvolvimento pessoal e a transformação
comunitária.
A “transparência” pode dar evidência
à abertura que se espera de cada frade e de cada comunidade
refletindo profundamente sobre a qualidade da nossa
oração e da nossa comunhão, da nossa missão e da nossa
solidariedade. Ela deveria incluir a atenção às defesas
pessoais dos indivíduos e às defesas sociais das comunidades,
já que estes são os obstáculos mais resistentes ao desenvolvimento
da economia fraterna. A “virada para o social” da formação
do século XXI completaria a “virada para o sujeito”
do século XX, se ela incluir os mecanismos por meio
dos quais as comunidades podem avaliar os próprios níveis
de empenho para o bem comum, a solidariedade e a comunhão.
Uma nova importância dada à “responsabilidade”
pode corroer o atomismo comunitário que às vezes se
manifesta com força na vida espiritual dos frades depois
da profissão perpétua. As comunidades podem então conceber
a si mesmas como mutuamente responsáveis e mutuamente
empenhadas a reavivar a própria oração e comunhão (dentro
e fora da fraternidade) e entrar num discernimento partilhado
sobre o progresso dos próprios ministérios, em vez das
posturas protecionistas que se têm por vezes na atribuição
dos vários serviços. Uma responsabilidade mais coletiva
e global que brota do respeito das dimensões internacionais
da compaixão de Cristo pode completar as formas pessoais
e interpessoais da obediência que foram desenvolvidas
no XX século.
Uma nova importância dada à “itinerância”
como movimento para frente e para além das fronteiras
estáveis da classe, do sexo e da sexualidade, junto
a um empenho mais profundo pelo desenvolvimento da fraternidade
cósmica e da mútua interdependência deve causar um sério
e duradouro compromisso em direção ao elemento feminino.
A formação capuchinha deve tornar-se mais autenticamente
envolvida com as histórias e as experiências das mulheres
do norte e do sul. Devemos nos interrogar sobre a prática
de excluir as mulheres das nossas discussões sobre como
“as relações renovadas inauguram a justiça”. Elas devem
falar a partir de si mesmas sobre a forma e a direção
da “economia fraterna” do século XXI. E a itinerância
pedirá de nós a coragem de andar para além das fronteiras
seguras da nossa sexualidade e do nosso sexo para permitir
às mulheres (e às outras minorias) estarem em livre
comunhão conosco, livres do domínio e da limitação que
elas por tanto tempo experimentaram.
3. Estruturas sociais. É na Carta Circular
2 que Corriveau anuncia que mudanças estruturais fariam
parte da agenda de seu governo. Mas a sua visão é algo
mais do que prescrições para uma distribuição mais justa
dos recursos no mundo capuchinho. É um reconhecimento
de que estas adaptações estruturais, fundadas sobre
a solidariedade e sobre a mútua dependência, oferecem
uma base mais forte à esperança e um fundamento mais
seguro ao bem estar do mundo.
Corriveau não teme desafiar as estruturas
fundamentadas no triunfo da competição. Ele focalizou
claramente seus esforços sobre as estruturas financeiras
da Ordem. Fez isso porque, como já vimos, ele sabe que
o espírito de competição que monopoliza a imaginação
do mundo moderno é uma ofensa à comunhão fraterna que
deve determinar a nossa interação com o mundo.
Mas não parou nas nossas relações econômicas.
Fez também apelo à “solidariedade das pessoas” e à criação
de “novas estruturas de colaboração entre os continentes
e as circunscrições”.
Ele abre uma nova fronteira para a
formação religiosa: o empenho pela conversão estrutural.
A conversão estrutural supõe que cada frade em formação
se torne mais competente no que diz respeito aos meios
e às habilidades necessárias para compreender e, se
necessário, ajudar a reforma dos sistemas, das instituições
e organizações nas quais vivemos e trabalhamos, de acordo
com a visão e os valores da comunidade fraterna.
Muitas vezes o empenho da formação
religiosa é apresentado somente em dois níveis: o pessoal
e o interpessoal. Muitas vezes é esquecida a crucial
dimensão do aspecto coletivo e do aspecto cultural.
Reduzindo a positividade da existência religiosa somente
às dinâmicas pessoais e relacionais se ignoram as maiores
forças institucionais que podem ou promover o progresso
humano ou então empurrar para a exploração social.
Discriminação, desigualdade, insuficiente
cuidado da saúde, estruturas educativas inadequadas
e práticas injustas de assunção de trabalho, por exemplo,
são mais vezes sim que não “pecados sociais”. E as dinâmicas
do pecado social são diferentes e mais sutis que as
dinâmicas do pecado pessoal, enquanto os códigos competitivos
do pecado social se escondem no âmbito das regras, dos
costumes e das convenções das organizações e prejudicam
de modo injusto as legítimas exigências pessoais e interpessoais
do indivíduo ou do grupo.
Diante da violência coletiva e dos
conflitos alimentados pelos antagonismos étnicos, nacionalistas
ou religiosos que pipocam no nosso mundo, cabe àqueles
que são dedicados à economia fraterna ter conhecimento
e experiência da prática da transformação dos conflitos,
do edificar a paz e do perdão social.
Os nossos irmãos no recente encontro
regional da Ordem sobre a justiça e a paz, havido em
Adis-Abeba, entenderam como a reconciliação social é
um sinal especial da graça de Deus num mundo de múltiplas
etnias e culturas. Mostraram até como construir uma
cultura dos direitos humanos nas nossas comunidades
e no mundo seja uma expressão franciscana particular
da nossa fundamental igualdade e unidade como “irmãos
de todos os povos sem distinção” (Const. 11,2).
Conclusão
Começamos esta apresentação expondo
breve mas realisticamente casos de sofrimento humano
no mundo. No tempo utilizado para falar – dizíamos –
milhares de crianças morreriam de fome, seriam infectadas
pela AIDS e teriam sido exploradas nos conflitos étnicos
e religiosos explodidos sobre a terra.
Os nossos medos se concretizaram –
milhares de crianças morreram ou foram reduzidas a escravas.
Tornaram-se alvo de guerra, foram desalojadas das suas
casas e arrancadas das suas famílias.
Diante desta violência e pobreza global,
propusemos a minoridade como virtude social da compaixão
internacional e a itinerância como um apaixonado e confiante
ir adiante e para além das fronteiras da língua , da
classe, da cultura, da ideologia, do sexo, da orientação
e da casta, a fim de viver a nossa vocação a ser uma
livre comunhão de pessoas sem dominação e sem limitação.
Estamos num ponto crucial do empenho
na nossa vida capuchinha. Seremos capazes de ouvir o
grito dos pobres além das nossas fronteiras como os
nossos irmãos da África pediram durante o Capítulo Geral
de 2000? Ou, em vez, não prestaremos atenção?
As crianças estão esperando.
|
| |
A
Minoridade como Inspiração para um novo Modelo de Sociedade: |
Menor
a partir dos menores e com os menores
|
Luis Carlos Susin,
o.f.m.cap. |
Estamos todos de acordo: a minoridade
não é simplesmente pobreza nem se reduz a ocupar os
postos mais humildes, mas é uma relação de serviço na
condição de humildade, é lavar os pés uns dos outros.
Serviço supõe alguma eficácia em algum plano da realidade.
Como pode a minoridade ser relevante para os clamores
e as expectativas de sociedades contemporâneas, num
mundo mais globalizado, com relações mais complexas?
Podem as sociedades em que estamos presentes acreditar
que algo de bom, uma boa notícia, pode advir de um grupo
de frades católicos que professam minoridade? A estas
perguntas, que me foram acenadas no decorrer da preparação
do CPO, creio que, em primeiro lugar, se poderia dizer
que a resposta depende da qualidade que se tenha da
compreensão e da interpretação do mundo contemporâneo
e da qualidade da minoridade em relação a este mundo.
Esta intervenção seguirá cinco itens: 1. As possibilidades
de serviço para que outro mundo seja possível. 2. A
minoridade antes como uma relação de serviço do que
uma identidade. 3. A minoridade como uma relação que
se impõe a partir de outros, da experiência do encontro
com outros na minoridade. 4. As relações de serviço
que podem ajudar na sustentabilidade para que outro
mundo seja possível. Neste item procuro acenar para
conseqüências dos três primeiros. 5. E, finalmente,
a minoridade na complexa dialética social, passando
da proximidade à solidariedade organizada sem perder
a experiência fundante da minoridade.
1. Um outro mundo é possível
Sonhar um outro mundo não é privilégio
nosso. A missão de um Frade Menor neste mundo poderia
ser, em certa medida formal, a missão de D. Quixote,
o Cavalheiro da Triste Figura celebrizada por Cervantes
na sua obra prima da literatura espanhola. Nesse mundo
em que os grandes ideais parecem um romantismo anacrônico,
continuar sonhando um sonho impossível, continuar lutando
uma luta invencível, transfigurar a dura realidade em
nobreza e ardor, essa missão marca, de alguma forma,
a figura um tanto “quixotesca” do Frade Menor. O “Senhor
dos Espelhos”, diante de D.Quixote, com a sua brutal
demonstração da realidade, com as suas análises sócio-econômicas,
políticas ou psicanalíticas, pode jogar o sonho no diagnóstico
da loucura e da melancolia. O atual estágio das sociedades
em um mundo onde triunfa a globalização dos mais fortes
e onde novas periferias e novas fronteiras afogam a
esperança, a tentação de entregar-se à melancolia pelo
sentimento de fracasso e impotência pode ser grande.
Mas triunfo e vitória, poder e domínio, não são sinônimos
de verdade. “Os fatos podem ser inimigos da verdade”,
relutava D. Quixote diante do Senhor dos Espelhos. A
verdade e a justiça, como prova a cruz de Jesus, este
nosso D.Quixote do Reino de Deus, se revela mais entre
as lágrimas dos que permanecem junto às cruzes das periferias
do que nos centros fascinantes por suas novas catedrais.
“Um outro mundo é possível” se tornou o grande lema
do Fórum Social Mundial, um evento que começou a acontecer
em 2001, em Porto Alegre, cidade de onde venho, e do
qual procurei participar, juntamente com outros confrades
e teólogos e numerosos membros de Igrejas. Depois das
três primeiras edições em Porto Alegre, foi realizado
em janeiro deste ano em Mumbai (ex-Bombaim), na Índia.
Atualmente é chamado de “Movimento dos movimentos”,
pois vem congregando cada vez maior número de organizações
não governamentais, entidades e movimentos de lutas
pela dignidade e pelos direitos humanos e ecológicos,
por relações internacionais mais justas, pela melhoria
da existência humana na terra, etc. O Fórum Social Mundial
nasceu como confrontação e alternativa ao Fórum Econômico
Mundial, que vem acontecendo em janeiro de cada ano,
desde a década de setenta, em Davos/Suíça. Queria-se
afirmar uma globalização que considere em primeiro lugar
as sociedades e não as economias, estas em função daquelas
e não o contrário. No entanto, seu crescimento surpreendente
a cada ano, como também a metodologia e a abrangência
já superaram as razões iniciais. Além do Forum Mundial,
celebram-se fóruns regionais e continentais como sua
preparação, emergência de bases e difusão. Para além
de um fórum de idéias em rede, se tornou uma grande
vitrine, uma visibilização de iniciativas, de organizações,
de criatividade, de movimentos nascidos nas últimas
décadas e que permaneceram relativamente isolados e
invisíveis enquanto triunfava com fragor o neoliberalismo
e o “pensamento único”. Desafiando este pensamento unidimensional
e antropologicamente tão perverso como outras ideologias
do passado recente, o Fórum Social Mundial se apresenta
com um horizonte utópico: a possibilidade de um mundo
diferente. Este mundo, construído a partir da história
do Ocidente, sobretudo dos seus últimos cinco séculos,
está se tornando cada vez mais insustentável, inviável
para grandes porções da humanidade, embora esteja em
andamento uma guerra de mídia em torno da interpretação
da realidade. Afirmar que já não há uma realidade mas
interpretações, tem um limite na fome, na solidão, no
desespero, na morte. Esse é o limite rapidamente conhecido
por grandes porções da humanidade e que a mídia ligada
aos interesses dominantes, coerentemente, deixa no escondimento
e no esquecimento. Outro mundo é necessário e urgente.
O Fórum Social Mundial não pretende, no entanto, ser
apenas um sonho, tendo como único ponto focal o horizonte
utópico. Apresenta também as potencialidades plurais
da realidade em uma vasta escala de iniciativas que
dão sinal desse outro mundo possível.
Na abertura do segundo Fórum Social Mundial, logo após
se enunciar o lema nascente - “Outro mundo é possível”
- a segunda afirmação foi: “Não outro além, separado
deste mundo”. E a terceira afirmação, sempre com a solenidade
de uma abertura: “Mas diferente do estado atual deste
mundo: este mundo pode ser outro, pode ser diferente”.
E, finalmente: “Nós podemos fazer deste mundo um mundo
novo”. Para quem trabalha com soteriologia, com escatologia
– ou os “novíssimos”, como se dizia em outros tempos
– essas afirmações ressoam a secularização operada pela
modernidade daquilo que está no coração da esperança
e dos cuidados cristãos, no horizonte das expectativas
e do messianismo cristão: a salvação humana com o mundo
e a salvação do mundo com a salvação humana, sem separação
e sem confusão, enfim, Novos Céus e Nova Terra onde
não haverá mais lágrima, nem pranto, nem luto e nem
dor (Cf. Ap 20-21). Poderíamos até nos gloriar de que,
na coordenação do Fórum Social Mundial, estejam também
pessoas de formação solidamente cristã. Mas há uma pluralidade
de tradições religiosas, com sua ética de responsabilidade,
nas biografias dos milhares de participantes. Embora
o “sujeito” ou “ator” do Fórum seja a sociedade civil
em suas organizações, sem conotações políticas partidárias
e sem conotações religiosas excludentes, membros das
religiões estão, inclusive, explicitamente presentes
enquanto se comprometem com a Carta de Princípios éticos,
de respeito à pluralidade e de métodos não violentos.
Evidentemente, o Fórum Social Mundial é ainda frágil
em muitos aspectos. Há, de fato, doses de romantismo,
de confusão, daquele caos que costuma emergir em festas
populares de grande massa, afirmações de identidade
de forma exagerada, manifestações residuais de grupos
radicais paralelos ao Fórum com ideologias anacrônicas,
etc. E há sempre a pergunta pela sua eficácia. No entanto,
mostrar o que está acontecendo nas regiões do planeta,
incentivar comunicações e redes, criar empatias e afinidades,
fortalecer a esperança, tudo isso tem grande valor prático.
Mas a eficácia decisiva do Fórum é o horizonte que descortina
como possível: “um outro mundo é possível”.
A reflexão que segue agora se dirige à eficácia da minoridade
tendo como horizonte as milhares de entidades e de pessoas
que formam o Forum Social Mundial e seus próprios horizontes
sociais e utópicos. Talvez convenha reafirmar com clareza
algo anterior a toda eficácia: a minoridade, no seu
coração, no seu segredo ou mistério mais profundo, move-se
no âmbito da gratuidade, da graça ou dom sem medida
e sem cálculos. Também nesse sentido são impressionantes
a densidade de generosidade e a gratuidade humanista
que movem as milhares de entidades que se integram ao
Fórum Social Mundial. Não poderíamos reconhecer nisso
a ação do Espírito? Mas, para entender a relação entre
a minoridade e esta manifestação gigantesca da sociedade
civil mundial, convém nos entendermos também minimamente
sobre a minoridade, já que se trata de nossa identidade,
e as identidades são hoje um problema.
2. Minoridade: uma identidade na relação
Quando Tomás de Celano relata que Francisco
dá nome ao seu grupo, talvez devamos pensar algo de
bíblico: “Quero que esta fraternidade seja chamada Ordem
dos Frades Menores” (1C 38). Portanto, como outros sabem
dizer melhor, a essência da Ordem não é apenas a de
ser irmãos, mas de ser irmãos na forma, na modalidade
de “menores”. Ambas as palavras definem a identidade,
o ser próprio de quem realmente pertence à Ordem. O
nome é, biblicamente, uma vocação, um chamado a ser
uma identidade. No entanto, por causa da “minoridade”,
esta identidade é paradoxal, tem algo de contraditório,
é uma identidade “às avessas”, inclusive escandalosa.
Sem um choque e um espanto que interrompam o caminho
da identidade e o coloquem penitentemente ao avesso,
não se começa a aventura de ser Frade Menor. Para compreendermos
com mais profundidade a necessidade deste choque e o
seu modo de acontecer, vamos nos deter brevemente sobre
o drama da identidade. Creio que o drama - tão cruamente
exposto por nosso querido mestre Frei Lázaro Iriarte
- de que as lutas em torno da pobreza se deveram à sua
dissociação da minoridade, tenha muito a ver com o problema
profundo da identidade na história do Ocidente.
A prioridade da afirmação da identidade, a busca da
própria essência, do próprio fundamento, do próprio
sentido, colocando em segundo lugar ou como parte da
odisséia da identidade a relação com o outro, com as
diferenças, é a origem da guerra, do desconhecimento,
da injustiça. É possível constatar e afirmar que este
instinto de afirmação da identidade não seja apenas
o drama de uma determinada história ou de uma determinada
cultura, mas seja algo antropológico e até zoológico.
Mas, para não permanecermos em generalidades, convém
reconhecermos, como tantos pensadores contemporâneos,
que a história do Ocidente tem se caracterizado por
este círculo da Odisséia, da nostalgia de si mesmo,
do seu próprio sentido e fundamento, com a busca de
si mesmo e com a auto-afirmação vitoriosa em todo contato
com o estranho. A afirmação da identidade pode se dar
até no fascínio da mística, na confusão com o divino,
na beleza do seu mistério, tanto faz que seja numa teologia
ou liturgia da beleza ou numa beleza da teologia e da
liturgia. Mas este lado estético, como o lado intelectual
e o lado político, tem também seu lado guerreiro, sua
violência elevada à nobreza das batalhas heróicas. O
círculo da identidade coloniza, submete, manipula, aniquila,
anula enfim toda revelação de alteridade e recusa uma
conversão que não seja apenas ao mais profundo de si
mesma. Politicamente, no passado recente, tivemos assim,
o recrudescimento dos nacionalismos, das ideologias
totalitárias. Mais recentemente, a partir das regiões
mais liberais, as lutas de afirmação das minorias. Enfim,
estamos às voltas com o fundamentalismo em suas distintas
versões. É fundamentalismo terrorista o mais frágil,
que só age na forma de guerrilha. É fundamentalismo
com guerra de tremor e espanto a partir dos mais fortes,
que se sentem ingenuamente ligitimados no uso de força
toda vez que a sua identidade é ameaçada. Todos coincidem
na busca de afirmação da sua identidade, mesmo que isso
signifique um perigoso choque de civilizações num mundo
em que a maior globalização obrigou a uma proximidade
que não é necessariamente o cumprimento do mandamento
bíblico para com o próximo.
A pergunta sobre a identidade, para nos aproximarmos
mais de nós mesmos, é se em termos cristãos, católicos
e eclesiásticos, inclusive espirituais e místicos, não
andamos pelos mesmos caminhos. Aprofundar a própria
minoridade como identidade poderia trair esta preocupação
por nós mesmos? Em termos eclesiológicos, basta folhear
os textos sobre as “notas” da Igreja e as disputas sobre
quem é a verdadeira Igreja, sobre quem realiza e visibiliza
a identidade como Igreja de Cristo, para nos darmos
conta de um círculo médio do problema antes de entrarmos
no círculo estreito das disputas franciscanas. Se acrescentarmos
às notas ortodoxas da Ecclesia Una, Sancta, Catholica
et Apostolica também a nota ocidental, latina, histórica
e cultural, da sua romanidade – inclusive com plena
consciência do quanto Francisco amou e quis obediência
à Ecclesia Romana – então o drama da identidade fica
ainda mais exposto na Igreja de hoje.
No entanto, a prioridade da busca de afirmação da identidade
não é o único princípio que fez história no Ocidente.
À odisséia de conquistadores e descobridores, de colonizadores
e de construtores de grandes impérios, o Ocidente está
também evangelicamente traumatizado pela peregrinação
incessante de Abraão, de Moisés e de Elias, dos pobres
de Javé e, finalmente, pelo caminho pascal de Jesus.
No caminho de Abraão a Jesus, de Jesus ao Reino de Deus,
a entrada ou irrupção do mistério conduziu para o paradoxo
da majestade e da fragilidade ao mesmo tempo, do oceano
e da gota, do Deus sempre maior mas encontrado sempre
junto ao humilde (Cf Is 57,15). A antropologia bíblica
trouxe para dentro do Ocidente a inquietação e a peregrinação,
a ética do outro acima e antes da ética da identidade,
da ordem, da instituição. Por isso o Ocidente é um curto-circuito
contínuo entre a afirmação da identidade e a renuncia
de si em favor da transcendência e do socorro ao outro,
uma mistura de colonização e missão, entre o fervor
sincero de humanismo e a imposição do próprio humanismo
aos outros.
O Concílio Vaticano II colocou a identidade da Igreja
a caminho de sua vocação peregrina, de sua razão de
ser, a missão evangelizadora e a busca do Reino de Deus
para além dela mesma. É uma verdade muito simples e
ao mesmo tempo extremamente inquietante: o Reino de
Deus é maior do que a Igreja, é anterior e está acima
dela, é seu horizonte de auto-superação. Ao mesmo tempo,
é mais frágil e menor do que a Igreja, é uma exigência
de socorro. Esta é uma das lições do contínuo curto-circuito
entre identidade e auto-transcendência, entre afirmação
de si e renúncia de si em favor de algo maior e mais
humilde ao mesmo tempo.
Nessa história, podemos constatar com renovado pudor
e espanto que a experiência de Francisco ocupa um lugar
marcante. Ao indicar que o caminho da identidade da
Ordem seria de Menores, toma para si e para nós uma
palavra essencialmente relacional, desde um lugar nada
confortável. É bem sabido o que significava, na sociedade
de Francisco, pertencer ao estamento dos “menores”,
e não precisamos insistir nisso agora. Queria sublinhar
somente algo ainda mais óbvio: que a palavra “menor”
indica uma relação antes de uma identidade. A identidade
se define a partir de uma relação fundante. E que é
uma relação comparativa: supõe que alguém seja “maior”.
Se quisermos saltar imediatamente da relação social
dos estamentos de maiores e menores do tempo de Francisco
à relação mística de sermos menores diante do mistério
maior que é a majestade divina, correríamos o risco
de anular a relevância da minoridade nas sociedades
em que vivemos. Por ora, basta afirmarmos que a minoridade
nos desloca da prioridade da afirmação da identidade
para a prioridade da relação de auto-transcendência,
uma relação ao que é maior e mais humilde do que nós
mesmos, que vai nos definindo como identidade sem que
possamos ter o controle sobre ela: é dada a partir dos
outros, a quem lealmente consideramos nossos amores
“maiores”. E, talvez, com certo tremor mas também parresia,
constatarmos que o atual momento da Igreja, em suas
complexas relações internas, se inclina mais para a
defesa e aprofundamento da identidade do que para a
auto-transcendência em relação ao que, no mundo, é mais
humilde.
3. Minoridade: uma relação que se impõe
a partir de outros
É útil recorrer à lembrança de Francisco
no início do Testamento: “Foi assim que o Senhor me
concedeu a mim, Frei Francisco, iniciar uma vida de
penitência: como estivesse em pecado, parecia-me deveras
insuportável olhar para leprosos. E o Senhor mesmo me
conduziu entre eles e eu tive misericórdia com eles”
(T 1).
Entre os cientistas da religião que buscam entender
a estruturação da experiência religiosa, esse momento
de Francisco se revela precioso . Com pleno direito,
a hagiografia edificante incorporou a esta experiência
fundante de Francisco muitas narrativas, dada a sua
decisiva importância. O que importa salientar, para
o nosso tema da minoridade, é que esta experiência fundante
tem primeiramente um impacto desestruturante, demolidor,
provocador de um incontrolável esvaziamento, uma kénosis.
Hoje, nessa “era do vazio” da cultura ocidental, nesse
momento de ‘liquidificação” de toda a modernidade, em
que as grandes instituições tendem à dissolução, a experiência
do “vazio”, da kénosis, é um fato bastante dramático.
A próxima reunião de movimentos cristãos em busca da
“alma da Europa” é um sintoma significativo.
A kénosis da experiência fundante de Francisco não é
puramente mística. Ela provém da revelação do outro
“leproso”, em sua humanidade. Essa associação daquilo
que é informe, feio, doloroso, embrutecido, obsceno
por sua repugnância, que é vivido inicialmente como
ameaça da qual instintivamente alguém se desvia, com
o que há de humanidade resistente em sua fragilidade
e pureza, é o lugar onde o Senhor faz Francisco se tornar
um “menor” entre os menores. Nas história bíblica e
na história das religiões, antes de qualquer aspecto
institucional, temos biografias traumatizadas por este
momento. Não há religião sem compaixão e não há compaixão
sem dor e perda num encontro inesperado.
Ser “menor”, portanto, não é um ato voluntarista, uma
decisão feita sob o controle da razão e do cálculo,
um projeto amadurecido com a clareza da consciência.
Ninguém se faz menor ou se despoja e serve a outros
sem o choque e o escândalo capaz de transformar o amargo
em doce e vice-versa. Essa transformação não está em
nosso poder, e não começa em nós. A minoridade começa
numa relação que se impõe a partir de outros menores,
como graça que está além de nossa natureza, algo realmente
“sobrenatural”, em que Criador e criaturas estão amorosamente
associados. Essa referência antropológica e ética ao
“outro menor” e à compaixão como forma mais abismal
do amor e da mística possibilita o começo da minoridade.
Novamente, a lembrança de Francisco é preciosa: “E devem
estar satisfeitos quando estão no meio de gente comum
e desprezada, de pobres e fracos, enfermos e leprosos
e mendigos de rua” (Rnb 9,3). Segundo a lição de Lázaro
Iriarte, com a conventualização e a clericalização da
missão evangelizadora, essa relação e esse ambiente
original simples e sem polêmicas começou a se apagar
bem cedo no horizonte, e a minoridade foi engolida por
uma busca de pobreza ascética e mística, pouco diferente
das atitudes austeras dos cínicos gregos e de suas polêmicas
ascético-políticas. A própria pobreza, como sabemos,
se tornou uma polêmica trágico-cômica internamente e
no seio da Igreja.
A minoridade, portanto, é um dom que recebemos de Deus
pela presença e pela mediação de outros, dos menores
deste mundo. Sem esta experiência fundante, o resto
é retórica. Sobre esta experiência fundante podemos
ter esperança de contribuir de forma adequada, como
menores, para um mundo evangelizado com as boas notícias
da justiça e da paz.
4. Minoridade: relações de “sustentabilidade”
para outro mundo possível
Convém, agora, analisar melhor a compreensão
que temos hoje de nossas sociedades para situarmos nelas
a relação de minoridade e suas possibilidades para a
sustentabilidade de um mundo que esperamos. No grande
romance de Cervantes, é a confrontação entre o Cavalheiro
da Triste Figura com o Senhor dos Espelhos.
4.1. Entre os sistemas e o caos: a
atual condição popular nas regiões de exclusão
A sustentabilidade do mundo é, hoje,
uma das preocupações globais. O poder político e a estruturação
da economia, continuam sendo executados, em suas formas
básicas, em paradigmas inviáveis de tipo filosoficamente
cartesiano e cientificamente newtoniano, que divide
e mecaniciza a realidade. É um paradigma guerreiro,
do tipo “divide et impera”. Até mesmo as especializações
científicas e a tecnologia, assim como a razão crítica
e instrumental, a filosofia analítica, os métodos histórico-críticos,
se desenvolveram dentro deste paradigma duro e belicoso,
em que a verdade é sinônimo de domínio, de desconstrução.
A verdade científica se torna, assim, impotente para
gerar sentido e vida . Até a autoridade e a obediência,
como também a educação e o magistério – inclusive eclesiástico
- se tornam relações violentas: “manda quem pode e obedece
quem deve!” Esse paradigma tornou nossa relação com
o mundo, com o ecossistema terra, e nossas relações
sociais insustentáveis sob todos os ângulos: politicamente,
economicamente, culturalmente, ecologicamente, espiritualmente.
Uma nova compreensão do mundo emerge, no entanto: mais
sistêmica e mais holística. Há uma abundante literatura
sobre isso . Uma das teorias mais fascinantes é a da
“auto-organização” e da emergência da vida em condições
cada vez mais complexas. A outra é a “teoria do caos”,
com suas espantosas doses de acasos . Finalmente, incerteza
e indeterminação, complementaridades e dissipação de
estruturas para possibilitar reemergências de estruturas
mais complexas, tudo isso ajudou a desenhar, desde a
nova física do século XX, um paradigma novo sobre o
qual também a antropologia, as relações sociais, a economia,
a política e a ética, a visão ecossistêmica e holística,
enfim a espiritualidade, as tradições religiosas e a
teologia, ainda estão ensaiando um novo nascimento.
E com doses residuais de resistência e de fundamentalismo
patético por parte de muitas instituições . É que, de
qualquer forma, as novas possibilidades de compreensão
e de atuação não tornam as coisas mais simples, mas
mais complexas, começando por exigir uma nova alfabetização
e uma nova postura ética. Quando muda o paradigma, todos
voltam a zero, doutores no antigo paradigma sentam-se
ao lado dos analfabetos. Quando pensamos isso em sentido
político, moral, doutrinário, canônico, é evidente o
desconforto, o esvaziamento e a kénosis que uma mudança
tão global provoca. Não é retórica de humildade confessar
que, em muitas coisas importantes de nosso mundo simplesmente
não sabemos o que pensar e o que fazer.
No entanto, aprendemos a confiar também. Aprendemos
da nova física que, mesmo no nível mais ínfimo das regiões
subatômicas da realidade, lá onde somente uma espécie
de sopa quântica ou até de vácuo quântico ou campos
termodinâmicos de energia com meros pedaços de realidade
navegando em forma de fractais, lá onde o caos do macro-cosmo
está também abaixo do micro-cosmo, exatamente lá emerge
a ordem, a simetria, a organização, os sistemas de vida
que, a um certo nível, exigem decisivamente nossa responsabilidade.
Caos, portanto, é abismo de energias soltas, de violência
e de morte, mas é também nascedouro da realidade, de
vida organizada e de apelo ético.
É bem verdade, também, que a todo campo de energia estruturada
corresponde mais caos nas regiões em torno dele. Pode-se,
transdisciplinarmente, aplicar a teoria do caos à sociedade:
à beleza das metrópoles correspondeu, durante séculos,
a exploração das colônias, assim como hoje, numa grande
cidade do terceiro mundo se confrontam os limites entre
porções de um mundo desenvolvido com grandes áreas de
caos urbano. Às áreas residenciais de belos condomínios
fechados correspondem as suas periferias caóticas onde
dormem as faxineiras, os pedreiros, as empregadas domésticas
desses condomínios de alto padrão. Pode-se compreender
o mundo de hoje, desde as relações de vizinhança até
as relações internacionais e seus choques de migrações
e fronteiras, com a escala entre sistemas mais ou menos
bem sucedidos e doses cada vez mais abismais de caos
no universo. Em outras palavras, entre incluídos em
sistemas que dão garantias de vida, e excluídos que
vivem perigosamente o cotidiano sem seguranças, no meio
da violência e da morte fácil. À atual globalização
e suas melhorias correspondem novas e dramáticas formas
de periferia e caos.
No entanto, a luta dos sobreviventes do cotidiano, a
energia em seu estado quase bruto, é também fonte de
criatividade, mesmo que esta criatividade se estruture
de forma frágil, efêmera, apenas como pedaços de realidade
organizada, como em “fractais” efêmeros no meio do caos,
segundo a imagem da nova física. Dois exemplos podem
esclarecer: a informalidade do trabalho e a informalidade
da religião. Há uma enorme e efervescente criatividade
na área do trabalho, socorrida por toda forma de relações
e de organizações, desde as ajudas de vizinhança até
as organizações não governamentais, o chamado “terceiro
setor” e a cooperação internacional. E há uma incrível
criatividade na área da espiritualidade, formando “pedaços
de religião”, “fractais de igrejas” que emergem em cada
esquina, sincretismos adquirindo lógica própria e sustentando
sentido e dignidade para as vidas ameaçadas.
O fotógrafo Sebastião Salgado, conhecido por suas fotos
dos dramáticos acontecimentos sociais em todo o mundo
das últimas décadas, observava que as periferias das
cidades do terceiro mundo são todas iguais na estética
do caos, uma estética do feio, do horror. O caos torna
tudo igual, é a máxima identidade na absoluta perda
de toda identidade diferenciadora. E, no entanto, é
também possibilidade de um novo começo, lugar de revelação
de um humanismo milagroso, feito de encontros surpreendentes
de leprosos e de Cristo.
4.2. A inevitável experiência de proximidade
do outro “menor”
Fora dos seus sistemas, na margem que
inclinava para o caos, encontraram-se o samaritano e
o homem caído como morto à beira do caminho entre Jerusalém
e Jericó. O doutor da lei tinha perguntado a Jesus como
poderia herdar a vida eterna (cf. Lc 10, 25). Conforme
a Escritura, deveria cumprir os dois grandes mandamentos:
Amar a Deus, em primeiro lugar, e o próximo como a si
mesmo. Mas a lei deve saber estabelecer a identidade
e a diferença, o que deve ser feito e também os limites,
aquilo que não deve ou não precisa ser feito. Portanto,
o problema estava em traçar os limites do condomínio
fechado: quem é o meu próximo!? E a parábola de Jesus
cuida, em primeiro lugar, de arrasar todo limite, toda
fronteira. Os homens do sistema religioso cumpriam a
lei com o zelo que era devido à santidade da lei – um
sacerdote não devia em nenhuma condição tocar em um
caído como morto, esta era a primeira regra de santidade
sacerdotal (Cf. Lv 21,1). Segundo a parábola, o sacerdote
e o levita até viram mas não se aproximaram por razões
de santidade. Os limites bem estruturados da lei os
impediram de proximidade, portanto de cumprir o espírito
da lei. O samaritano, considerado um endemoninhado,
odiado por diversas boas razões, andando fora do seu
próprio mundo, entre as duas cidades judaicas mais puras,
“viu-o e moveu-se de compaixão. Aproximou-se, cuidou
de suas chagas”(Lc 10, 33b-34a). Na periferia, excluídos
dos seus sistemas, ambos provaram a experiência incontornável
da proximidade sem defesas. Foi a experiência de Francisco
ao ser jogado para fora do seu sistema pela decepção,
pela doença, pela crise familiar e pessoal e pelo desmoronamento
de seu belo mundo juvenil: encontrou-se com o caído
e excluído. Foi necessário ser arrastado para o mesmo
abismo, para a kénosis, para o vazio, para então conhecer
um irmão verdadeiramente humano, frágil e puramente
humano. Nessa condição, a misericórdia engloba ambas
as partes: de certa forma o caído a beira do caminho
deu ao samaritano uma possibilidade de sentir-se vivo,
de exercer com dignidade e eficácia o seu cuidado, de
ter um valor e um sentido – o caído foi um bom samaritano
para o samaritano. Como os leprosos foram os que curaram
as chagas de Francisco. Em termos lacanianos, a falta
e o grito do outro suscitam desejo e preenchimento da
própria falta e do próprio grito ainda que abafado.
No caos da identidade despedaçada, na minoridade forçada,
no pântano perigoso onde se afunda toda beleza, emerge
de um encontro, de olhares e de mãos, uma primeira relação
que poderá formar uma rede complexa, um sistema vivo
e garantias de vida – a relação absolutamente pura e
sem defesas com o outro menor.
4.3. Da minoridade do outro à própria
minoridade como itinerância e como identidade.
Desde a experiência fundante de proximidade
na minoridade, em que se recebe do outro menor a própria
minoridade como vocação, tudo pode ser recuperado: o
samaritano põe seu óleo, seu animal, seu dinheiro, o
albergue, até seus planos, em função da minoridade do
outro. E, desta forma, permanece próximo e persevera
como menor: servindo a minoridade do outro. Persevera
sem as dobras de alguma identidade senhora de si mesma:
Dá o que é seu, torna-se despojado, e continua indefeso,
arriscando novos contatos de proximidade.
Francisco, depois de sua experiência fundante, mística
e ética ao mesmo tempo, como o próprio Jesus no seu
batismo trinitário entre os humildes, ao se encontrar
com os menores e com Deus no mesmo lugar e no mesmo
corpo, se entusiasma e anda meio mundo pedindo bens,
esmolas, mas dá sempre e persevera no despojamento,
na pobreza. Não há necessidade de convertermos esta
nossa reflexão numa homilia, basta afirmarmos com clareza
decisiva: a itinerância, como a pobreza, não é um valor
em si mesmo – pesquisadores de campo e turistas são
itinerantes – nem é uma mística meramente espiritual
– Deus se encontra em toda parte. Mas itinerância e
pobreza são decorrentes da minoridade que, por sua vez,
é uma relação de perseverança na proximidade, no encontro
e no serviço aos menores que andam por toda parte porque
não têm um lugar garantido. É para estar com os menores,
para partilhar a condição de minoridade, para servir
com o que se tem e com o que se pode, para inventar
e organizar no meio do caos, até ao martírio, que se
recebe a vocação da minoridade e da itinerância – uma
errância servidora e um serviço errante. Sem serviço,
sem missão na minoridade, ou seja, sem que a missão
signifique lavar os pés, ungir as chagas, movido por
misericórdia, a itinerância se tornam exercício de poder
sobre outros. Para servir seu sagrado sistema, com a
dureza da lei e seus limites acima da misericórdia,
também o sacerdote e o levita estavam a caminho.
Finalmente, a identidade de “menor” pode ser definida:
é uma perseverança no caminho arriscado da proximidade,
na abertura da sensibilidade compassiva e do humanismo
cujo único tesouro, sentido e fundamento, advém dos
outros menores, do mundo dos menores, dos pequeninos
e dos pobres, dos caídos ao longo do caminho.
Em termos sociais, a permanência da identidade é perseverança
nas fronteiras da marginalidade e do caos social, arriscando
a confusão e a espontaneidade tão tradicionais para
definir a liberdade e a alegria franciscana e capuchinha,
mas com a generosidade e a responsabilidade de quem
pode ser também esmagado e martirizado seja pelo sistema
religioso seja pela violência espontânea das situações
marginais. Mas sabe-se também como uma gota que modifica
e contém de alguma forma o oceano, como o bater de asas
da borboleta no continente que irá produzir uma tempestade
em meio ao mar, pois, na complexidade em que tudo está
relacionado com tudo, um desapercebido encontro na misericórdia
redime e recria o mundo.
5. Minoridade e dialética social: da
proximidade à solidariedade organizada
A experiência fundante da minoridade
é um “não lugar”, está além do cotidiano. Não se pode
estar à beira, fora, no caos e na desestruturação completa
todos os dias. A experiência fundante só pode ser um
acontecimento extraordinário em que se coloca o alicerce
sobre o caos, tornando-se o segredo profundo que sustenta
o cotidiano. Sua veracidade e sua força, no entanto,
podem e devem dar significado e criatividade ao cotidiano.
Pelo cotidiano somos envolvidos não apenas por um caído
à nossa frente mas por muitos, pelas multidões da rua,
da cidade. Na dura realidade cotidiana multiplicam-se
os rostos, os gritos, as necessidades, a diversidade,
a urgência de opções. E somos assim devolvidos ao sistema,
aos recursos da economia, da política, dos trabalhos,
dos projetos, das palavras e das idéias. A proximidade
e a misericórdia, a graça recebida e doada entre menores
e Deus cuja glória maior é ser humilde, agora precisa
se transformar nessas realidades do cotidiano social.
A isso chamamos, ultimamente, de solidariedade em redes.
Não precisamos inventar a solidariedade: ela existe
por todo lado. Sempre existiu como possibilidade mesma
de qualquer sociedade. Mas ganha para si as possibilidades
de cada época, e hoje tem aspectos surpreendentes. De
uma área metropolitana como São Paulo, no Brasil, por
exemplo, com seus 18 milhões de habitantes e altos índices
de violência e degradação de todo tipo, se conta com
praticamente o surgimento de uma organização não governamental
por dia, com uma multidão de iniciativas que, mesmo
em nível bem local, de bairro ou de região da cidade,
superam a mera filantropia assistencialista e se constituem
lugares de crescimento, de superação da fatalidade,
de cidadania responsável, enfim de vida nova. A mesma
megalópolis que é cruel e violenta, faz surgir em seus
traumatismos toda forma de solidariedade, que passa
do trauma e da compaixão para a descoberta, a criatividade
e a organização. Um jornalista, ao avaliar tantas formas
de iniciativas de solidariedade em São Paulo, enumerou
em primeiro lugar a contribuição da teologia e da pastoral
de libertação, das pastorais sociais da Igreja Católica
nas últimas décadas, às quais se somaram desejos de
maior humanismo por parte de cidadãos com bons recursos
culturais e econômicos. Em situações como esta, ao redor
de nosso planeta, a boa notícia do frade menor é somar-se
de peito aberto, sem muitos recursos, mas dando-se a
si mesmo com os riscos que tal dom implica.
Mas a minoridade, com o tempo do cotidiano, sobrecarrega-se
de complexidade e até de sofisticação, deixando aparentemente
a simplicidade dos momentos fundantes. E, apesar da
nostalgia, incorpora as mediações necessárias para perseverar
no serviço eficaz. E eficácia significa racionalidade,
projeto, recursos, dinheiro, comunicação, tecnologia,
associação de pessoas de diferentes níveis, exercício
de políticas, empreendedorismo, investimentos, viagens,
enfim tudo o que possa fortalecer a solidariedade em
rede desde algumas opções fundamentais. Nesse ponto
a tradição capuchinha parece ter experiência acumulada,
a de ser capaz de atravessar dialeticamente toda a sociedade,
de estar simultaneamente na margem e no centro, sem
se envergonhar de pedir esmolas que, na verdade, são
um direito e uma herança dos pequeninos com quem o Senhor
de todos os tesouros se identifica, como ensina a Regra.
É importante lembrar que, desde o início, a esmola nunca
foi simplesmente para si mesmo ou para os frades, e
que se inseria num contexto de associação à evangelização
de todos, dos que necessitavam de bens mas também dos
que necessitavam aprender a doar algo de si mesmos.
A posição de minoridade e de itinerância se transforma
em ponte que une muitas direções. Decisivo, no entanto,
será sempre a carga de sensibilidade da experiência
fundante, a misericórdia e a graça do encontro na minoridade
e na proximidade. Esta sensibilidade se torna um ponto
de vista, um argumento, uma bandeira, mesmo quando se
estiver nos lugares e nos trabalhos mais sofisticados
– na cátedra, no avião, entre pessoas de roupas finas.
Um serviço que historicamente se tornou peculiar a nós
é o da palavra. Em tempos de louvor ao trabalho mecânico,
à ação sobre a matéria, se ouvia dizer que a virtude
seria “poucas palavras e muitas ações”. Hoje isso se
revela francamente ideológico e até uma pretensão de
poder. O que os profetas ensinaram e, em primeiro lugar,
a criação divina revela, é que a palavra é a grande
mediadora entre o caos e o mundo organizado. O que os
fractais de religiões que se espraiam pelas periferias
com seus pastores eloqüentes podem hoje nos lembrar
é que o povo precisa ser curado mas também precisa de
palavras que curem e sustentem a esperança, a auto-estima
e a poesia que alimenta a vida humana. Entre as organizações
e grupos de trabalhos populares abundam os que partem
das artes, da dança, do esporte, e não apenas da economia
ou da educação para o trabalho. Mas a palavra que serve,
que é eficaz, precisa estar sobrecarregada da minoridade
fundante, da proximidade dialógica, do ouvido atento,
para que não se torne um sofisma religioso de um falso
profeta. A tentação de ser profeta de corte e de sucesso
talvez necessite, de vez em quando, que se faça a experiência
de Ezequiel 33, quando os ouvintes se reuniam cada noite
para escutar suas canções, se deliciar com suas melodias,
mas sem atender aos seus apelos. O fracasso da palavra
nos coloca no nosso lugar de minoridade para que ela
volte a ser buscada na proximidade entre menores.
Com a complexidade do cotidiano, voltam as tentações
– as da lei, da absorção e autosuficiência do sistema,
de esquecer a experiência samaritana ou de caído em
que houve proximidade, para se tornar o sacerdote e
o levita convictos de zelo. É necessário voltar à experiência
originária da minoridade como se deve voltar à experiência
da oração, da montanha, da contemplação. Para tanto,
talvez o fracasso, a falta de frutos, ou a falta de
reconhecimento e a ingratidão, tudo ajude. A dor de
ser D.Quixote, ou melhor, de perseverar junto ao crucificado
por um Reino de Deus que parece fracassar, é necessária
à minoridade.
De qualquer forma, na abundância ou na penúria, para
manter-se na reserva e na resistência a identificar
o serviço com o sucesso, há uma ajuda nova em nossos
dias. Em termos eclesiais, a intercongregacionalidade,
a colaboração com organizações cujas iniciativas são
de outros, ou ainda a colaboração com entidades e redes
que não portam uma marca registrada católica, que podem
ser ecumênicas, em que há membros de diferentes religiões,
ou simplesmente como iniciativas e entidades da sociedade
civil, tudo isso ajuda a nos colocarmos na nossa condição
de irmãos menores de todos, associados a um serviço
de muitos para um mundo de todos - o outro mundo possível.
Assis, 12 de março de 2004
Fr. Luiz Carlos Susin - Brasil
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Minoridade
e Itinerância dos Primeiros Capuchinhos |
Niklaus Kuster,
OFMCap.. |
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Introdução
Nenhuma reforma pode ser compreendida partindo de si
mesma. As reformas autênticas não seguem uma nova inspiração
fundamental, mas procuram viver com renovada energia
um modelo carismático dos primeiros tempos. Os movimentos
de reforma na Igreja ligaram-se muitas vezes e de boa
vontade ao ideal da primitiva comunidade cristã. As
reformas monásticas seguidamente procuraram transplantar
a regra beneditina no seu próprio tempo. Os grupos de
reforma franciscanos refazem-se decididamente na forma
radical de vida do Pobrezinho e dos seus primeiros companheiros.
Toda re-forma religiosa re-nova uma forma de vida inspirada
e inspiradora.
Que os Frades Menores superem numericamente
quanto a reformas todas as outras Ordens é motivado
essencialmente pelo radicalismo do Fundador e pela vitalidade
do seu movimento. Francisco é de algum modo vítima do
seu próprio sucesso, do momento que a vida peregrina
radicalmente evangélica de um pequeno grupo em breve
tempo agrupa centenas e milhares de novos companheiros.
Um movimento de milhares de pessoas deve ser organizado
e estruturado, necessita de casas e compromissos fixos,
entradas e formação. Em resumo: a forma de vida de um
pequeno grupo radical de frades carismáticos deve se
adaptar às necessidades de uma grande comunidade ou,
como disse Th. Desbonnets, a instituição inicial através
das crises de crescimento procurará as suas formas institucionais.
O historiador da Igreja de Mainz Isnard
W. Frank indicou corretamente o que aconteceu praticamente
com todos os movimentos carismáticos do século XIII
que, levados adiante por leigos, viviam antes de tudo
o Evangelho em pobreza. A Igreja e a sociedade cidadã
os transformaram em Ordens mendicantes, que se tornaram
assim pastoralmente e culturalmente úteis ao novo mundo
das cidades: como comunidade de sacerdotes cultos que
vivem em conventos urbanos e se dedicam ao apostolado
nas universidades e na sociedade. Grupos e novas Ordens
que não estiveram em grau de demonstrar uma sua "utilitas
pro Ecclesia" até 1274 foram todos abolidos no
II Concílio de Lion.
Os Franciscanos se distinguem de todas
as outras Ordens do século XIII que tiveram sucesso
pelo fato que, mesmo se também eles se deixaram transformar
numa Ordem mendicante clerical e nisso aceitaram o moderno
modelo de vida dos Dominicanos, todavia através da história
conservaram também o modelo pessoal do seu Fundador.
Frank fala de um ideal do Pobrezinho fundamentado na
pessoa e de um ideal dos Dominicanos fundamentado na
obra que, juntos, mas em recíproca tensão, guiam a história
dos Frades Menores. O radical retorno fundado na pessoa
provoca sempre de novo novas reformas, das quais a dos
Capuchinhos se revela a maior, a mais eficaz e a mais
duradoura.
Consideremos brevemente os três modelos
dominantes de vida religiosa que movimentaram o século
XIII e que explicam também a nossa história capuchinha.
Nisso a pobreza/minoridade e a itinerância têm autenticamente
o papel principal.
Os ideais de vida do
Mosteiro Medieval:
três formas fundamentais
Procura de Deus e estruturação do mundo
na espiritualidade monástica
dominicana e franciscana
Beneditinos-
Cistercienses:
mundus
Lugar: Abadia saeculum
Vida: vita stabilis – solidão, silêncio
Modelo: Primitiva comunidade de Jerusalém fuga
Dominicanos
- Lion 1274:
mundus
saeculum
Lugar: convento na cidade missio
Vida: vita pastoralis – dinâmica, comprometida
Modelo: ação dos primeiros Apóstolos em Jerusalém, Paulo
Franciscanos
até 1230/50:
solitudo saeculum
„ire per mundum“
Lugar: “todo o mundo é nosso mosteiro“
Vida: vita itinerans – vida itinerante, fraterna com
todos
Modelo: vida dos Apóstolos com Jesus através da Galiléia
O ideal clássico da vida radicalmente religiosa, que
no período carolíngio assume caráter de exclusividade,
orienta-se pelos Padres do deserto e pelo grande padre
do monacato Bento de Núrcia: procura de Deus longe do
"saeculum", do mundo agitado dos homens. A
"fuga mundi" é o único movimento externo que
ao mesmo tempo leva a uma "stabilitas" que
dura toda a vida: retiro na solidão, onde o monge vive
estável no mundo alternativo da sua abadia. As abadias
pretendiam ser uma "cidade de Deus" fechada
em si mesma, queriam fazer reviver a comunidade primitiva
e, ao mesmo tempo, anunciar a nova Jerusalém, longe
dos homens, em selvas silenciosas, em colinas solitárias
ou nos vales dos montes e dos rios.
Em contraste com o velho ideal monástico,
Domingos de Caleruega aceita positivamente o desafio
do mundo agitado dos homens e com os seus irmãos Pregadores
escolhe uma vida religiosa no meio dos homens: não se
distanciando da sociedade, mas radicado na nova realidade
da cidade. Os Dominicanos vivem em conventos ativos,
abertos em vez de fechados, contemplativas abadias,
e o seu ideal, além da comunidade primitiva, olha para
as ações dos Apóstolos depois de Pentecostes: ao invés
da procura individual da salvação e da procura de Deus
coletiva e fechada em si mesma no silêncio, os frades
Pregadores querem acompanhar a procura da salvação dos
homens, fundam novas estruturas urbanas de apostolado,
colocam o pé na Universidade, combatem contra movimentos
heréticos e desenvolvem a missão no espírito de Paulo.
No início da fraternitas Francisco
se opõe à tentativa da Cúria Romana de fazê-lo aceitar
para o seu grupo o modelo tradicional de vida religiosa:
vida longe do mundo de uma comunidade monástica ou uma
colônia de eremitas. Nos últimos anos de sua vida o
Pobrezinho se opõe decididamente à tentativa dos "fratres
sapientes" durante a crise de crescimento da jovem
Ordem de refugiar-se nas normas monásticas e nas "velhas
regras". E enquanto o Pobrezinho recusa ao mesmo
tempo às normas beneditinas e à regra agostiniana, na
realidade exclui para o seu movimento também o "caminho
dominicano".
Os primeiros franciscanos escolhem
uma vida que na sua inspiração primordial se distingue
tanto do modelo clássico dos monges como do novo modelo
dos dominicanos. Nem a vida da comunidade primitiva
de Jerusalém, nem a ação paulina, nem a procura de Deus
dos monges, nem o culto apostolado sacerdotal dos pregadores
inspira o movimento franciscano, mas a vida itinerante
dos Apóstolos que em pobreza atravessam com Jesus a
Galiléia: a pés descalços "seguindo os passos de
Jesus". Itinerância e pobreza de leigos e depois
também de sacerdotes "desclassificados" (Manselli),
que vivem o Evangelho com mãos vazias e se apresentam
como "subditi omnibus" como Jesus em caminho
a serviço dos homens que encontram.
O modelo franciscano primordial de
vida é muito bem descrito no testemunho de Jacques de
Vitry, que remonta aos primeiros tempos quando o novo
bispo francês, no outono de 1216 escreve que os "frades
menores" renunciam a toda riqueza, trabalhando
de dia nas cidades e de noite se retiram em lugares
solitários para dar espaço à oração: uma oscilação entre
o silêncio e a cidade que une dinamicamente "contemplatio"
e "actio". O primeiro olhar de Jacques de
Vitry todavia se engana num ponto: o modelo não é a
primeira comunidade de Jerusalém com as próprias casas
na cidade (At 2-6), mas o "estar em caminho"
nas "pegadas de Jesus (segundo Mc 10 e Mt 10).
O Sacrum Commercium completa dizendo que esses frades
são radicalmente sem casa: eles consideram a sua casa,
o seu campo de trabalho, e o seu convento, "todo
o mundo, a perder de vista“.
E, de fato, também Francisco não fala
mais de mosteiro ou de convento, mas somente de "lugares"
ou de "ermos", nos quais os frades vivem por
um período. Não fala mais de comunidade nem de "vita
communis" ou "stabilis", mas de frades
que vão pelo mundo: "stabilis" não é a sua
forma de vida, mas a sua esperança; e "communis"
não é o seu viver juntos, mas a sua vocação e o seu
Senhor, Cristo, que como Senhor e Deus de todos os homens
os torna irmãos de todos.
Assim a vida itinerante radicalmente
não organizada dos primeiros franciscanos reune:
- a fé no "communis Dominus omnium",
- que na Páscoa envia os apóstolos a anunciar o Evangelho
a todas as criaturas
- e que eles seguem com os pés nus em pobreza, pobreza
que ele viveu com eles, seus amigos, na Galiléia.
Por outro lado, o que pôde ser vivido
por um pequeno grupo de jovens leigos carismáticos exigia
muito de um movimento constituído de milhares de pessoas
– e também de uma sociedade que não estava pronta a
sustentar um crescente número de idealistas sem casa,
pobres mendicantes e dispostos a servir. Os frades tiveram
que se organizar e demonstrar-se úteis também como vasto
movimento.
O sucessor de Francisco, Frei Elias,
não pôde impedir que as comunidades que estavam se tornando
estáveis se orientassem, também estrutural e comunitariamente,
de acordo com o modelo dos monges: grandes conventos
urbanos tomaram formas monásticas, já a partir de 1230,
na vida de comunidade e na liturgia.
Porém, de modo mais positivo e característico
que o ideal monástico, guiará a organização e e a orientação
da Ordem Franciscana o autêntico modelo da moderna vida
religiosa que teve sucesso no século XIII. Isnard Frank
fala de uma "dominicanização" dos Frades Menores
que, no estilo de vida, nas atividades, na arquitetura,
nos estudos e nos meios de sustento se desenvolveram
até 1250 como Ordem gêmea dos dominicanos.
Ao mesmo tempo se faz viva uma primeira
oposição interna dos "frades zelantes" que,
na clericalização, urbanização e conventualização da
sua Ordem, vêem um declínio do ideal dos inícios: "zelus
religionis" e "observantia regulae sine glossa"
nos decênios e séculos vindouros se tornam os motivos
condutores de toda uma série de novas reformas que,
sempre de novo, de modo semelhante apresentam as exigências
de:
• sair das estruturas fixas dos grandes
conventos e da pastoral residencial
• distanciar-se das cidades, retirar-se nos ermos e
retornar a uma pastoral itinerante
• abandonar a liturgia de forma monástica e retornar
à essencialidade contemplativa, à simples oração coral
e ao silêncio pessoal
• deixar a pastoral fixa em concorrência "privilegiada"
com o clero secular e com os outros conventos dos mendicantes
em favor da pregação alternativa itinerante, dos serviços
caritativos e da pastoral entre a população abandonada
da campanha.
Os capuchinhos constituem não a primeira,
mas a última grande reforma que, no retorno às origens,
manifesta essas características típicas. Antes deles,
percorreram caminhos semelhantes os "zelantes"
e os Espirituais dos séculos XIII e XIV, a Observância
italiana e francesa dos séculos XIV/XV e as reformas
ibéricas até a de Juán de Guadalupe pelo ano 1500 (para
recordar somente os mais famosos movimentos de renovação):
– Êxodo das estruturas fixas,pesadas,
dos grandes conventos urbanos,
– Êxodo da segurança econômica de entradas certas e
de uma pobreza fictícia,
– Êxodo da pastoral residencial, fixa e privilegiada,
– Distanciamento das formas de vida e de oração de estilo
monástico-conventual,
+ Retorno à vida improvisada, insegura, dos pobres ermos,
+ Retorno às pequenas comunidades de 4-6, no máximo
12 frades,
+ Descoberta de novos desafios pastorais e sociais na
cidade e no campo,
+ Redescoberta da “minoritas“ como frades itinerantes
a serviço da gente simples.
Aquilo que animou cada reforma franciscana, move também
os pioneiros capuchinhos.
Antes de tudo quero mostrar visivelmente com algumas
imagens de quais realidades tome distância a reforma
capuchinha.
Diante do pano de fundo negativo (recusa, distanciamento,
saída, êxodo), nas considerações que seguem os elementos
fundamentais positivos das reformas franciscanas assumirão
traços ainda mais marcantes:
Série de imagens: Os franciscanos e
a cidade na tardia Idade Média
Já em 1228 os Frades Menores começam
a estabelecer-se em conventos urbanos e a assumir compromissos
pastorais fixos: a construção do Sacro Convento em Assis
e a aceitação das primeiras paróquias urbanas em Sena
e Florença (Santa Cruz) indicam o caminho de urbanização
da Ordem.
Pelo ano 1300 não existe mais nenhuma cidade européia
importante que não queira ter um convento franciscano.
Mapa
Presença dos Franciscanos
na Europa pelo ano 1300
Ilustrações: Gostaria de ilustrar brevemente lugares
e arquitetura
de conventos franciscanos concretos com exemplos da
Suíça,
onde os frades se encontram desde 1234.
Im. (= imagem) Em Friburgo vão habitar
um convento perto da igreja principal,
São Nicolau.
Im. Em Basiléia, depois de um tempo fora dos muros,
os frades foram morar na cidade,
onde o seu convento se tornou ponto de referência do
quarteirão:
Im. A mesma coisa pode ser constatada
em Berna,
Im. Lausanne,
Im. Schaffhausen,
Im. Solothurn e Lucerna.
Im. Em Lucerna a fundação do convento dos franciscanos
provocou um conflito
Com os velhos senhores da cidade, o mosteiro dos Beneditinos
em Hof:
não monges senhores sobre a colina em frente à cidade,
mas frades cultos
dentro dos muros correspondem às necessidades pastorais
e culturais
da burguesia emergente.
Im. O exemplo de Zurique ajuda a entender como os franciscanos
se
integrem bem com as outras ordens mendicantes na nova
cultura urbana.
Dominicanos, Agostinianos e Franciscanos tornam-se todos
ponto central
de um novo quarteirão e se colocam com boa subdivisão
na cidade nova ,
em expansão, circundando a velha cidade com a sua Abadia
de monja e a Catedral.
Im. Os franciscanos dispõem de uma
grande igreja segundo o modelo dos pregadores
Im. E vivem em um convento que, por dentro, assume claros
traços monásticos.
Arquitetura das ordens mendicantes:
grandes conventos e igrejas adaptadas à pregação nas
cidades
As reformas franciscanas na tardia Idade Média iniciam
sempre de modo símile:
êxodo de tais conventos, retiro em ermos rurais, retorno
à pobreza radical
e união entre silêncio e pastoral itinerante.
Os pioneiros da observância italiana sobem de Foligno
para o planalto pantanoso de Colfiorito
e trabalham a partir do ermo de Brogliano:
Im. A pobreza fala com o seu hábito
e em uma primeira fase se tem um
Radical silêncio no lugar da cidade (pastoral,
cultura e política urbana).
Im. Isso vale também para Bernardino
de Sena, que quer fazer seu noviciado num ermo e depois,
rapidamente, se torna um pregador itinerante:
Formação e proximidade ao povo – ermo e pobreza – silêncio
e pregação itinerante –
mística e cuidado dos empestados se fundem numa primeira
biografia,
como acontece para muitos elementos essenciais da mais
tardia reforma capuchinha:
Em 1400, ano do jubileu, Bernardino
abandonou os estudos para dedicar-se
à cura dos empestados na mortandade do ano do jubileu.
Tendo adoecido naquele outono, restabeleceu-se lentamente
na casa de um amigo
e sem terminar os estudos, decidiu fazer-se franciscano.
Entrou na Ordem Minorítica em Sena a 8 de setembro de
1402,
a pedido, passou o noviciado no ermo do Colombaio sobre
o monte Amiata.
Dois anos depois da vestição cantou a primeira missa
e fez o primeiro discurso.
Em 1405 torna-se guardião do novo convento observante
de Capriola.
Em 1408 iniciou o seu apostolado de pregador itinerante.
Pegou peste em Sena (1411), sarou graças à prima Tobia.
Feito provincial da Toscana e Úmbria (1414), vestiu
no Alverne Giacomo della Marca.
Em 1418 dois eventos o levam a plena luz:
pregou a Quaresma em Gênova e dois meses depois
fez o “discurso de ocasião“ no Capítulo Geral de Mantova.
A partir daí o pregador popular percorreu o norte e
o centro da Itália.
A sua excepcional eloqüência e a atualidade dos assuntos
tratados
deram-lhe grandes sucessos,
e a sua vida exemplar evocou altíssima estima no povo.
Im. (Veneza VI).
Vida no ermo e amor à pobreza – silêncio
e missão itinerante –
mística e empenho social serão colocadas juntas até
por uma das últimas reformas
que, de 1517 em diante, ajudará a escrever um pedaço
da história mundial.
Essa inicia nos ermos radicais da
estremadura espanhola
Ill. com Juan de Guadalupe pelos 1500 e caracterizará
de modo essencial o trabalho missionário no México conquistando:
Ill. Espanhóis e “conquistadores“/índios
A parte mais dinâmica dos Frades Menores
na Espanha, a da reforma de Frei Juan de Guadalupe,
via a sua missão claramente traçada na “vocação americanista“
de primeiro converter os índios, estes últimos gentios
até agora escondidos da impenetrável vontade divina
e cuja aparição era um sinal claro da chegada dos últimos
tempos
e depois explicar a sua origem, fundamentar a sua existência
e a sua sorte na Escritura.
O frade que em 1523 devia tomar a frente da famosa missão
dos “doze“ no México,
Frei Martín de Valência, tinha sido entre 1507 e 1516
um fervente adepto da reforma guadalupense.
A tarefa na América Central: evangelização das terras
descobertas, criar uma Igreja indígena
os futuros apóstolos do México são animados por uma
espiritualidade profética
impregnada das perspectivas escatológicas do joaquinismo.
A encarregar Frei Martín dessa missão histórica,
é um fervente adepto do “guadalupismo“ joaquimita, Francisco
de los Angeles (Quiñones).
Gráfico: “Reformas e Divisões”
A história das reformas franciscanas
podem ser descritas, com Duncan Nimmo,
nas três principais correntes seguintes:
o estilo de vida conventual que os
“Conventuais“ vivem nos grandes conventos
e que se caracteriza por fortes traços urbanos e monásticos;
a observância institucionalizada, na
qual, no fim, desembocam a maior parte das
reformas: essa une a vida de convento em conventos mais
simples com o apostolado no ambiente vizinho;
as reformas que se põem como radicais,
vivem longe das cidades e dos conventos
em pobres ermos e originalmente unem silêncio e pregação
itinerante.
Reformas e Divisões
Duncan NIMMO, Reform and Division in the Medieval Franciscan
Order
from Saint Francis to the Foundation of the Capucins,
Roma, 1987
Os Capuchinhos Pioneiros
Os movimentos franciscanos de reforma mais importantes
se caracterizam por:
– Êxodo das estruturas fixas, pesadas, dos grandes conventos
urbanos,
– Êxodo da segurança econômica de entradas certas e
de uma pobreza fictícia,
– Êxodo da pastoral residencial, fixa e privilegiada,
– Distanciamento das formas de vida e de oração de estilo
monástico-conventual,
+ Retorno à vida improvisada, insegura,
dos pobres ermos,
+ Retorno às pequenas comunidades de 4-6, no máximo
12 frades,
+ Descoberta de novos desafios pastorais e sociais na
cidade e no campo
+ Redescoberta da "minoritas" como frades
itinerantes a serviço da gente simples.
Esses elementos corrigem um deslocamento de acento,
que desde 1228 tinha aproximado a Ordem Franciscana
ao modelo de sucesso dominicano:
tornar ao radicalismo inicial significava voltar do
Modelo 2 ao Modelo 1:
Modelo 2:
Dominicanos
- Lion 1274:
mundus
saeculum
Lugar: cidade missio
Vida: vita pastoralis – dinâmica, comprometida
Modelo: ação dos primeiros Apóstolos em Jerusalém, Paulo
Modelo 1:
Franciscanos
até 1230/50:
solitudo saeculum
„ire per mundum“
Mateus de Bascio como precursor colocou
o acento um pouco mais no “ire per mundum“ e por isso
sobre uma insegura oscilação entre silêncio e gente
de campo e de cidade;
os irmãos Tenaglia dão a máxima importância, como inspiradores
da reforma, ao “ermo“.
Mas, por outro lado, um e outros se distinguem pela
fixação em ermos rurais
e a vizinhança ao povo socialmente e pastoralmente empenhada
(pregação itinerante, assistência aos empestados).
Respingos: dos conventos nos ermos
(cidade > campo)
Vida itinerante, solidariedade com a gente simples,
pregação popular
Itinerário de Mateus de Bascio e dos
irmãos Tenaglia de Fossombrone 1525-1526
O caminho dos três frades mostra
- o êxodo dos grandes conventos observantes da sua província
seguido
- de um dramático período de perseguição (Jesi/Forano
+ Cingoli/Cuptamontana)
- a residência em ermos com característica franciscana
(silêncio aberto ao mundo),
- e nesse seu itinerário unem “solitudo“ e “solidarietas“
O seu primeiro serviço aos empestados
libera Mateus da prisão conventual de Forano.
Como eremita em Cerreto ou como pregador itinerante
em Fabriano compra um boi
Que oferece aos pobres famintos e aos sem-teto na cidade
vizinha.
Ludovico e Rafael es colhem o seu ermo
perto da segunda grande cidade, residência da
duquesa Catarina Cibo. A escolha do lugar – silêncio
perto da cidade em pobres ermos – é
própria do franciscanismo das origens: Carceri, Montecasale,
Celle, Poggio Bustone, Monteluco, Sant’Urbano! Por outro
lado, também esses testemunham a proximidade ao povo
e a
radical solidariedade, especialmente nos novos anos
de peste em Camerino nos anos 1528-29 (Frati Cappuccini
2904-2905).
A “minoritas” que, renunciando às estruturas conventuais,
à segurança comunitária e aos privilégios do apostolado,
vive sem proteção em ermos rurais e, assim fazendo,
desenvolve
uma nova proximidade e solidariedade com o povo do campo
e na cidade, em Mateus se
une ao zelo do pregador itinerante de penitência. A
sua pregação sobre o inferno, que João
Miccoli chama uma “pregação terrorístico-penitencial“,
testemunha o estreito contato com
Todos os estratos e grupos sociais (Frati Cappuccini
5605-5614). A sua crítica é
uma batalha pela justiça e se endereça sem medo contra
as patifarias de toda a espécie,
atinge ricos sem escrúpulos, comerciantes desonestos,
taberneiros enganadores,
moleiros, padeiros, usuários...
In die Hölle, all ihr Sünder, A l’inferno,
peccatori,
Bösewichter, in die Hölle! Scelerati, al grande inferno;
´Gutes tun?` Darüber lacht ihr, Ch’el ben far avete
a scherno,
ganz verstockt in eurem Irrtum. Ostinati ne gli errori.
Gottes heil’ge grosse Allmacht La divina alta potenza,
heilig, richtig, fromm, bescheiden Santa, giusta, umile
e pia
will, dass ich nicht habe Rücksicht Non vuol ch’abbi
riverenza
vor den Menschen aller Arten; Né rispetto ad uom che
sia
dass ich rufe allentwegen Ma chi esclami tutta via,
und den bösen Sünder tadle. E riprenda il rio peccato.
Und darum nach allen Seiten E per questo in ogni lato
sage ich den bösen Scharen: Vo dicendo a gl’empi cori:
In die Hölle ...! A l’inferno, peccatori!
In die Hölle, böser Schurke, A l’inferno tu, ribaldo,
ungerechter, böser Spitzbub, Scelerato, iniquo e rio,
der du fluchest allzeit heftig, Che bestemmi ognor sí
caldo
deinem Herrn, dem guten Gott. Il Signor tuo dolce Iddio
der zu dir so gütig war, Che ver tu fu cosí pio
du zu ihm so grausam bist. Tu ver lui sí crudel sei;
Den du lieben, fürchten müsstest, Quel ch’amar e temer
dei
zu ihm fluchst du und entehrst ihn. Tu ’l bestemmi e
disonori.
In die Hölle...! A l’inferno, peccatori!
In die Hölle, wer die Arbeit A l’inferno chi lavora
tut an Festen, heil’gen Tagen, Ne’ festivi e santi giorni,
der durch Sünd’ an diesen Tagen Ch’in quei dí peccando
ognora
Gott verachtet und beleidigt. A Dio fa mill’onte e scorni;
Der im Hass allzeit verbleibet Che ne gli odi ognor
soggiorni,
und den eig’nen Bruder tötet, E occide il suo fratello;
wer zu seinen eig’nen Eltern Chi sia crudo, empio e
ribello
grausam und rebellisch ist. A’ suoi dolci genitori.
In die Hölle...! A l’inferno, peccatori!
In die Hölle, böse Weiber, A l’inferno, o donne rie
die ihr glättet euer Antlitz, Che la faccia vi lisciate,
das, was Gott mit guten Händen Quel ch’Iddio con le
sue pie
hat gemacht, das ruiniert ihr. Mani ha fatto, voi guastate;
Und dann tragt ihr noch die Locken, E li rizzi ancor
portate
an Ohren diese Spangen, E a l’orecchie i bei pendenti;
geht einher mit diesen Salben, Gite ancor piene d’unguenti,
parfümiert und unnütz duftend. Di profummi e vani odori.
In die Hölle...! A l’inferno, peccatori!
In die Hölle, ihr, ihr Mächt’gen, A
l’inferno, o voi potenti,
ihr das Szepter habt in Händen: Que lo scetro avete
in mano,
Den Unschuld’gen unterdrückt ihr, Ch’affligete gl’innocenti
liebt, wer weltlich ist und schuldig. E amate il reo
profano.
Unser Herr, der sieht von weitem, Il Signor che da lontano
wie die Waage neiget sich, Vede pender le bilancie,
wird ins Angesicht euch schlagen, Percotendovi le guancie,
sagen: Herren! Ungerecht und schuldig! Dirà: Ingiusti
e rei signori;
In die Hölle...! A l’inferno, peccatori!
In die Hölle, ihr, ihr Händler, A l’inferno voi, mercanti,
denen Gold der wahre Gott ist; Poi che l’oro è ’l vostro
Dio;
der Meineide schwört ihr so viele, Per un soldo fate
quanti
wie sonst nie ein Mensch geschworen; Spergiur mai trovò
l’uom rio;
Euer Wunsch ist nur gerichtet Volto è sol vostro desio
auf Betrug und Wucher. A l’usure e a gl’inganni.
Allen sag ich’s, euch Tyrannen, Dico a voi ancor, tiranni,
Geldverleihern und Betrügern. Banchier empi, ingannatori,
In die Hölle...! A l’inferno, peccatori!
In die Hölle, ihr Handwerker, A l’inferno, o artigiani,
die ihr raubt in euren Künsten. Che rubate in le vostre
arti.
Müller, du, mit Krallenhänden, Tu, mugnaio, ch’hai le
mani
gibst dir selber doch die Teile; A unzin, ti fai le
parti;
wie gedenkst du, dich zu retten, Come mai pensi salvarti,
auch noch du, du falscher Bäcker, Ancor tu, fornaio
ingiusto,
der das Brot nur halb gebacken, Ch’el pan fai malcotto
e a giusto
und Gewicht nie recht berechnet? Peso mai non lo lavori?
In die Hölle...! A l’inferno, peccatori!
In die Hölle, ihr ruchlosen Wirte, A l’inferno, iniqui
ostieri,
die ihr Wasser für Wein verkauft; Che vendete acqua
per vino;
die ihr die fremden Gäste beraubt, Che rubate i forestieri,
und auch noch den Nachbarn betrügt, Ingannando anco
’l vicino,
Gibt man beim Zahlen eine Münze, Se pagar si de’ un
quattrino,
wollt’ ihr sechs und sieben davon; Ne volete sette e
otto;
Doch euch wird die Zeche einmal Ma vi fia pagato il
scotto
besser bezahlt als allen anderen: Meglio poi da gl’altri
cori.
In die Hölle...! A l’inferno, peccatori!
Tue Gutes, deshalb jeder, Faccia bene, dunque, ciascuno
wer will kommen in den Himmel, Che vuol ire in paradiso,
vor dem Bösen sich bewahre, E dal mal guardisi ognuno
das der Hölle vorgehalten. Ch’in l’inferno e sia conquiso,
Froh wird Gott den Guten lohnen, Perché Dio con lieto
viso
doch den Bösen wird er drohen; Premia i buoni, e rei
minaccia;
Guten ist er gut, doch Böse, Gli è ben pio, ma poi discaccia,
wie’s gerecht ist, jagt er fort. Come giusto, i mal
fattori.
In die Hölle...! A l’inferno, peccatori!
Nos anos sucessivos da reforma capuchinha a pregação
itinerante é desenvolvida não só
por uma série de pregadores populares bem formados,
alguns dos quais bem conhecidos,
que em radical pobreza atravessam cidades e vilas da
Itália, mas também por frades leigos
como Egidio de Orvieto, que, sem querer, prega por um
tempo perto de Roma, num
vilarejo pastoralmente esquecido (Frati Cappuccini 2883).
Diferentemente dos Conventuais e também dos Observantes
estabelecidos nos conventos,
os primeiros pregadores capuchinhos se caracterizam
não somente pela
sua nova proximidade ao povo, mas também
- pelo seu ambiente de vida
pobre de modo humilhante
- pela solidariedade vivida e
compromisso com os pobres,
os doentes e os necessitados
- pela conexão entre formação
e dignidade sacerdotal e o
trabalho manual e sujo
- pelo genuíno, prático anúncio
do Evangelho que se nutre
através da meditação bíblica
num silêncio aberto ao mundo
Quando com o rápido crescimento da
reforma os eremitas improvisados não são mais
suficientes, os capuchinhos optam por uma arquitetura
conventual mísera que se volta
aos primeiros ermos franciscanos como Montecasale e
as Celle de Cortona
(que passam, ambas, à reforma) ou os Carceri e Sant’Urbano
em Narni.
Imagem: Convento capuchinho dos primeiros
tempos
Sobre o contexto social da reforma capuchinha
Toda a reforma responde às necessidades do seu tempo.
Os primeiros capuchinhos não imitam só um modelo de
vida
que se desenvolveu na vizinha Úmbria por volta de 1210
e se conservou.
Os autênticos reformadores traduzem no presente o modelo
no qual se inspiram –
e ao mesmo tempo o tornam inspirador na sua própria
sociedade e igreja.
O contexto de tempo e – se quiserem – o ‘Sitz im Leben’
dos primeiros capuchinhos
é um tempo de crise para a Itália central e a Marca
de Ancona por volta de 1520.
Sintetizo aqui o quadro com o qual
Callisto Urbanelli descreve a situação político-social
e
eclesiástico-religiosa que em 1525 se encontra nas Marcas,
teatro da reforma capuchinha.
A Marca de Ancona está com direto controle
da Igreja (Província do Estado e da Igreja),
enquanto o ducato de Urbino é um estado autônomo vassalo
da Igreja.
Até 1810 os dois territórios estão politicamente separados,
Mas formam uma unidade geográfica, étnica e lingüística.
Do ponto de vista jurídico Ancona e Urbino desde 1300
são claramente vizinhos:
em 1357 o Cardeal Egidio Albornoz convoca em Fano o
"Parlamento das Marcas",
que aprova as "Constituições Egidianas" (em
vigor até 1800).
Camerino é teatro de intrigas e de
lutas, nas quais estão implicados os príncipes da Igreja:
1259 O rei Manfredi destrói a cidade guelfa.
Gentile de Varano a reedifica e funda uma ‘Signoria’
(que dura 300 anos).
1500-03 Cesare Borgia, filho do Papa Alessandro VI aspira
a uma
grande Signoria que compreende as Marcas e a Romana.
A sua política de potência leva a carnificinas também
nas Marcas... Giovanni
Maria de Varano reconquista o poder em 1503 e se torna
duque em 1515.
1516-20 Campanhas militares entre os Rovere e os Medici
pela vizinha Urbino...
1527 ... e depois da morte de Giovanni Maria de Varano
por Camerino.
1532 As tropas pontifícias conquistam Ancona, até então
autônoma.
1534-38 Senhorio de Guidobaldo II de Rovere sobre Urbino-Camerino
depois que
Catarina Cibo lhe tinha dado por esposa a filha Giulia.
1540-45 Senhorio dos Farnese (Paolo III dá Camerino
ao neto Ottavio)
depois direto senhorio dos Papas por meio de um legado
ou de um cardeal.
De 1530 a Itália vive um período de decadência, de empobrecimento
econômico, de
taxas opressoras, estagnação cultural, crescente provincialismo,
e de uma "perversão geral dos costumes".
Nas Marcas, com o fim das guerras, dá-se um rápido desenvolvimento
das estruturas comunais, um florescente comércio nas
cidades portuárias e no campo
e o surgir de instituições culturais.
Classes Sociais: No campo, onde os
primeiros capuchinhos procuraram os seus ermos,
vive a mais baixa e pobre camada da população:
famílias de agricultores (a Marca de Ancona é terra
agrícola!)
que conduzem uma vida dura e insegura,
vivem em casas instáveis de pedra e argila ou de palha
e barro
que possuem só um andar com uma pequena cozinha e dois
quartos.
Muitos agricultores são analfabetos, excluídos da vida
burguês das vilas
e das pequenas cidades e isolados.
A vida da Igreja, além da família,
oferece a única experiência de comunidade.
A extrema miséria causa rebeliões contra a cidade (Ancona
1552).
Os capuchinhos ganham a simpatia da população do campo
com a
sua aproximação e com a ajuda espiritual e material.
A população da cidade se subdivide
em classes e castas diferentes
segundo a profissão, a riqueza e o prestígio.
Os artesãos conduzem uma vida modesta,
a pequena nobreza tem a administração pública das cidades
do campo.
A classe burguesa nas cidades maiores cresce, forte
de capital, para
tornar-se a classe economicamente dominante, enquanto
a nobreza citadina controla o governo e fornece os magistrados
junto aos capitães
(com sempre maior participação da classe burguesa).
Moral pública e O século XVI é um período
de agitação (econômica, política, social).
privada A crise cresce na tardia Idade Média afeta a
religião e a moral. A
religiosidade medieval perde força de convicção, a igreja
oficial
está envolvida com o poder (apelos ineficazes de renovação),
se
difunde um banditismo desenfreado com bandos armados
de bandidos
e nas cidades conflitos internos levando a assassinatos.
A fraqueza
da justiça faz crescer uma criminalidade difusa. Tropas
mercenárias
de passagem repetidamente ajudam o embrutecimento: em
1517
a serviço de Nápoles contra Leão X, em 1520 para o bispo
de Jesi.
Um relativo bem estar difunde bens
de luxo nas classes sociais mais altas. Os carnavais
se tornam custosos, os jogos de azar (dados e
cartas) aumentam. As autoridades combatem (decretos
contra os
excessos), os pregadores de penitência criticam o desperdício
e
defendem os pobres. Há muitos adúlteros, crianças ilegítimas
batizadas com orgulho. Há prostituição, “mulheres caídas”
socialmente excluídas.
A família está sob o senhorio do pai, enquanto a mãe
toma conta
dos fundamentos religiosos dos filhos.
A corte dos Da Varano em Camerino
dá de comer a 300 por dia e
distribui esmolas aos pobres. Também os conselheiros
da cidade
e os particulares vêm ao encontro necessitados materiais
do lugar.
O clero O alto clero vê irem e virem dignitários de
todo tipo. Girolamo
Granderoli, neto de Paulo III e bispo de Ancona 1538-50,
deixa um
exemplo lastimável e é afastado do cargo. Seu sucessor
Vincenzo de Lucchis (1556-85) se distingue pelo zelo
religioso e pelo empenho em favor da liberdade da Igreja.
Bom pastor
é o bispo Berardo Bongiovanni de Camerino (1537-74),
menos, porém,
o seu predecessor e tio Giovanni Giacomo Bongiovanni
(1509-35). Na
Marca de Ancona, um problema pastoral de fundo está
no fato que
os dignitários da Igreja exercem em primeiro lugar o
poder político. O
cuidado das almas é secundário (escolha unilateral dos
candidatos!).
É necessária uma reforma pastoral no s. XVI especialmente
no campo.
O baixo clero é degenerado e dá muito
motivo a críticas.
Muitos párocos levam uma vida pouco edificante, perseguem
desenfreadamente interesses materiais e mundanos, mostram
pouco zelo pastoral e têm uma formação muito reduzida.
A duquesa Catarina Cibo em abril de 1532 se dirige a
Clemente VII
a fim de que ponha fim a diversos abusos do clero da
sua cidade. O
Papa, através do bispo Giovanni Giacomo Bongiovanni,
ordena ao
clero de usar hábito talar, de não fazer jogos de azar,
de ficar
longe das mulheres e de não blasfemar.
A prática cristã A religiosidade atravessa a vida privada
e pública do povo. As
do povo autoridades punem as faltas em relação à observância
do domingo
e das festas. As ações começam com invocações a Deus
e/ou aos
santos. A piedade pública se estende sobre as praças
e igrejas.
O centro de peregrinação de Loreto
promove a freqüente confissão e
comunhão. A atividade da pregação está especialmente
nas mãos das
Ordens que começam também as primeiras tentativas de
catecismo, de
modo a elevar o bem modesto nível de consciência religiosa
da gente.
Assim, em 1557 chegam a Loreto peregrinos que não conhecem
Jesus
nem o sinal da cruz! As hospedarias acolhem peregrinos
e doentes nas
grandes e pequenas cidades. “A heresia protestante não
teve força”: só infiltrações superficiais.
Nesse panorama a localização dos primeiros
oito lugares capuchinhos parece muito significativa:
dos montes sibilinos à costa, pelos eixos principais
dos percursos, enraizados no campo
e muito próximos ao povo campo do ponto de vista das
construções, mas ao mesmo tempo
nas zonas periféricas das cidades de forma que a pastoral
itinerante pudesse alcançá-las.
Estrutura Social na tardia Idade Média
e no primeiro período da Idade Moderna
A burguesia das cidades
quebra a ordem alto-medieval das três classes
Classe de
agricultores
Pobres
Colocação social da primigênia
Fraternidade Franciscana
“Minoritas” no sentido de abaixamento social:
os frades vivem como os mendicantes e os agricultores
a serviço das pessoas de todas as classes
Antes de considerar mais de perto as fontes mais importantes,
é bom dialogar juntos
sobre os pontos característicos vistos acima das reformas
franciscanas tendo presente
o pano de fundo social, político e eclesial ora descrito.
– Êxodo das estruturas fixas, pesadas, dos grandes conventos
urbanos,
– Êxodo da segurança econômica de entradas certas e
de uma pobreza fictícia,
– Êxodo da pastoral residencial, fixa e privilegiada,
– Distanciamento das formas de vida e de oração de estilo
monástico-conventual,
+ Retorno à vida improvisada, insegura,
dos pobres ermos,
+ Retorno às pequenas comunidades de 4-6, no máximo
12 frades,
+ Descoberta de novos desafios pastorais e sociais na
cidade e no campo
+ Redescoberta da "minoritas" como frades
itinerantes a serviço da gente simples.
Temas principais emersos da discussão:
Fontes da Reforma Capuchinha
O estudo dos textos fundamentais da
Ordem, como também das
suas crônicas, que lhe constituem uma defesa, e da literatura
espiritual própria dos
capuchinhos, dá a entender a clara direção:
através das fontes franciscanas e Francisco
retorno ao Evangelho
praticamente à vida itinerante segundo o modelo dos
Apóstolos com Jesus
Muito sugestivas nesse sentido são as seções introdutórias
das Constituições de 1535/36,
que encontram uma síntese feliz entre o amor à contemplação
e o apostolado pastoral –
nos meses que vêem os dois pioneiros da reforma, possuídos
pelo seu extremismo, ou sair
(Mateus de Bascio continua pregador itinerante individual
até sua morte em Venezia)
ou ser excluídos (Ludovico de Fossombrone morre como
servo em uma Cartuxa).
n. 1 Doutrina e vida de Jesus Cristo
151 Antes de tudo, quanto ao primeiro
capítulo da Regra, ordena-se que, uma vez que a evangélica
doutrina, toda pura, celeste, sumamente perfeita e divina,
trazida do céu para nós pelo dulcíssimo Filho de Deus
e por Ele mesmo promulgada e ensinada por obras e palavras;
[...] ensina-nos e nos mostra o caminho direto para
ir a Deus. Mas também todos os homens são obrigados
à sua observância, máxime os cristãos que a prometeram
no sagrado batismo, e tanto mais nós frades, pois São
Francisco, no começo e no fim de sua Regra faz expressa
menção da observância do sagrado Evangelho; e sua Regra
não é outra coisa senão a medula do Evangelho; pelo
que também disse no seu Testamento que lhe tinha sido
revelado que devia viver segundo a foram do santo Evangelho.
Entretanto, para que os frades tenham sempre diante
dos olhos de sua mente a doutrina e vida de nosso Salvador
Cristo Jesus, e para que, [...] carreguem sempre dentro
de seu coração o Evangelho sagrado, ordena-se que, por
reverência da altíssima Trindade, leia-se em cada local,
três vezes por ano, os quatro Evangelhos, isto é, um
cada mês.
n. 2 A Regra, espelho do Evangelho
152 E porque a Regra de São Francisco
é como um pequeno espelho no qual reluz a evangélica
perfeição, ordena-se que se leia todas as sextas-feiras
em cada local, distintamente e com a devida reverência
e devoção, para que, impressa em nossas mentes, possa
observar-se melhor. Leia-se também alguma devotíssima
lição para os frades, exortando-os a seguir Cristo crucificado.
n. 3 Falar sempre de Deus e abolir
leituras vãs
153 Os frades também se esforcem sempre
por falar de Deus, pois isso ajuda muito se inflamar
no seu amor. E para que a doutrina evangélica possa
frutificar em nossos coros, para extirpar toda cizânia,
que poderia sufocá-la, ordena-se que em nossos locais
de modo algum sejam mantidos livros não úteis ou vãos,
perniciosos ao espírito de Cristo, Senhor e Deus nosso.
n. 4 Ler e estudar a palavra de Deus
154 E porque as chamas do amor divino
nascem da luz das coisas divinas, ordena-se que se leia
qualquer lição das sagradas Escrituras, expondo-a com
santos e devotos doutores. E embora aquela sabedoria
infinita, divina, seja incompreensível e alta, todavia
em Cristo nosso Salvador abaixou-se tanto que sem outro
meio, com o olho puro, simples, columbino, e limpo da
fé, os simples e idiotas possam entendê-la [...]
n. 5 Observância da Regra
155 E porque não foi só vontade de
nosso pai São Francisco, mas também de Cristo nosso
Redentor, que a Regra fosse observada simplesmente,
à letra, sem glosa, como a observaram aqueles nossos
primeiros padres seráficos; e como a nossa Regra é claríssima,
para que seja observada mais pura, santa e espiritualmente,
renuncia-se a todas as glosas e exposições carnais,
inúteis, nocivas e relaxantes, […]. E aceitamos como
um singular e vivo comentário da nossa Regra as declarações
dos sumos pontífices e a santíssima vida, doutrina e
exemplos do nosso pai São Francisco.
n. 6 Testamento de São Francisco
156 E para que, como verdadeiros e
legítimos filhos de Cristo, nosso Pai e Senhor, dados
à luz por ele mais uma vez em São Francisco, sejamos
participantes de sua herança, ordena-se que por todos
seja observado o Testamento de nosso pai São Francisco,
ordenado por ele quando, próximo à morte e marcado pelos
sagrados estigmas, cheio de fervor e Espírito Santo,
anelava sumamente pela nossa salvação. E nós o aceitamos
como glosa espiritual e exposição da nossa Regra como
foi por ele escrito para esse fim, para que se observasse
melhor e catolicamente a Regra prometida.
Até, porque somos tanto mais filhos do seráfico pai
quanto imitamos sua vida e doutrina, pelo que o nosso
Salvador disse aos hebreus: “Se sois filhos de Abraão,
fazei as obras de Abraão” (Jo 8,39) assim, se somos
filhos de São Francisco, façamos as obras de São Francisco.
Mas ordena-se que cada um se esforce por imitar esse
nosso pai, dado a nós como regra, norma e exemplo, e
mesmo nosso senhor Jesus Cristo nele, não só na Regra
e no Testamento, mas também em todas as suas ardorosas
palavras e amorosas obras: portanto leiam-se muitas
vezes a sua vida e a de seus companheiros.
n. 7 No último lugar
157 E porque o nosso pai, todo divino,
contemplava Deus em cada criatura, máxime no homem e
principalmente no cristão, mas, sobretudo nos sacerdotes
e singularissimamente no sumo pontífice, que na terra
é vigário de Cristo nosso Senhor e cabeça de toda a
Igreja militante; por isso quis, segundo a doutrina
apostólica, que os seus frades, por amor daquele que
se esvaziou por nosso amor, fossem sujeitos a Deus em
todas as criaturas; pelo que chamou-os de frades menores,
para que, não só com o coração se reputassem inferiores
a todos, mas até, convidados na Igreja militante para
as núpcias do santíssimo esposo Jesus Cristo, procurassem
estar no último lugar, segundo o seu conselho e exemplo.
n. 8 Renúncia à isenção dos ordinários
158 Entretanto, considerando que a
liberdade que se tem para os privilégios e isenções
de não ser submetidos aos ordinários, não só é a soberba
próxima, mas inimiga da humilde e minorítica sujeição,
e muitas vezes, perturbando a paz, gera escândalo na
Igreja de Deus; por isso, para nos conformarmos ao humilde
Cristo crucificado, que veio para nos servir, feito
obediente até a áspera morta da cruz, [...] para evitar
o escândalo renuncia-se por parte do capítulo geral
aos privilégios de ser livres e isentos dos ordinários.
E aceitamos como sumo privilégio, com o seráfico pai,
ser submetidos a todos.
E ordena-se que todos os vigários, em suas províncias,
vão a seus ordinários diocesanos e ordinários, que são
membros humildemente submissos ao romano pontífice,
que é cabeça e superior de todos. E humildemente, por
si e por todos os seus frades, ofereçam-lhes obediência
e reverência em todas as coisas divinas e canônicas,
cedendo todo privilégio que fizesse o contrário.
Fontes Franciscanas do primeiro século
citações, acenos, comentários (segundo o índice analítico
de Frati Cappuccini V 602-604):
Autor Obra I II III IV V Total
Francisco 264
Adm
Cant
1Ct
7Ct
6Ct
3Ct-a
4Ct-a.b
2Ct
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23
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7
5
2
3
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2
87
43
9
75
1
3
1
6
4
1
3
3
8
1
1
16
8
15
1
1
19
4
10
2
30
6
3
10
5
2
6
1
8
2
1
1
125
55
9
103
1
Tomás
de Celano 169
1Cel
2Cel
3Cel
19
105
1
1
9
9
13
2
2
8
31
135
3
Espelho de 158
Perfeição
Sp
122
14
13
9
158
Boaventura 149
LM
Lm
129
2
6
8
2
2
145
4
Legenda 105
Perusina
LP
81
8
10
6
105
Três Companheiros 36
3S
28
3
5
Fioretti 41
Fior
24
5
11
1
41
Giuliano 3
de Spira
Off
Spir
2
1
3
Actus beati 2
Francisci
Actus
2
2
Legenda 1
Antiga
1
1
Nota: O índice contém cerca de 1.000
páginas a respeito das quatro partes com indicações
das fontes,
sem todavia ser completo e sem excluir as numerosas
indicações de uma mesma obra que se
têm na mesma página. O gráfico seguinte apresenta, portanto,
só as tendências:
Fontes Franciscanas do primeiro século
citações, acenos, comentários (segundo o índice analítico
de Frati Cappuccini V 602-604)
Fontes Bíblicas da Reforma Capuchinha
citações, acenos, comentários (segundo o índice analítico
de FC V 27-100). Gal 2,20 2x Rekordvers!
AT NT
Gen 252 Mt 1074
Ex 167 Lc 835
Lev 32 Mc 276
Num 37 Jo 734
Dt 65
Js 4 Ap 145
Jz 24
Rt 3 Rm 308
Sm 73 1Cor 273
Rs 55 2Cor 158
Cr 21 Ef 104
Ne 2 Fl 122
Tob 17 Cl 100
Jt 11 Gal 133
Est 13 1Ts 25
Mc 11 2Ts 6
Jó 87 1Tm 60
Sl 882 2Tm 33
Pr 112 Tit 15
Ecl 35 1Pd 101
Ct 164 2Pd 20
Sb 57 Hb 135
Eclo 114 Tg 65
Lm 30 1-2 Jo 72
Is 325 Jd 2
Jr 73
Ez 68 Ap 130
Dn 31
ProfMen 82 Total: 2847 Total: 4926
Missio apostolorum
Lc 9, 1-11
2 E os enviou
a pregar o Reino de Deus
e a curar.
3 E disse-lhes: Não levem nada para
o caminho: nem bastão, nem sacola, nem pão, nem dinheiro,
nem duas túnicas.
4 Em qualquer casa onde vocês entrarem,
fiquem aí, até vocês se retirarem do lugar.
5 E todos aqueles que não os acolherem,
vocês, ao sair da cidade,
sacudam a poeira dos pés, como protesto contra eles.
6 Os discípulos partiram,
e percorriam os povoados, anunciando a Boa Notícia,
e fazendo curas em todos os lugares.
Partida de Cafarnaum:
Mc 1,35-39
35 De madrugado, quando ainda estava
escuro, Jesus se levantou e foi rezar num lugar deserto.
36-37 Simão e seus companheiros foram
atrás de Jesus e, quando o encontraram, disseram: Todos
estão te procurando.
38 Jesus respondeu: Vamos para outros
lugares, às aldeias da redondeza.
Devo pregar também ali, pois foi para isso que eu vim.
39 E Jesus andava por toda a Galiléia,
pregando nas sinagogas e expulsando os demônios.
Missio apostolorum
nas Fontes Capuchinhas
Constituições de Roma 1536 I 413
Comentário anônimo, 1600 I 785
Giovanni Maria Bruno de Tusa
Exposição da Regra, 1570/80 I 866
Francesco Visani de Fognano
(+1579) “Discursos e Orações da Alma“ III 644
Girolamo Mautini de Narni
(1560-1632) conselheiro de Gregório XV.
pregador clássico capuchinho III 2870
Constituições de Roma 1536 I 417
Silvestro Franco de Rossano III 861
Pregador popular (+1596)
„Modo di orare“, cit. contro la simonia
Atos do Concílio de Trento II 331
bispos: sinal dos pregadores capuchinhos
Alessio Segala de Salò III 1611
(1559-1628)
Coroa celeste:
365 meditações sobre a vida de Jesus
Constituições de Roma 1536 I 318
Saudação evangélica cf. Testamento
Giovanni Maria Bruno de Tusa
Exposição da Regra, 1570/80 I 830
Bernardino Ochino II 260
em Vittoria Colonna
Carta de Florença 22-8-1542
chamado a Roma vai para a Suíça
Ezechiele de Bagnolo Cremasco III 4555
Relatório sobre as missões da Rezia
1633, Schuol: disputas com os protestantes
Giovanni Maria Bruno de Tusa I 881
Francesco Visani de Fognano III 650
Gregorio de Napoles (+1601) III 990
„Dottrina mirabile“ (literatura espiritual)
Giuseppe de Leonessa III 2599
Pregação sobre São José (as suas virtudes)
Carta ao Papa III 4189
Processo de canonização III 4740
Honoré Bochard de Champigny IV 251
„Académie évangélique pour l’instruction
spirituelle de la jeunesse religieuse“ 1622
Carta sobre as missões III 4224
ao Cardeal Aldobrandini 1603
Frans Tittelmans ab Hasselt III 252
“Tratado das Meditações“ 1528/48
Francesco Visani de Fognano III 650
Ezechiele de Bagnolo Cremasco III 4523
Missão na Rezia
Constituições 1536-1643 I 451
Zaccaria Boverio de Saluzzo I 1837
„De sacris ritibus“ (Cerimonial 1626)
sobre os pregadores
Bernardino Ochino de Sena III 2151
Homilia em Luca 1538
Giovanni Maria da Tusa, III 2417
Pregação sobre o Jejum
Relatório sobre as missões III 4287
do Piemonte
Consuetudini nos “Livrinhos da Regra“
I 1589
Giovanni Romeo de Terranova (+1573)
II 1291
Pequena Crônica “Historia sagra Mare Oceano“
Bonaventura Campagna de Reggio II 1346
“Crônica Capuchinha“
Girolamo de Napoli II 1857:
Giovanni Pili de Fano “Arte da união“
III 367
Francesco Visani de Fognano III 650
Mario de Mercato Saraceno III 2344:
Pregação sobre o Jejum (1553 ca.)
Bernardino Ochino III 2968
Pregação Quaresmal em Sena, carta II 260
Joseph Leclerc de Tremblay IV 313
Francesco Visani de Fognano III 650
Michelangelo dae Veneza (+1611) III
1298
Pregador popular, “Faixa de mirra“
para meditar a Paixão
Giorgio de Veneza I 1310
Retrato do mestre de noviços
Paolo Manassei de Terni
Missionário na Rezia, (1587-1632)
Paraíso interior (obra espiritual) III 1370
Ezechiele de Bagnolo Cremasco III 4559
Marino de Calvagese: III 4573
Sobre a missão em Rezia
Nathanael de Pontoise: IV 158
Carta a Clemente VIII., 1595
Tommaso de Olera
Carta 1622 III 1551
Anselmo Marziati de Monopoli III 2743
1594 primeiro “pregador apostólico“
pregação quaresmal à Cúria
Francesco Visani de Fognano III 651
Girolamo Finucci de Pistoia (+1570)
III 2355
Sermão XVII, Da confissão!
Vittoria Colonna a Paulo III 1536 II 207
Giovanni Maria de Tusa
Homilia depois da Páscoa III 2459
Cyprian Crousers v. Antwerpen IV 588
Comentário à Regra
“Lectiones paraeneticae“ 1625
François Gagnand de Chambéry I 1904
“Regulares capuccinorum exercitationes“
1634 (Cerimonial)
Giovanni de Fano “A arte da união“
III 305s
Bernardino de Ochino: “Diálogos sete“
III 507
Cristoforo Facciardi de Verrucchio
III 1139
Cornelio Castellucci de Urbino III
1226
Bernardino de Ochino, “Diálogos sete“
III 498
Gregório de Napoles, “Dottrina mirabile“ III 999
Constituições 1536-1643 I 374
Francesco Visani de Fognano III 651
Comentário à Regra I 544
“O amor evangélico“ 1600
Joseph de Dreux IV 426
“Conduite intérieure pour toutes les
actions de la journée“
(Diretório Espiritual)
Girolamo Mautini de Narni III 2881
(1560-1632) arte oratória
sermão quaresmal
no palácio apostólico
François Gagnand de Chambéry I 1962
1634 (Cerimonial)
Giuseppe de Leonessa III 2611
Sermão sobre São José
Programa da Reforma Capuchinha em Textos
e Imagens
Trabalhos de Grupo
Textos sobre “vita itinerans” e “minoritas”
Imagens
Aspectos da “vita itinerans” e “minoritas”
na lembrança de grandes biografias capuchinhas
Primeiros Frades: - Francisco com cenas
de sua vida
- Bernardo de Quintavalle
- Junípero?
- Boaventura
- Antonio
- Francisco com o manto
Primeiros Capuch.: - Mateus de Bascio
- Giovanni de Fano
- Francisco de Jesi
- Ludovico de Reggio Calábria
- Angèle de Joyeuse
- Frans Tittelmans
- José de Leonessa
- Ludovico de Pedacio
- Lourenço de Brindes
- Crispim de Viterbo
- Serafim de Montenegro
- Félix de Cantalício
- Zacarias Boverio
- Fidélis de Sigmaringa
Sobre a estratégia dos capuchinhos
Pregação itinerante partindo do ermo
de Bigorio (reforma católica)
Pregação itinerante ao norte dos Alpes (contra-reforma)
Mapas da Expansão (- Províncias na Alemanha, Áustria
e Suíça)
(- Mapa das confissões religiosas na Suíça)
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